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Aonde foram parar as jornalistas das comédias românticas?

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Há mais de 20 anos, vários filmes transformaram o imaginário sobre a jornalista. Mas elas sumiram das telas. 

O elevador sobe. Bolsas de grife são enquadradas, batons são retocados, sapatos surgem na tela e araras de roupas cruzam os corredores. Quando as portas se abrem e, segundos depois, um casaco é lançado sobre uma mesa, fica claro: Miranda Priestly chegou. As portas da revista fictícia Runway, que remete à Vogue norte-americana na vida real, se abrirão novamente no dia 30 de abril, com o lançamento do filme “O Diabo Veste Prada 2”. O retorno reativa um imaginário que dominou o final da década de 1990 e o início dos anos 2000: o lugar da mulher jornalista nas comédias românticas. Apesar de o primeiro “O Diabo Veste Prada” de 2006 não ser uma comédia romântica clássica, a personagem Andrea Sachs, interpretada pela atriz Anne Hathaway, flerta amorosamente com duas pessoas enquanto ainda tenta ser bem-sucedida no ramo do jornalismo de moda. 

Miranda Priestly (Meryl Streep) e Andy Sachs (Anne Hathaway) em trailer de “O Diabo Veste Prada 2”. Crédito: 20th Century Studios

Títulos como “Nunca fui beijada” (1999); “O diário de Bridget Jones” (2001); “De repente 30” (2004); “Hitch – o conselheiro amoroso (2005); “Os delírios de consumo de Becky Bloom” (2009) e “Uma manhã gloriosa” (2010) marcaram o cinema e ajudaram a consolidar a profissão na mente de muitas jovens da época. De acordo com os dados do site Box Office Mojo, os lucros desses filmes em 2001 batiam a casa de mais de 1 bilhão de dólares. Em 2016, foram pouco mais de 212 milhões de dólares, indicando a tendência de queda.

“A comédia romântica é um gênero do cinema que trabalha na idealização da vida. É um filme que, para muitas pessoas, faz bem assistir porque é gostoso, é fácil”, explica Paula Jacob, jornalista, professora e pesquisadora de cinema. Para a especialista, o gênero apresentava um charme maior nos anos 2000 comparado à atualidade: “As obras recentes não são tão incríveis. O roteiro não é tão bom, fica tudo meio forçado e não tem a despretensiosidade que tinha ali nos anos 2000”. 

Segundo Jacob, o gênero acabou ficando popular por algumas razões. Uma delas vem do próprio jornalismo, retratado no cinema com outros enfoques. Era comum dar destaque aos homens da profissão. Por exemplo, clássicos como “Todos os homens do presidente” (1976), “Cidadão Kane” (1941) e “O informante” (1999) se apoiam nos protagonistas masculinos. “O cinema utilizava o jornalismo como um meio de provocação social. O jornalista era retratado como o herói do cotidiano, muito por conta da influência que tinha na sociedade”, explica Maria Beatriz Pacheco, autora da monografia “Cinema e representações: uma análise semiótica sobre a mulher jornalista na comédia romântica”, TCC apresentado no curso de comunicação da Universidade Federal da Bahia.

Em seu trabalho, ela percebeu que as narrativas das comédias românticas apresentavam uma visão romantizada do fazer jornalístico. Segundo a autora, a imagem do jornalista como “herói”, consolidado em outros filmes, é deixado de lado nas comédias em prol do “final feliz das personagens”, o que só é possível por meio do encontro com o parceiro romântico. A mulher, em algumas tramas, ainda aparece para salvá-lo de uma vida de vícios e azarações. 

Jacob concorda com Pacheco no tocante à idealização da profissão que as comédias românticas despertaram em muitas jovens. “A profissão era muito visada por jovens meninas e mulheres. Houve um boom de pessoas na vida real querendo cursar jornalismo, influenciadas pelos filmes da época”, afirma. O interesse se deslocou do jornalismo mais factual, o famoso hard news, para o jornalismo de lifestyle, moda, beleza e comportamento.

O jornalismo, principalmente o de lifestyle, tinha como objetivo ser o ponto de encontro para o casal. A profissão permite escrever sobre diferentes assuntos e, por isso, muitas cenas exploravam narrativas variadas e espaços de muita sociabilidade para colocar os protagonistas no mesmo ambiente. 

Jenna Rink (Jennifer Garner) no filme “De repente 30”. Foto: IMDb

As mulheres eram representadas como independentes e focadas na ascensão profissional. Entretanto, essa autonomia era mascarada, porque vinha acompanhada da plena realização da vida quando encontrava-se um par romântico. “Criou-se um lugar em que a mulher pode ter todas as coisas: o trabalho, o apartamento, as contas pagas, a independência, mas ela vai ser infeliz porque não casou. É muito triste porque, no fim das contas, esses filmes podem ter contribuído para a infelicidade das mulheres em seus relacionamentos, já que havia tanta idealização”, diz Jacob.

Além da idealização do romance e da profissão, há a clara representação de um padrão de beleza branco e magro na maioria dos filmes. “Essas obras contam a história da época em que foram feitas. Revelam valores, ausências, imaginários e ajudam a entender o que estava sendo naturalizado naquele momento”, afirma a roteirista e jornalista Flávia Vieira, da Associação de Profissionais do Audiovisual Negro. 

A falta de diversidade atinge o público de diversas maneiras e muda a percepção da própria carreira da jornalista. “Quando falta diversidade, não é só uma ausência na tela. É também a restrição de uma possibilidade. Porque se você não se vê, fica muito mais difícil você se imaginar”, complementa Vieira. No entanto, o avanço do pluralismo nas indústrias cinematográficas, principalmente em Hollywood, enfrenta barreiras políticas crescentes: “Com a volta da extrema-direita em um país como os Estados Unidos, que concentra a maior indústria de cinema do mundo, as medidas de diversidade costumam receber os primeiros ataques e cortes no financiamento”, alerta a roteirista. 

A jornalista do início do milênio nas comédias românticas vai desaparecendo das telas. “A verdade nua e crua”, de 2009, e “Uma manhã gloriosa”, de 2010, foram os últimos filmes de sucesso do gênero. De lá pra cá, essa figura quase desapareceu do circuito comercial, encontrando uma brecha em produções para o streaming, como o “O plano imperfeito”, de 2018, e “Alguém Especial”, de 2019. 

É inegável que as mulheres conquistaram outros espaços e não dependem mais de pares românticos para alcançar plenitude ou felicidade, o que pode ter desestimulado o gênero. Para Jacob, o desaparecimento da jornalista nas comédias românticas aconteceu porque o público confia mais em influenciadores hoje em dia e pessoas que não têm nenhuma credencial ou formação em jornalismo. Além disso, a própria área passa por contínuas transformações e ainda luta para acompanhar as mudanças digitais na mesma velocidade em que ocorrem. Somado à crise do digital, houve uma mudança na percepção da profissão: “O jornalista deixou de ser visto como alguém imparcial e mudou para alguém que se posiciona. Na cabeça dos espectadores, a profissão perdeu o glamour”, opina Pacheco. Resta saber se as mudanças vieram para ficar ou se as personagens retornarão um dia. 

Reportagem: Isabella Mattos

Supervisão: Renata Fontanetto














 



 






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