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A chuva que não deve ser esquecida

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No dia 15 de fevereiro deste ano, Petrópolis foi assolada por uma chuva que deixou mais de 240 mortos e 3 desaparecidos, além de centenas de feridos e desabrigados. A quantidade desproporcional de água foi um dos fatores para os inúmeros deslizamentos e acidentes; o total de chuva chegou a 258,6 milímetros em três horas, a pior taxa na história petropolitana. Além disso, a falta de estrutura da cidade e de investimento das autoridades auxiliaram no desenrolar da tragédia.

O professor e geógrafo Felipe Bueno explica que a região serrana do Rio de Janeiro é propensa a temporais devido ao relevo associado à dinâmica atmosférica. Quando as massas de ar frio chegam e se deparam com a serra, que é uma barreira geográfica, a umidade vinda do Oceano Atlântico se condensa, levando à formação de chuvas. Com as frentes frias, esse fenômeno fica mais regular, que é conhecido por chuvas orográficas, muito comuns não apenas nessa área, mas também em outros estados do sul e sudeste do país. “Historicamente a gente vê em Petrópolis problemas e vítimas de eventos extremos de chuvas.” Apesar do clima chuvoso ser parte da cidade, os cidadãos não estavam preparados para o dia 15.

QUANDO A CHUVA COMEÇOU 

Naquela terça-feira, a estudante Ana Luiza Trindade, de 20 anos, tinha sua consulta na psicóloga, como de costume. Ela conta que saiu mais cedo do trabalho e foi para seu destino, um consultório embaixo da rua Teresa, um dos locais que seriam mais atingidos algumas horas depois. Ana acabou se atrasando e terminou de ser atendida dez minutos após o esperado, e embora já tivesse começado a chover, não havia nada que parecesse fora do comum. A estudante se dirigiu para a avenida e percebeu que havia alguns alagamentos: “Eu pensei ‘ah, só está chovendo bastante e deve ter alagado um pouco, porque essa avenida sempre alagou’”. Ela só entendeu que havia algo errado quando viu que metade das lojas já estavam inundadas. 

Eliza Pildervasser tem 20 anos, é petropolitana, mas atualmente mora em Juiz de Fora, onde estuda Rádio, TV e Internet na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Por fazer viagens de ônibus recorrentes até Petrópolis para visitar sua família, ela ativou as notificações da Defesa Civil em seu celular para receber alertas meteorológicos. Foi assim que ela tomou conhecimento do que estava prestes a acontecer. “A gente [os cidadãos de Petrópolis] subestimou essa chuva. Pensamos que fosse só mais uma pancada normal, porque já estamos acostumados.” 

Porém, os estragos começaram antes que qualquer um pudesse prever, indicando que não seria uma chuva de verão qualquer. Eliza afirma que o intervalo de tempo entre os acontecimentos foi muito curto. “Às 15:30, eu recebi a notificação, e às 17 horas abri o meu Twitter e vi: ‘prédio com risco de desabamento’, e o prédio era do lado de casa. Foi um caos enorme. Quando eu comecei a ver aquilo, eu pensei ‘bom, o problema está maior do que o que eu estava imaginando.’” 

O estudante de Economia da Universidade Federal Fluminense (UFF), Guilherme Barroso, de 22 anos, mora em um dos pontos mais altos da rua Teresa, que se divide em outras menores. Enquanto Ana Luiza mandava fotos da situação para Guilherme, que é seu namorado, ela pensava “Bom, agora não faz diferença para onde eu vou, contanto que eu não fique na enchente”. Ele aconselhou Ana para que fosse até sua casa, pois, em teoria, não haveria grandes riscos. No entanto, ela relata que, assim que começou a subir, um buraco fez com que uma grande quantidade de água e lama começasse a descer simultaneamente. A estudante conseguiu chegar à casa de Guilherme após desviar de diversas poças, carros e enchentes. “Troquei de roupa, porque estava toda encharcada, deu vinte minutos e caiu tudo em volta da casa dele”.

O estado em que a cidade se encontrava fez com que muitos ficassem sem acesso à energia e sinal de internet em suas casas, inclusive nos dias que sucederam o ocorrido. Guilherme, por exemplo, ficou sem luz por três dias, tendo que ir carregar seu celular no shopping mais próximo. Eliza diz que isso a desesperou, já que estava em outra cidade no momento das chuvas e, consequentemente, sem notícias de sua família. “Os meus pais ficaram 18 horas sem energia. Era um caos, porque eu não sabia o que fazer.” 

