Futebol em busca de mais fluidez: como as regras mudaram para reduzir o antijogo ao longo da história
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O Campeonato Brasileiro adotou novas regras na busca de um jogo mais fluido. O objetivo é aumentar o tempo médio de bola rolando nas partidas, de 52 para 57 minutos. A vigésima terceira rodada, do dia 15 até 17 de agosto, foi a primeira com as novas regras. Com elas, o tempo de bola rolando cresceu em 3 minutos na média. No jogo entre Athletico Paranaense e Red Bull Bragantino, passou dos 60 minutos, tempo considerado ideal pela Fifa.
Essa é a mudança mais recente em mais de um século de tentativas de tornar as partidas mais dinâmicas, e aumentar o tempo de bola rolando. Desde a definição dos 90 minutos de jogo até alterações envolvendo goleiros, substituições e atendimentos médicos, a evolução das regras mostra uma tentativa constante de combater interrupções e práticas de antijogo.
O jornalista esportivo Sérgio du Bocage diz que o antijogo, popularmente conhecido como “cera”, faz parte da história do futebol: “A cera é uma estratégia para deixar o tempo passar principalmente quando se enfrenta um adversário mais forte ou quando está vencendo a partida. Mas também é uma forma de reduzir o ritmo do adversário e acalmar a partida em seu benefício”.
A Fifa tem demonstrado preocupação com os excessos no antijogo. As mudanças mais recentes nas regras, ocorridas na Copa do Mundo de 2026, buscam reduzir o tempo perdido. Entre as novas medidas estão o limite de cinco segundos para cobranças de lateral, oito segundos para tiros de meta, além de punições para substituições demoradas. O jogador substituído deve deixar o campo pelo ponto mais próximo e, caso ultrapasse o tempo determinado, o atleta que entra precisa aguardar antes de participar da partida.
Os árbitros também precisam agora realizar a contagem do tempo do retorno da bola ao jogo em saídas laterais ou nas linhas de fundo, sinalizando aos cobradores o tempo faltante para a reposição. O comentarista do SporTV Paulo César Vasconcellos espera que essa medida valorize o tempo de jogo. “A partir do momento que o goleiro coloca a bola no chão para reiniciar o jogo, o árbitro começa a contar. Isso tem que virar um padrão.”
O mesmo princípio passou a ser aplicado aos atendimentos médicos. Quando um jogador de linha recebe atendimento dentro do campo, ele deve permanecer fora por pelo menos um minuto antes de retornar. A medida também pode deixar temporariamente uma equipe com um jogador a menos. Um exemplo já ocorreu no Campeonato Brasileiro, em uma partida entre Vasco e Santos, no dia 16 de agosto, quando o goleiro santista Gabriel Brazão recebeu atendimento, e Neymar, capitão da equipe, precisou deixar o campo temporariamente.
Tentativas históricas para melhorar a fluidez do tempo de jogo no futebol
Desde as origens do esporte, as regras foram sendo adaptadas para melhorar o fluxo do jogo. Antes de existir uma duração fixa, as partidas podiam terminar apenas quando os jogadores chegavam ao limite físico. Os confrontos costumavam durar entre 60 e 80 minutos, sem um tempo de intervalo definido, até que, em 1897, os 90 minutos foram estabelecidos como duração padrão. A ideia era de que seria um tempo suficiente tanto para desenvolver o jogo, quanto um limite físico razoável, com um intervalo de 15 minutos.
Poucos anos depois, em 1904, outra mudança contribuiu para a continuidade das partidas: a criação da lei da vantagem. A norma permite que o árbitro deixe o jogo correr após uma falta quando a equipe que sofreu a infração permanece com a posse da bola e possui uma situação favorável de ataque. Dessa forma, uma infração não necessariamente interrompe uma jogada que pode resultar em uma oportunidade de gol.
O controle do tempo perdido também se tornou cada vez mais rigoroso. Os acréscimos, incorporados às regras no final do século 19, passaram a levar em consideração interrupções provocadas por lesões, substituições, comemorações de gols e outras paralisações. A mudança passou a valer durante a Copa do Mundo de 2022, no Catar, quando os árbitros passaram a compensar de maneira mais rigorosa o tempo efetivamente perdido. Em algumas partidas, os acréscimos ultrapassaram os dez minutos, chegando a 27 minutos no duelo entre Inglaterra e Irã, vencido pelos ingleses por 6 a 2. A medida buscava aproximar o tempo efetivamente jogado da duração oficial da partida.
Uma das maiores revoluções nesse sentido, porém, aconteceu em 1992, com a proibição de o goleiro pegar com as mãos uma bola recuada deliberadamente por um companheiro. Antes da mudança, equipes que queriam administrar uma vantagem podiam trocar passes entre defensores e goleiro, que segurava a bola com as mãos para gastar tempo. A prática ficou conhecida como uma das principais formas de “cera” do futebol.
“O que mudou é que os goleiros passaram a jogar mais com os pés, e isso evoluiu até o ponto de fazê-los mais um zagueiro e obrigá-los a saberem usar os pés”, diz Bocage. A mudança também contribuiu para o crescimento de estratégias como a pressão na saída de bola, já que o goleiro passou a fazer parte da construção das jogadas.
Outra tentativa de impedir a perda excessiva de tempo envolveu a posse do goleiro com as mãos. Até o fim dos anos 1990, vigorava a chamada “regra dos quatro passos”, que limitava a quantidade de passos que o goleiro poderia dar enquanto segurava a bola. A norma acabou sendo abolida em 2000, quando a contagem passou a ser feita em segundos. A regra determinava que o goleiro teria seis segundos para recolocar a bola em jogo. Na prática, porém, a aplicação era pouco rigorosa, já que uma infração resultava em tiro livre indireto dentro da área.
Em 2025, a regra passou por nova alteração. O período permitido para o goleiro controlar a bola aumentou para oito segundos, mas a punição também foi modificada: caso o limite seja ultrapassado, a equipe adversária recebe um escanteio. A mudança procura facilitar a fiscalização dos árbitros e evitar que a punição seja considerada desproporcional.
A tecnologia também passou a fazer parte desse processo. O VAR, sigla para Árbitro Assistente de Vídeo, começou a ser utilizado oficialmente em partidas oficiais em 2016 e foi regulamentado pela International Football Association Board (Ifab). A ferramenta busca corrigir erros claros em situações decisivas, como gols, pênaltis e cartões vermelhos, ainda que também tenha acrescentado novas interrupções às partidas.
É muito comum a arbitragem de vídeo receber críticas dos torcedores por falhas, demora excessiva e falta de critério, além de o árbitro de campo depender do VAR de maneira exagerada. Paulo César Vasconcellos diz que o VAR precisa respeitar as determinações do juiz de campo: “O VAR só deveria intervir em lances que notadamente o árbitro não está bem colocado e teve uma limitação na compreensão do lance”.
Vasconcellos afirma que a redução do antijogo não depende só da arbitragem: “A gente tem que olhar também para a maneira como se comportam os jogadores e integrantes de comissões técnicas, porque a mudança não pode se limitar ao estabelecimento de regras e cumprimento delas por parte do árbitro e de sua equipe”.
Reportagem: Carlos Colla, Gustavo Campos e Iago Valadares
Supervisão: Guilherme Freitas e Renata Fontanetto
Crédito da foto: Latvijas Futbola federācija, Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 2.0



