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Do Leme ao Pontal

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As perdas e os erros estruturais da prometida ciclovia mais linda do mundo

“Vou correr, volto já, te amo muito”, dizia a carta do engenheiro Eduardo Marinho, deixada para seu filho, Rodrigo, de 15 anos, naquela manhã de 21 de abril de 2016. A previsão era chegar ao meio-dia em casa, depois da sua habitual corrida matinal. Eduardo, estava animado com a recém-inaugurada ciclovia Tim Maia, construída na Avenida Niemeyer. Com apenas uma pista em mão dupla, a avenida tem início no nobre bairro do Leblon e termina em São Conrado – outro bairro da zona sul, onde se localiza a favela da Rocinha. A Niemeyer beira o Oceano Atlântico em seus quase 5 quilômetros de extensão e o transeunte que a cruza, vislumbra um grande mar azul anil que reflete a luz do sol, em um horizonte panorâmico. Além da famosíssima favela do Vidigal, que detém o reconhecimento de ser a comunidade com a vista mais linda do Rio de Janeiro, a avenida conta com condomínios e hotéis luxuosos. Em um percurso Leblon-São Conrado, é possível reparar no início – à esquerda – o grandioso e internacional hotel Sheraton, com sua praia privada. Mais a frente – à direita – o Vidigal, seguido do motel Shalimar. Depois se passa pelo famoso motel Vips, que fica acima do nível da pista. Mais à frente a Gruta da Imprensa e, finalmente, a Niemeyer desemboca no Gran Meliá Nacional, um hotel com 33 andares, coberto por vidro, construído de forma cilíndrica e projetado pelo arquiteto Oscar Niemeyer.

Mesmo de muleta e com uma bota imobilizadora na perna direita, o prefeito do Rio, Eduardo Paes, compareceu na inauguração da “ciclovia mais bonita do mundo”. Era dia 17 de janeiro de 2016, um domingo nublado na cidade. Vestindo uma camisa social branca e uma bermuda de linho clara, o prefeito saiu do mirante do Leblon em direção a São Conrado, por volta das 11:00, e percorreu os 3,9 quilômetros de ciclovia em uma bicicleta triciclo. Na garupa e acompanhado de 100 ciclistas, Paes – carismático e carioca da cabeça aos pés – estava realizado com a construção durante seu mandato e próspero com a chegada das olimpíadas na cidade 7 meses depois. Sorriu para as fotos de Custódio Coimbra (O GLOBO) e fez selfies com os ciclistas presentes. O clima era de festa com a inauguração, mas o pior estava por vir 3 breves meses depois.

21 de abril de 2016 – dia de Tiradentes -, 8:02 é acesa a tocha olímpica na Grécia, rumo ao Rio de Janeiro. 11:13 um trecho de 50 metros da ciclovia Tim Maia desaba em decorrência de uma forte onda e ceifa a vida de 2 pessoas: o gari Ronaldo Severino da Silva, 60, e o engenheiro Eduardo Marinho de Albuquerque, 54. 22 de abril de 2016 a capa do GLOBO é marcada por denúncias. “Tragédia no feriado: ciclovia não resiste a ressaca, desaba e mata 2. ” O desabamento aconteceu exatamente na altura da conhecida Gruta da Imprensa. Era uma quinta-feira de sol no Rio, um daqueles dias sem nuvem nenhuma no céu. Mas era uma semana que o Atlântico estava recebendo o Swell, um fenômeno marítimo que provoca altas ondas e fortes ressacas.

A queda da ciclovia não foi surpresa nenhuma para os moradores de São Conrado. Os avisos de deterioração e pedidos para evitarem a recém-inaugurada ciclovia, começaram semanas antes do primeiro desabamento. Foram 4 trechos destruídos da ciclovia em momentos diferentes. A primeira, com a ressaca do mar e as outras por deslizamento de terra devido a chuvas torrenciais. Marcello Farias, criador da página “Salvemos São Conrado” e diretor ambiental da associação de surf, afirma que atentou os moradores sobre graves problemas na construção. Inclusive, no dia anterior ao primeiro desabamento, a defesa civil interditou o trecho final da ciclovia – uma rampa de acesso no lado de São Conrado. No fatídico dia, Farias estava dando uma entrevista para rádio Band News, às 7:00, justo sobre os problemas estruturais das calçadas e de alguns trechos da ciclovia.

