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A volta do Talibã e o histórico do conflito no Afeganistão

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Imagem: EFE/STRINGER

O Talibã, um grupo nacionalista e radical islâmico, chocou o mundo ao tomar mais da metade do território do Afeganistão, no Oriente Médio, em uma rápida ofensiva militar no último mês de Agosto. Em duas semanas, o grupo dominou 26 das 34 capitais de províncias afegãs, se aproveitando principalmente da saída dos militares americanos da região. Com a entrada dos talibãs em Cabul, capital do país, e a fuga do então presidente Ashraf Ghani, o grupo extremista retomou o poder 25 anos após seu primeiro regime.

Em uma das línguas árabes, Talibã significa “estudante” e foi através da união desta etnia islâmica que o grupo radical nasceu. Apoiados e financiados pelos Estados Unidos, os guerrilheiros talibãs participaram da expulsão das forças soviéticas do solo afegão durante a guerra fria. Entretanto, o mestre em ciência política e bacharel em geografia, Mateus Mendes, afirmou que, “Com a queda dos soviéticos, o Afeganistão entrou em nova crise. Até que os Talibãs assumem o poder no meio dos anos 90, transformam o país num califado e impõem uma visão extremamente particular e reacionária do islamismo.”

A expressão mais visível disso foi a eliminação das dimensões social, política e econômica da vida das mulheres. Mas também as penas de mutilação, aplicada aos homens. Nesse contexto, Mendes complementa: “Como todo regime teocrático, a sociedade passou a ser regida pelas escrituras sagradas e, o que talvez seja o mais importante, pela interpretação que um seleto grupo faz das escrituras.”

Há uma enorme preocupação com relação aos direitos básicos das mulheres afegãs com a volta do Talibã no poder, havendo o receio de que elas voltem a ser tratadas como no primeiro regime do grupo fundamentalista. É o que explica João Daniel Almeida, historiador e mestre em Relações Internacionais pela PUC-Rio: “As mulheres certamente terão menos liberdade do que na época da ocupação dos Estados Unidos e sobre o antigo governo que caiu, onde tinham mais direitos mínimos comparados com os de agora.” 

A segunda intervenção dos Estados Unidos no território afegão aconteceu em 2001, como consequência ao atentado terrorista às Torres Gêmeas do World Trade Center, no dia 11 de setembro daquele ano. O Afeganistão abrigou o líder e mandante dos atentados, Osama Bin Laden, do grupo terrorista Al-Qaeda, com quem os talibãs mantinham uma aliança. Após vencer a guerra e colocar fim ao governo extremista, os Estados Unidos decidiram permanecer no Afeganistão para apoiar um governo “democrático” que se mantivesse fiel aos norte-americanos.

Almeida entende com legitimidade a intervenção dos Estados Unidos na busca pelos integrantes da Al-Qaeda escondidos no Afeganistão naquele ano, mas critica a permanência dos americanos na região até 2021, mesmo após a morte do terrorista e a derrota do Talibã. “Se o objetivo era capturar Osama Bin Laden e derrotar a AL-QAEDA, essa ocupação deveria ter acabado há muito tempo. Ele foi assassinado há 10 anos atrás durante o governo Obama, portanto a missão já tinha sido mais do que cumprida”, ele pontua. 

O início do fim da intervenção dos Estados Unidos no Afeganistão começou em 29 de fevereiro de 2020. Ainda presidido por Donald Trump, os americanos se reuniram em Doha no Catar com membros do Talibã para negociar uma retirada definitiva e pacífica do país. Em troca, o Talibã assumiu o compromisso de não permitir que o território fosse usado novamente por nenhum grupo terrorista para ameaçar a segurança de Washington. No fim do acordo, o Talibã exigiu ainda que 5 mil prisioneiros do grupo fossem libertados, fazendo com que o grupo ganhasse ainda mais força na região.

Após a saída de quase todo efetivo militar americano do território afegão, o Talibã retomou o controle do país. O clima predominante entre os afegãos é de insegurança com relação à permanência dos talibãs no poder e se irão adotar uma postura menos extrema de atuação política. Almeida acredita que o Talibã vai ser menos duro do que foi quando tomou o poder pela primeira vez, em 1996, por duas razões: A primeira é porque as pessoas aprendem e da primeira vez eles sofreram uma invasão e foram derrubados pelos EUA e com certeza não querem ser invadidos de novo, além disso, a aceitação da comunidade internacional é necessária e relevante para eles”.

Recentemente, o Talibã deu indícios de que pode ser diferente. Assim que subiram ao poder, se colocaram em defesa da anistia geral, libertaram prisioneiros e declararam que mulheres vão poder frequentar as universidades. No entanto, a perseguição política a seus opositores, revelado por documentos da Organização das Nações Unidas (ONU), deixa um ponto de interrogação se os talibãs cumprirão suas promessas e irão deixar um legado para o povo afegão melhor do que os Estados Unidos da América. 

Créditos da foto de capa: EFE/STRINGER

Reportagem: Fabiano Cruz, Filipe Bias Fernandes e Isys Bueno

Supervisão: Gabriela Leonardi

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