Ainda no dia 15, Ana Luiza e Guilherme continuavam isolados na casa, mas escutavam os gritos e barulhos de coisas caindo – um posto de gasolina ao lado da casa de Guilherme foi destruído pelas pedras que rolaram de cima do morro. Quando era por volta de meia-noite, o pai de Ana Luiza calçou botas, passou pela enchente e foi buscá-la, pois ele só pensava em ter todos os membros de sua família em sua casa, seguros. Conforme Ana descia a rua, ela fazia a exata distinção de como tudo era e o estado em que se encontrava: roupas no chão, pertences e carros destruídos. “Lembro que eu fui andando pra casa o caminho inteiro olhando pro chão rezando para não ver nenhum corpo, porque se eu visse eu desabaria no meio da rua (…) Eu já não estava aguentando, só queria ir pra casa chorar.”

Foto: Arquivo pessoal/Guilherme Barroso

Petrópolis é uma das maiores cidades da região serrana. Com, aproximadamente, 307 mil habitantes, o número fica na frente de suas cidades vizinhas, como Teresópolis, que tem cerca de 186 mil pessoas, e Nova Friburgo, de 191 mil, segundo os últimos levantamentos do IBGE. Mesmo assim, a densidade populacional não impede que os moradores se conheçam. Na verdade, acontece o oposto. Suzana Pires é professora de química e dá aulas em escolas, tanto no Rio quanto em Petrópolis, e na Universidade Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Todos os dias ela faz o caminho Rio-Petrópolis para trabalhar. Ela fala que perdeu estudantes na tragédia. “Daquele monte que passava na televisão, eu tinha 8 alunos. É muito triste.” 

A cunhada de Ana Luiza perdeu a mãe e a irmã. Elas estavam presas na Vila Felipe, um dos lugares de mais difícil acesso, e a ajuda chegou apenas uma semana depois da chuva, que foi quando encontraram os corpos. A estudante Eliza também comenta que perdeu uma ente querida, que estava na academia onde sua irmã trabalha – naquele dia ela não foi ao trabalho – quando uma barreira caiu em cima do local. Muitos conseguiram fugir, porém a amiga da família de Eliza foi encontrada sem vida; seu corpo foi arrastado do alto da serra até Itaipava, quase na saída da cidade. 

Eliza conta que sua amiga Isadora morava em uma área em que houve uma queda de barreira. Neste local, Gabriel Vila Real da Rocha, de 17 anos, morreu quando o ônibus onde estava caiu no Rio Quitandinha. A trágica história do estudante ficou conhecida por seus pais procurarem por ele nas águas. Durante a enchente, Isadora pôde ouvir os gritos da família do jovem, e disse à amiga: “Eliza, o meu maior choque não foi quando as pessoas estavam berrando por socorro, mas que estavam berrando por socorro e depois pararam. Porque quando pararam é porque não tinha mais o que fazer.”

A professora Suzana relata a história de um conhecido. Um eletricista, que na época fazia serviços em sua casa, cujo nome não foi mencionado, perdeu toda a família na tragédia, seus pais, irmãos e sobrinhos, somente restando ele, a esposa e a filha. Agora, o profissional foi morar no interior da Bahia na tentativa de recomeçar. “Ele não morreu porque ele tinha ido à escola buscar a filha e a esposa, que é enfermeira. Ele passou no hospital para buscá-la, e ela não podia ir porque estava no hospital ajudando [as vítimas].”

No próprio dia 15, diversos grupos já estavam sendo criados para compartilhar informações acerca da chuva e os possíveis desaparecidos. Guilherme diz que algo que o impactou foi ver o vídeo de uma rua onde os carros e postes desciam “como se fossem papel”, e quando mostrou para sua mãe, percebeu que o local era a apenas alguns metros de onde morava. O problema do compartilhamento assíduo de conteúdos é que não há como controlar o que está sendo enviado, como explica Ana Luiza. “Eu me lembro até de uma imagem de uma moça que estava pelada e presa em ferragens, morta… e mandaram no grupo e todo mundo assim  ‘Porque você está mandando isso? Que coisa horrorosa!’”

Outro problema durante a tragédia foi a disseminação de fake news. Nos grupos de mensagem, pessoas afirmavam que estavam tendo tiroteios em locais onde não havia, que o exército havia chegado e estava atirando em civis, além de outras informações que eram falsas, mas que no momento causavam ainda mais pânico. “Quando estava acontecendo, sobre se a pedra ia cair ou não, o nome do grupo mudava pra ‘caiu’ ou ‘não caiu’, e, assim, ninguém quer ler isso”, conta Ana Luiza. 

Guilherme foi uma das vítimas dos rumores sobre o deslizamento de pedra da Rua Teresa. Sua mãe lhe telefonou para pedir que fosse imediatamente para casa, pois a pedra estava rolando e o local seria interditado. Porém, tudo não passava de um boato. Ele diz que foi uma sensação inexplicável, em que se mistura raiva, tristeza e desespero, além de se perguntar o porquê de essa situação estar lhe acontecendo. “É muito complicado, porque você fica nessa de estar grato por estar vivo, mas também vivendo nessa incerteza de que eu não sei se uma pedra vai cair na minha cabeça.” Guilherme e sua família moraram por duas semanas na casa de sua avó. 

