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Os novos caminhos da transmissão de futebol no Brasil

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Segundo dados da Federação Internacional de Futebol (FIFA), o futebol emprega cerca de 270 milhões de pessoas ao redor do mundo. Com milhões de espectadores, a sua transmissão se adaptou ao longo das mudanças na sociedade. No Brasil, iniciou na década de 1930, ainda na rádio, e chegou à televisão nos anos 1950. Hoje em dia, com a forte influência da internet, sua exibição ganhou novas possibilidades que podem assumir o protagonismo em um futuro próximo.

Com a chegada da pandemia da COVID-19, as plataformas online se fortaleceram ainda mais. Segundo a Motion Picture Association of America, o streaming teve um aumento de 26% na assinatura dessas plataformas desde o mês de março de 2020, o que corresponde a 232 milhões de novos usuários. O aumento na receita foi de 34%, com valores de U$14,3 bilhões de dólares. Com tamanho crescimento, novas alternativas surgem também para a transmissão do futebol, como canais próprios dos clubes, aplicativos de streaming e redes sociais.

A entrada da internet balançou os números obtidos pela TV e foi o estopim para diversas mudanças. Em 2014, a TV por assinatura somava quase 20 milhões de assinantes no país. Já em 2020, o número era de 14,9 milhões. Nos primeiros quatro meses de 2021, a televisão fechada já perdeu mais de 521 mil assinantes, segundo a Agência Nacional de Telecomunicações (ANATEL).

Em quase duas décadas, a internet se consolidou no Brasil. De acordo com a Comscore de dezembro de 2020, cerca de 120 milhões de brasileiros estão conectados à internet no país. Segundo Djalma Augusto, produtor do SporTV, a televisão, atualmente, não é mais o foco do consumidor: “Não falamos mais de televisão. As TVs no Brasil tem vida útil de mais ou menos 15 anos. O streaming veio ocupar esse espaço.”

Djalma também acredita que os novos caminhos das mídias digitais são promissores, lucrativos e atrativos ao público. “É uma forma de aproximar ainda mais o torcedor do seu clube. Tem um lado super positivo para as ações e interatividade segmentada. Entendo que cada vez mais isso pode evoluir e crescer”, completa.

André Barros, fundador do Canal Desimpedidos no Youtube, comenta que o cenário televisivo deve se tornar ainda mais descentralizado, e que o mercado está se adaptando aos interesses específicos de cada pessoa. O empresário complementa que as novas gerações estão procurando pelo mundo virtual, como pode ser comprovado na pesquisa realizada pela TIC Kids Online, na qual 86% dos jovens entre 9 e 17 anos alegaram ser usuários de internet.

A jornalista Vanessa Riche, apresentadora da VascoTV, acredita que um dos maiores benefícios do modelo de transmissão online é a possibilidade de interagir com os torcedores via rede social. Assim, eles contribuem com sugestões, críticas e comentários sobre o futuro do time. E todo o processo é feito de forma instantânea ao contrário da televisão. “É uma conversa bem franca e só a rede social permite isso. Quando eu comecei minha carreira na televisão não se tinha isso. Não se sabia a opinião de quem está assistindo. O público ajuda a gente a construir esse conteúdo”, explica.

Segundo relatório da Motion Picture Association of America (MPAA), o número de assinantes de serviços de streaming já superou o de TV a cabo, com crescimento de 27% na quantidade de assinantes em 2018. Já nos esportes, a transmissão ao vivo por meio desses serviços cresce em vários países. Nos Estados Unidos, por exemplo, HBO Max e ESPN+ já oferecem programações esportivas em larga escala e transmitem os principais campeonatos esportivos do país ao vivo.

Diante de um cenário de mudanças, plataformas que transmitem jogos de futebol começam a surgir. No Brasil, projetos como a DAZN, WatchESPN e MyCujoo apresentam iniciativas inovadoras que vêm ganhando espaço entre os espectadores brasileiros. Terence Gargantini, diretor da empresa portuguesa MyCujoo no Brasil, não descarta a importância da televisão aberta, mas realça o crescimento do streaming: “Não vejo nos próximos anos as TV’s abertas saírem de cena, mas com certeza, o streaming, não só no esporte, vem pegando uma fatia considerável do mercado”, afirma. O diretor explica também que o streaming foi impulsionado pela pandemia de COVID-19 e alcança um público-alvo mais jovem, que busca pela praticidade que o serviço pode oferecer.