Considerado o pai da ponte Rio-Niterói, o engenheiro Carlos Henrique Siqueira explicou sobre os problemas estruturais da ciclovia. Em entrevista, Carlos diz que uma obra não cai apenas por uma razão, mas que há um motivo principal e um secundário que se juntam e geram um colapso total da obra. No entanto, Siqueira afirmou que no caso da ciclovia Tim Maia, ocorreram várias falhas. A primeira foi com relação à falta de uma “CQP” (Controle de Qualidade de Projeto). “Hoje, quando se faz um projeto, se contrata uma outra empresa independente para verificar as condições do projeto e, pelo que eu soube, isso não foi feito”, enfatizou o engenheiro. Ele ainda complementa que além da falta desse controle, a escassez de uma eficaz fiscalização também foi de suma importância para que a tragédia ocorresse com a ciclovia.

Além do desabamento em abril de 2016, a ciclovia voltou a desmoronar em fevereiro de 2018. Mais ou menos 30 metros do segundo trecho, na saída de São Conrado para a Barra, cederam em uma noite chuvosa que atingiu o Rio de Janeiro. Já sob a gestão de Marcelo Crivella, o prefeito explicou que uma galeria que passava sob a via havia se rompido e encharcado o solo, provocando a queda por enfraquecimento das vigas de sustentação da pista. Após o incidente, a Justiça interditou completamente a ciclovia a pedido do Ministério Público.

Reaberta em 2019 após seu sistema de suporte ter sido supostamente reforçado, a ciclovia voltou a desmoronar no mesmo ano após um forte temporal, por sorte, assim como em 2018, sem vitimar nenhuma pessoa. A respeito da reincidência dos desabamentos da ciclovia, Siqueira pontua que toda obra tem que ter qualidade, pois sem qualidade a obra perece e não tem longevidade. O engenheiro chega a comparar a ciclovia com a longínqua obra da ponte Rio-Niterói, que há 50 anos não possui um problema estrutural grave. “Como um país que há muito tempo atrás constrói a ponte Rio-Niterói e cinquenta anos depois não consegue construir uma porcaria daquela”, finalizou enérgico.

Atualmente existe um impasse que divide opiniões dentro do poder público e da própria população carioca: entre gastar mais recursos, a fim de reabrir a ciclovia, ou colocar um fim a ela de uma vez por todas. Há inclusive um movimento chamado “Não Vamos Esquecer a Ciclovia”, que é a favor da demolição pela série de falhas na obra. Tentamos contato com a empresa responsável pela construção, mas não obtivemos resposta.

Sobre o primeiro desabamento, que ceifou as vidas do gari Ronaldo Severino da Silva, 60, e do engenheiro Eduardo Marinho de Albuquerque, 54, a justiça condenou o Consórcio Contemat-Concrejato, empreiteira responsável pela construção da ciclovia, a pagar mais de R$ 1,3 milhão aos familiares de Eduardo. O dinheiro será dividido entre a viúva, o filho, os pais e os irmãos da vítima. Não há informações a respeito dos familiares de Ronaldo Severino.

No ano passado, a Justiça condenou a quase 4 anos de prisão, os 15 réus no processo sobre a queda da Ciclovia Tim Maia. Os engenheiros e profissionais envolvidos no projeto tiveram as suas penas convertidas em prestação de serviços à comunidade. Além disso, a prefeitura do Rio exonerou os presidentes da Empresa Municipal de Urbanização e da Fundação Instituto Geotécnica, que também tiveram participação na elaboração da ciclovia.

A obra que custou mais de 40 milhões reais segue abandonada pelo poder público. Dezenas de trechos, dos quase 4 quilômetros da ciclovia, estão interditados. Naquela manhã de 21 de abril o céu estava limpo e não havia recebido nem uma nuvem sequer, mas às 11:13 essa imensidão azul recebeu duas estrelas. A carta deixada pelo pai de Rodrigo, dizia “volto já”, mas ele nunca mais voltou.

Reportagem: Leonardo Marchetti e Filipe Fernandes 

Supervisão: Letícia De Lucas

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