Crítica: Sonhos de Trem (2025)
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Longa indicado ao Oscar versa sobre o tempo, o luto e a vida em meio a transformações da sociedade.
Há filmes que mais parecem interessados em observar a existência humana. “Sonhos de Trem” (Train Dreams, no inglês, EUA, 2025), dirigido pelo cineasta norte-americano Clint Bentley, é um filme que prefere a contemplação à pressa. Em um momento em que grande parte da produção audiovisual contemporânea aposta em narrativas aceleradas e estímulos constantes para manter a atenção do público espectador, o filme segue em direção oposta. A narrativa desacelera o olhar e faz um convite a observar o mundo com a mesma paciência do protagonista.
Indicado ao Oscar nas categorias de Melhor Filme, Melhor Fotografia, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Som e Melhor Canção Original, o longa é baseado na novela homônima do romancista Denis Johnson e ambientado no início do século 20 nos Estados Unidos. A trama acompanha a jornada de Robert Granier, um lenhador que leva uma vida comum. Em meio ao avanço da modernidade e à expansão ferroviária no país, testemunhamos décadas de uma existência simples, construída a partir de trabalho, amor, perda e solidão.
A adaptação cinematográfica foi escrita pelo diretor em parceria com Greg Kwedar. A dupla colaborou recentemente no roteiro de Sing Sing (EUA, 2023), também indicado ao Oscar, consolidando uma parceria criativa voltada para histórias intimistas e comoventes.
Por que seguimos vivendo?
Essa pergunta atravessa “Sonhos de trem” o tempo todo. O longa consegue falar sobre o sentido da vida sem tentar defini-lo; fala sobre o luto sem tentar transformá-lo em espetáculo. Sobre o amor, tece comentários sem exageros. Tudo é contido.
A escolha aproxima o longa de um tipo de cinema que privilegia a atmosfera e a experiência sensorial em vez de um drama tradicional. Em vez de conduzir a narrativa por meio de grandes conflitos e reviravoltas, o filme aposta na observação do cotidiano e na passagem do tempo como elementos centrais da história.
A fotografia, assinada pelo brasileiro Adolpho Veloso, indicado ao Oscar de Melhor Fotografia, é um dos pontos mais fortes da produção. A luz natural e as paisagens imersivas criam um enquadramento que abraça o ritmo da história. Segundo Veloso, a construção visual foi inspirada em fotografias antigas, como se a narrativa fosse uma colagem de lembranças fragmentadas.

Legenda: Adolpho Veloso no Critic Choice Awards 2026
Crédito: Matt Winkelmeyer/Getty Images for Critics Choice Association
Entre as referências visuais citadas por Veloso numa entrevista à CNN Brasil, estão os trabalhos da fotógrafa estadunidense Dorothea Lange e do cineasta russo Andrei Tarkóvski, especialmente filmes como “O Espelho” (1975), “Stalker” (1979) e “O Sacrifício” (1986). Assim como nessas obras, as imagens em “Sonhos de Trem” funcionam menos como registros narrativos e mais como espaços de contemplação.
Já a atuação do protagonista segue uma lógica contida. O personagem é construído como um homem introspectivo, marcado pelo silêncio e por uma forma reservada de lidar com as próprias emoções. A interpretação de Joel Edgerton aposta em momentos pontuais de expressão.
No fim, “Sonhos de Trem” é um filme muito atravessado pelo luto e pelo tempo. A dor aparece no dia a dia de forma silenciosa. O que o filme mostra é que viver é também aprender a seguir mesmo com perdas. Não vá com a expectativa de uma grande superação.
Crítica: Isabella Mattos
Supervisão: Renata Fontanetto
Assista ao trailer:
Train Dreams | Official Trailer | Netflix