As dificuldades encontradas pela televisão com relação aos patrocínios foi um dos principais motivos para a ascensão das plataformas virtuais, que tem conquistado os mais diversos investimentos. Após 20 anos de parceria, a Ambev deixou de patrocinar o futebol da Globo. Ao mesmo tempo, a empresa destinou verbas de publicidade diretamente aos clubes brasileiros e a influenciadores digitais, como o ex-jogador Adriano “Imperador”, e os apresentadores do canal Desimpedidos: Fred e Alê Xavier.

Terence Gargantini, diretor da MyCujoo no Brasil, conta que a empresa, inicialmente, precisava de um fundo de investimento que sustentasse a operação. Hoje, o projeto já possui centenas de usuários ativos e conta com a verba de dezenas de empresas patrocinadoras: “No MyCujoo, uma de nossas verticais de receita é o patrocínio. Buscamos empresas que querem se conectar com o consumidor apaixonado por futebol através de nossa plataforma”.

Com a popularização da plataforma, em 2019, a MyCujoo transmitiu ao todo 22 mil jogos e conquistou um público de mais de 26 milhões de usuários. No ano de 2020, após apresentar números atraentes, a empresa foi comprada pela Eleven Sports, uma rede de televisão a cabo portuguesa. A emissora busca expandir os seus serviços para plataformas online e estima ter um faturamento anual de mais de U$300 milhões de dólares, conquistando a meta de 20 milhões de usuários e 30 mil horas de esportes transmitidas em tempo real.

Um exemplo de aplicação de capital com sucesso é a criação do Canal Desimpedidos na plataforma Youtube. André Barros, fundador do empreendimento, conta que foi procurado em 2012 pelo apresentador Luciano Huck e o grupo Joá Investimentos para criar o canal que, até o momento, é um dos maiores da América Latina, conquistando mais de 8 milhões de inscritos e 1,8 bilhão de visualizações. Além disso, ele afirma que para atrair futuros patrocinadores, consolidou um novo projeto para popularização do futebol feminino, selando acordo com a CBF para transmissão dos jogos.

Com o surgimento de novas alternativas online, os clubes de futebol viram com bons olhos a criação de plataformas próprias. Times como Flamengo, Grêmio, Athletico Paranaense e Corinthians já lançaram seus canais online. Diante da queda dos números adquiridos a partir da transmissão via produtos analógicos, passaram a investir em seus próprios streamings. Os times têm lucrado com essa nova perspectiva e pensam em consolidá-las de maneira efetiva para os próximos anos.

Esse é o panorama do Athletico, que foi o primeiro brasileiro a levar os jogos aos produtos online, no dia 1° de março de 2017, transmitindo via Youtube e Facebook. A transmissão do clássico contra o Coritiba, que terminou 3 a 0 para a equipe alviverde, contou com mais de 3,5 milhões de visualizações. Perspectiva semelhante acontece no Flamengo, que rompeu contrato de transmissão do Campeonato Carioca com a TV Globo. O time visa investir nas mídias digitais, principalmente na FlaTV, e tem a expectativa de arrecadar pelo menos 15 milhões de reais por meio deste produto.

Uma das características apresentada por esse novo modelo é a aproximação com a torcida. O fato do torcedor ter a possibilidade de acessar uma página exclusiva e de seu interesse torna a sua experiência mais “calorosa”. Vanessa Riche, apresentadora da VascoTV, fala que esse formato traz aos torcedores, há mais de um ano sem frequentar os estádios, um pouco da emoção do jogo. “Esse momento é muito atípico, porque o torcedor não tem acesso ao estádio, então foi uma oportunidade fantástica para os clubes. Levar um pouco dessa emoção que aproxima o torcedor que não tem mais aquela convivência da resenha no estádio, onde tinha a cervejinha com os amigos.”

Outro diferencial dessas transmissões está nas narrações. Emerson Santos, apresentador da FlaTV, afirma que a linguagem das transmissões televisivas são distintas das utilizadas na de clubes. “É uma linguagem diferente. Eu acho que é bacana porque dá para o torcedor escolher, se quer algo mais imparcial ou passional”, conta o jornalista.

Em contrapartida, Renan Prates, editor da DAZN, acredita que os clubes foram precipitados ao ingressarem nesse novo mercado: “Acredito que os clubes entraram neste modelo muito por achar que era uma forma de ganhar bastante dinheiro de uma forma mais simples, mas agora estão vendo e entendendo que é um mercado mais complexo do que parece”.

Reportagem: João Pedro Fonseca, Lucas Guimarães e Pedro Ribeiro

Supervisão: Gabriela Leonardi e Letícia de Lucas

Fotografia: Rafaela Felicciano/Metrópoles.

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