Após esse período, o estudante voltou para a Rua Teresa, apesar dos protestos da mãe. Ele relembra que, inicialmente, havia apenas cinco pessoas, pois o resto da vizinhança havia saído devido ao risco da pedra cair. Um diagnóstico da Defesa Civil revelou quais eram as áreas de risco, e a casa de Guilherme estava fora de perigo. “Tem gente que quis sair, tem gente que morava de aluguel que preferiu pegar o aluguel social. Dentro dessa situação tem várias outras situações específicas”. Mais de 8 mil famílias se inscreveram para ter acesso ao aluguel social, mas até o dia 6 deste mês, apenas 1.295 receberam a ajuda da Prefeitura.

Foto: Arquivo pessoal/Guilherme Barroso

O jovem acredita que muitos dos boatos são criados a partir do despreparo das autoridades para situações como a do rolamento da pedra perto de sua casa. Em sua visão, a Defesa Civil não tem como informar corretamente os acontecimentos seguintes, além de existir falta de comunicação entre os próprios funcionários dos órgãos competentes. “A Defesa Civil não tem a capacidade de garantir que ela [a pedra] vai ou não descer. Por precaução, eles falam ‘todo mundo tem que sair’. Se você for lá perguntar, vai ter um cara que vai dizer que é seguro, e outro que vai falar  ‘você não pode ir…’. É muita informação desconexa. Só que está mexendo com vidas, você vai sair da sua casa. Tem que ter a responsabilidade de dar a informação certa.”

OS HERÓIS DE PETRÓPOLIS

Com a necessidade de auxiliar todos os afetados após a chuva em fevereiro, ficou nítido para os moradores o despreparo das autoridades, como diz Eliza: “As próprias equipes que estavam ali para ajudar, a parte técnica, não estavam preparadas. Você conseguia ver o despreparo de todo mundo. Você vê, saiu até no jornal, a história do Carlos, Carlos Menezes, ele cavando para procurar a família. Cavando! Sozinho! O pai do Gabriel procurando nos rios. Sozinho!”.

Ana Luiza também analisa a tentativa dos socorristas em prestar atendimento. “Obviamente teve muito bombeiro ajudando, teve policiais ajudando, eu não posso dizer que não… Se você é um funcionário e te mandam pra um lugar, você não pode simplesmente falar ‘não’ e ir a outro lugar, então eu também não jogo a culpa pra eles. Mas quem estava mandando nisso não estava fazendo direito, não estava se preocupando com a população”. Assim, grande parte da ajuda foi disponibilizada pelos próprios moradores, dando destaque aos motociclistas, que atravessaram os pontos mais inacessíveis da cidade para levar comida e roupas. “Eu não posso dizer que ninguém ajudou, mas se eu tenho que chamar de herói mesmo eu chamo a população”, complementa. 

Além da falta de mobilização dos órgãos no resgate de vidas, a dificuldade para limpar as ruas tornou-se outro problema a ser resolvido. A Rua Teresa, uma das vias de acesso mais importantes de Petrópolis – e também uma das mais atingidas -, ficou interditada nos primeiros dias após a chuva. Na tentativa de ajudar a retirar os destroços e a grande quantidade de lama, tratores, caminhões e outros veículos foram enviados por outras cidades, mas moradores teriam visto estes sendo enviados de volta pelo prefeito, alegando falta de regulamentação da Prefeitura. Desde esse período, mais de 240 mil toneladas de detritos foram recolhidos. O prefeito Rubens Bomtempo nega ter recusado a ajuda. 

Quando as organizações começaram as limpar a lama e os entulhos das ruas, com o objetivo de acelerar a revitalização de Petrópolis, tornou-se perceptível a priorização das áreas mais nobres, como explica a estudante Eliza: “Eles decidiram começar pela limpeza do centro e deixaram os outros bairros ‘a Deus dará’ (..) Tinha gente soterrada no Caxambu, que foi um bairro que foi esquecido pela mídia, por todo mundo, e os bombeiros não chegavam. E era tudo próximo do centro”. A diferença no tratamento das autoridades também se mostrou nas doações, como aclara Ana Luiza: “Eu moro em uma rua que é basicamente classe média alta, então aqui você via que tinha muita reunião para arrecadar coisa, o que por um lado é muito bom (…). Só que a questão é que essas comidas, roupas, casacos que estavam sendo reunidos chegavam muito pouco em certos lugares, pela Prefeitura, que eu digo”. 

