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Entre versões oficiais e investigações: os desafios da cobertura de segurança pública são tema de palestra do jornalista Rafael Soares, na ESPM-Rio

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Casos como o desaparecimento do pedreiro Amarildo de Souza, na Rocinha, em 2013, e o assassinato da vereadora Marielle Franco, em 2018, expuseram não apenas a gravidade da violência no Rio de Janeiro, mas também os limites, e as responsabilidades da cobertura jornalística em segurança pública. Foi a partir de episódios como esses que o jornalista Rafael Soares conduziu uma aula especial com estudantes da ESPM-Rio, centrada nos bastidores da apuração e nos desafios de reportar em contextos marcados por versões conflitantes.

Repórter especial de O Globo e autor do livro Milicianos, Rafael atua há mais de uma década na cobertura de segurança, trajetória iniciada ainda como estagiário no jornal. Ao longo da carreira, foi laureado com prêmios nacionais e internacionais, especialmente por investigações sobre milícias e violência policial.

Durante o encontro, o jornalista destacou que a apuração é o elemento central para lidar com narrativas frequentemente disputadas. “A versão oficial nem sempre é verdade”, afirmou, ao defender a necessidade de ouvir diferentes fontes, incluindo vítimas, familiares e testemunhas, para evitar a reprodução automática de relatos institucionais.

A análise de documentos também aparece como ferramenta decisiva nesse processo. Segundo ele, a leitura de laudos, autos de investigação e processos judiciais permite não apenas aprofundar a reportagem, mas também identificar inconsistências, algo fundamental em casos como o de Amarildo, inicialmente tratado como desaparecimento e posteriormente comprovado como resultado de tortura e morte sob custódia policial.

Ao mesmo tempo, o jornalista alertou para um problema recorrente na rotina das redações, o que classificou como “cobertura protocolar”. “As conexões são essenciais para uma boa história”, disse, ao defender que o repórter vá além do factual imediato e consiga situar cada caso em um contexto mais amplo.

Agentes fora da lei, mas com fichas impecáveis

Ao comentar seu livro Milicianos, Rafael Soares apresentou aos alunos o resultado de anos de investigação sobre a atuação desses grupos no Rio de Janeiro. A obra se baseia em ampla documentação, incluindo processos judiciais e investigações do Ministério Público, e reconstrói a formação e a expansão das milícias no estado.

O livro também evidencia a relação entre agentes públicos e o crime organizado, tema central para compreender episódios recentes da política e da segurança no Rio, como o assassinato de Marielle Franco. Ao mapear essas conexões, o trabalho mostra como estruturas ilegais se consolidam a partir de vínculos com o próprio aparato estatal.

Vale a pena?

O jornalista se emocionou ao lembrar de um dos casos mais marcantes e desafiadores de sua carreira. Ele cobriu intensamente e se tornou próximo de uma mãe que sofria de um câncer terminal quando o filho foi assassinado. Laura Ramos Azevedo, mãe de Lucas de Azevedo Albino, investigou por conta própria a morte do filho, de 18 anos, assassinado por policiais militares em Costa Barros, Rio de Janeiro. 

Diagnosticada com câncer terminal no pulmão, Laura dedicou seus últimos dias a buscar justiça, denunciando a execução de Lucas após sua prisão, morrendo em março de 2023 antes de ver a condenação dos PMs envolvidos. Rafael contou que acompanhou a trajetória de Laura em busca de respostas e revelou que eles se falavam todo dia. Sua morte o comoveu. “Na cobertura de segurança, você vai a 50 enterros por ano. É o pior dia na vida daquela pessoa, daquela família. Você não pode cobrir no automático, sob o risco de fazer um trabalho ruim”, ressaltou ele.

Além de casos emblemáticos, o jornalista também lembrou de períodos em que precisou se afastar do exercício profissional por conta de ameaças: “Em um dos casos, fiquei fora da redação por mais de três meses para preservar minha segurança”, destacou.

Aprender na prática da redação

“A redação me moldou”, afirmou Soares ao relembrar coberturas marcantes da carreira. Para ele, foi na experiência cotidiana, especialmente em casos como o de Amarildo, que se consolidaram não apenas técnicas de apuração, mas também a responsabilidade de lidar com histórias atravessadas pela violência.

Aos estudantes, a mensagem foi direta: em segurança pública, fazer jornalismo exige mais do que acesso à informação. Exige rigor na apuração, capacidade de questionar versões estabelecidas e atenção permanente às implicações sociais de cada narrativa.

 

Reportagem: Adercino Orçay

Supervisão: Pollyanna Brêtas