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A influência estadunidense no Brasil e no mundo

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A vitória do democrata Joe Biden nas eleições estadunidenses promete trazer profundas mudanças no cenário mundial político, social e econômico. No Brasil, há dúvidas ainda maiores sobre como a relação Estados Unidos-Brasil pode ser afetada, levando em conta que o presidente Jair Bolsonaro possui uma forte aliança com o até então presidente Donald Trump. Bolsonaro e Trump são abertamente conservadores, possuem posicionamento ideológico de direita e uma tendência populista, o que ajudou a fortalecer um relacionamento entre os dois países desde o ano passado. Porém, a influência dos Estados Unidos sobre o Brasil não é recente, pelo contrário, a maioria dos países latino-americanos demonstra ter uma maior dependência do país norte-americano há décadas.   

Essa dependência está presente, de certa forma, desde a ascensão econômica dos Estados Unidos, mas começou a se consolidar durante o governo de Getúlio Vargas, com acordos feitos entre os dois países, e, principalmente, a partir dos anos 60, quando o Brasil apresentou de maneira clara tal influência. Enquanto alguns falam sobre uma aliança, o professor de Relações Internacionais Elídio Marques, afirma que há uma série de estudos críticos que mostram que tal relação é desigual e hierarquizada. Dois exemplos que mostram as interferências estadunidenses no Brasil foram no golpe militar de 1964 e no impeachment de Dilma Rousseff, em 2016. “Não é uma moda ou uma obsessão temática: os EUA são importantes na determinação da situação do Brasil. Em parte por razões mais objetivas – pelo político e econômico – ou por interferência intencional e indevida daquele país na nossa dinâmica interna.” diz Elídio.  

A influência dos EUA já foi colocada em questionamento na América Latina com a criação da CELAC, organismo internacional da comunidade latino-americana e caribenha. A vontade de atingir uma política externa unificada, não só com os países da América do Sul, mas também com toda a América Latina, foi sendo enfraquecida aos poucos diante dos Estados Unidos, que se tornou uma potência mundial. “Os Estados Unidos tem uma estrutura que vai muito além desse poder econômico, uma estrutura de soft power de um lado, e uma estrutura de poder militar do outro”, afirma o doutor em ciência política Pedro Abramovay. 

Outro momento em que podemos observar a influência dos EUA são nos compilados de notícias. O Brasil está às vésperas das eleições municipais e o Amapá, que está sem luz há 10 dias, terá sua votação adiada, mas não tem a mesma visibilidade se comparado às eleições norte-americanas. A professora e doutora Lise Sedrez afirma que não é só no Brasil que isso está ocorrendo. A Itália, por exemplo, que passa por uma nova crise de Covid-19, está dando mais espaço para as eleições americanas nas mídias. “Você possui uma indústria de notícias nos EUA que produz uma quantidade enorme de material e, para as agências de notícias do mundo, é muito tentador você sempre se apropriar daquele material e passar adiante” acrescenta a professora. Elídio fala também que, apesar de terem perdido muito espaço, os grandes conglomerados empresariais ainda possuem um importante papel nos regimes políticos ocidentais. “Nas eleições dos EUA são estes meios que praticamente proclamam os vencedores, já que não há um órgão eleitoral nacional.”, observa o professor. 

Mais um exemplo disso foi em maio deste ano, um movimento de indignação, chamado de ‘Black Lives Matter’ (Vidas Negras Importam), relacionado à morte de George Floyd, Breonna Tylor e outros casos de violência policial contra a população negra, levou milhares de pessoas do mundo inteiro às ruas em protesto. Muito perto do ocorrido, em junho, Gabriel, de 19 anos, passou por uma situação muito parecida com a de George, mas ganhou menos repercussão, já que no Brasil esses acontecimentos, infelizmente, se tornaram comuns. De acordo com Lise, estatísticas revelam que a quantidade de jovens negros que morrem no Brasil pela violência policial é bem maior que a dos EUA. “Há um apagamento desses movimentos sociais ‘caseiros’ em nome desses movimentos sociais que são feitos nos Estados Unidos.”, completa a professora. 

A China é um dos exemplos de países que possuem fortes relações econômicas em toda a América Latina, incluindo o Brasil. Mesmo assim, pode-se observar que não há uma tentativa por parte do país asiático em ter o mesmo poder que os Estados Unidos na questão cultural, como reitera Pedro. “Isso faz com que do ponto de vista do imaginário, das discussões, entre outros, os Estados Unidos sejam muito mais presentes do que a China ou de qualquer outro país”. Ou seja, não houve uma diminuição do poder dos EUA como poder político, já que a China não disputa de maneira tão agressiva esse poder.

Reportagem: Amanda Domicioli, Ana Beatriz Miranda, Brenda Barros, Bruna Barros, Camila Hucs, Felipe Roza, Gabriela Leonardi, Letícia de Lucas e Tiago Tassi

Supervisão: Pedro Cardoso

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