A população, desde o primeiro momento, se uniu para reconstruir a cidade. Grupos de doações foram criados, sendo o mais famoso SOS Serra, que arrecadou, em pouco mais de uma semana, 40 toneladas de comida, 5 toneladas de produtos de higiene e outros mantimentos para ajudar os desabrigados. A estudante Eliza decidiu ajudar da maneira que pode, pois em um primeiro momento era inacessível ir até Petrópolis devido ao bloqueio das estradas em decorrência dos deslizamentos na serra. Assim, ela divulgou em todas as suas redes sociais que estava recolhendo o máximo de doações possíveis, enquanto entrava em contato com conhecidos da cidade para saber quais eram as maiores demandas e para onde entregar. “Eu fiquei muito feliz, e é aquilo, eu estava longe e queria ter a sensação de que estava ajudando a cidade de alguma forma”. 

Eliza ainda destaca a importância de escolher bem os locais de doação, pois muitas pessoas desviavam o dinheiro e mantimentos recebidos. Outro transtorno foi devido às pessoas que se passavam por necessitadas apenas para buscar produtos que não precisavam, como informa Ana Luiza: “É aí que você vê que quem é ruim vai ser ruim independente da situação, porque a gente juntava roupa e casaco e tinha gente que ia dentro desses abrigos fingindo que ia ajudar para roubar [as doações]”. Ainda assim, a iniciativa da população petropolitana foi essencial para a restauração da cidade. 

Nos dias que se seguiram à chuva de fevereiro, os coletivos de doações continuavam a todo o vapor, mas Guilherme conta que isso se tornou uma oportunidade política, em que o prefeito da cidade e os funcionários diziam estar fazendo algo, quando na realidade não estavam: “Eu tava ajudando a descarregar o caminhão, eu e os moleques, só que tinha gente da prefeitura do Rio que estava ali tirando foto”. Ana Luiza também exemplifica. “Teve um dia que eu me estressei tanto, que eu fui ajudar a separar roupa, comida, casaco e aí você via a galera, não lembro se era do município ou da Prefeitura, eles estavam com coletes da Prefeitura e não faziam nada. A população que estava basicamente arrumando as comidas, organizando tudo. E eles ainda fizeram questão de parar e tirar uma foto deles, eles ainda botaram assim ‘Por Petrópolis’ sendo que eles não botaram uma mão nas roupas”. 

A NECESSIDADE DE PREVENIR NOVAS TRAGÉDIAS 

Chover em Petrópolis é inevitável, como indica o geógrafo Felipe Bueno, mas medidas ambientais devem ser implementadas para diminuir a evaporação vista atualmente, tais como o combate da intensificação do efeito estufa e da emissão de gases que conservam o calor. “O principal é ter projetos de intervenção no espaço para evitar que esses deslizamentos, que essas inundações aconteçam. Investir em drenagem e em métodos eficientes para fazer com que a água escoe”. 

Após a chuva de fevereiro, a prefeitura de Petrópolis recebeu repasses de outros órgãos públicos para criar um plano de contingência contra novos desastres ambientais. Já estão sendo utilizados recursos provenientes da doação da Assembleia Legislativa no valor de 30 milhões de reais. O governo do estado do Rio de Janeiro também liberou R$200 milhões. Além disso, foi criado um relatório para a Comissão Temporária Externa, com o objetivo de avaliar os prejuízos causados pela chuva e evitar que isso se repita. 

Felipe ainda afirma que o problema não é apenas a água das chuvas, mas também cita a lama, árvores, inclusive as casas nas encostas, que são levadas nas enchentes. O professor explica que a solução para esse problema seria um reequilíbrio na dinâmica dos solos, rochas e detritos vegetais. “Quando a gente tem eventos extremos, nenhum lugar é seguro, mas a gente tem alguns lugares que são mais suscetíveis. A ideia é que as ocupações existam de forma ordenada, de forma equilibrada, com investimentos que sejam eficientes nas áreas de menor risco, e quando isso acontecer, se acontecer, a gente vai ter menos riscos.”

Pouco a pouco, Petrópolis conseguiu ser minimamente revitalizada, mas o medo de ocorrer uma nova tragédia aflige os moradores, principalmente aqueles que perderam suas casas, comércio ou familiares. As marcas que o dia 15 de fevereiro deixa e continuará deixando nos petropolitanos serão difíceis de serem apagadas ou, ainda, amenizadas. A população continua temendo as chuvas, e todos se recolhem em qualquer sinal de água, como diz Ana Luíza: “Até hoje eu escuto uma chuvinha e já fico ‘por favor, que não chova forte’. Eu me lembro de um dia que eu vi um moço rezando pro céu, porque ele tava rezando pra parar de chover.”

Reportagem: Gabriela Leonardi e Letícia de Lucas

Supervisão: Maria Eduarda Martinez

Foto de capa: Silvia Izquierdo/AP

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