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O humor em constante movimento

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Muitas das piadas feitas há alguns anos em programas de humor da televisão aberta são, à luz de hoje, consideradas estereotipantes e preconceituosas. As mudanças no conteúdo desse gênero ao longo dos anos são perceptíveis e refletem os valores e revisões morais da sociedade atual. Essa adequação da linguagem cômica a preceitos que buscam não ofender grupos historicamente marginalizados, como as pessoas de pele preta e a comunidade  LGBT+, é denominado politicamente correto.

Para cumprir seu objetivo de fazer rir e levar graça ao público, o humor sempre se utilizou de estereótipos e caricaturas. Seja exacerbando trejeitos ou satirizando aspectos culturais, os humoristas acabavam se apropriando desses discursos em seus roteiros. Por isso, o politicamente correto fez com que muitos roteiristas repensassem sua maneira de escrever para comédia.

A roteirista e escritora Rosana Hermann, que integrou a equipe de produções como Sai de Baixo (Rede Globo) e Tudo pela Audiência (Multishow), explica que essa problematização acerca do humor que sempre foi feito é fruto de uma atual tomada de consciência sobre as relações de opressão que a sociedade perpetua. “E, de fato, muita coisa precisava mesmo de revisão, porque era agressiva, opressora, preconceituosa. Foi necessário rever o humor que se fazia”, sintetiza Rosana.

Muitos dos personagens trabalhados e desenvolvidos por Rosana já foram objetos de questionamento. Em Sai de Baixo, Caco Antibes, vivido por Miguel Falabella, era um empresário falido e esnobe que frequentemente destilava seu ódio contra a população pobre e suburbana e, por isso, foi alvo de críticas. Sobre ele, a escritora rebate: “Caco Antibes era a caricatura da elite decadente e preconceituosa; não era uma exaltação, mas uma crítica a essa postura”. 

A personagem Magda, interpretada por Marisa Orth na mesma série, também foi questionada por simbolizar um discurso misógino que subjuga a inteligência das mulheres. “Magda, como uma mulher burra e bonita, sim, era um estereótipo, uma caricatura, que eu não repetiria, se fosse escrever hoje: reforçaria um estereótipo preconceituoso”, pondera a roteirista. 

Em conversa com o Portal, o ator e comediante Hélio de la Peña diz atribuir essas mudanças na forma de se pensar o humor à uma relação mais direta entre o humorista e o espectador, que foi possibilitada pela internet. “O artista criava e exibia. Cabia ao público receber passivamente o conteúdo criado. As redes sociais deram voz ao espectador. O humorista decide se vai levar em conta este feedback ou não”, explica.

O comediante ressalta que é importante para o artista estar satisfeito com o seu trabalho. “Ele pode querer alcançar um público amplo e assim considerar as limitações da mensagem. Ele pode também optar por ser provocativo, mesmo que desagrade a uma parcela do público”, conta o ator que integrou o elenco do programa “Casseta & Planeta, Urgente!” (Rede Globo). O humorista reitera a temporalidade na recepção das piadas pelo público: Certas piadas que davam certo numa época podem perder a graça num outro momento”.  

Sobre o teor do conteúdo do seu antigo programa, Hélio pontua: “Zoamos muito com os gaúchos, por exemplo, mas nunca achamos que todo gaúcho era gay – a gente brincava com o estereótipo do gaúcho machão. Uma minoria levava a piada ao pé da letra e se incomodava”. O ator ainda defende que, ao não gostar de uma determinada piada, o telespectador tem o direito de mudar de canal e deixar de consumir aquele conteúdo. 

Rosana Hermann explica que nossa “cultura preconceituosíssima” subverteu a máxima humorística de “desempoderar os poderosos e empoderar o desempoderados”, que acompanha a comédia desde a Antiguidade grega. “Humor é o que faz graça, o que surpreende, o arranca risos, afrouxa os laços. O que dá um ‘susto na lógica’, criando novos olhares, novas conexões. Humor que oprime não tem graça”, conclui a roteirista. 

 

Reportagem: Filipe Fernandes | João Pedro Abdo | Leonardo Marchetti 

Supervisão: Gabriela Leonardi | Letícia de Lucas

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