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Os bastidores de uma investigação jornalística

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Foto: Luisa Teixeira

Publicar primeiro nem sempre significa publicar melhor. No jornalismo investigativo, a apuração continua até que as informações estejam verdadeiramente confirmadas. A premissa foi destacada pelos jornalistas Igor Mello, repórter do núcleo de jornalismo investigativo do ICL Notícias; Rubens Valente, jornalista e escritor; e Vera Araújo, jornalista investigativa do jornal O Globo. Os três estiveram presentes durante a mesa sobre Jornalismo Investigativo da Semana do Jornalismo da ESPM Rio. Realizado no terceiro e último dia do evento, o encontro discutiu os métodos de investigação, o tempo necessário para apurar uma reportagem e os desafios enfrentados pelas redações diante da pressão por velocidade.

Durante o encontro, Valente destacou que a investigação jornalística exige uma apuração sistemática, que vai além de uma entrevista, um dado isolado ou um documento recebido pela redação. Segundo o jornalista, a construção de uma reportagem investigativa envolve a definição de uma hipótese, a busca por fontes e documentos e a checagem das informações até a confirmação dos fatos.

“Uma diferença entre o jornalismo convencional e o investigativo é sobre a questão dos erros. No jornalismo convencional, eles podem acontecer. […] Mas no jornalismo investigativo, é totalmente diferente. Os erros podem destruir a credibilidade e gerar sanções”, explicou Valente.

Na sequência, Mello apresentou outra perspectiva sobre a investigação jornalística: o uso de informações que já estão disponíveis ao público. O repórter destacou ferramentas como o Diário Oficial, Portais da Transparência, bases de dados e processos administrativos e judiciais como fontes para a produção de reportagens. Segundo ele, uma investigação sobre cargos secretos no governo do Rio de Janeiro, que durou um ano de trabalho, começou justamente a partir de documentos disponíveis no Sistema Eletrônico de Informações (SEI).

O acesso a documentos públicos pode ampliar as possibilidades de investigação mesmo para jornalistas que ainda não possuem uma rede extensa de fontes. “O maior ativo que existe no jornalismo investigativo é o tempo. Com tempo o bastante, qualquer um chega a resultados relevantes, se tiver um mínimo de disciplina e esforço para trabalhar”, disse Mello.

A construção de uma rede de fontes também foi apontada como parte fundamental da apuração. Araújo ressaltou que informações relevantes nem sempre chegam pelos canais convencionais de comunicação e defendeu a aproximação presencial com as fontes. “A boa informação, a informação bombástica, não vem por telefone. É no contato físico”, afirmou.

A jornalista também destacou a pressão enfrentada pelos profissionais que trabalham com investigação. Segundo a repórter, além da redução das equipes e do tempo disponível nas redações, repórteres investigativos podem ser perseguidos quando apuram casos envolvendo grupos criminosos e agentes públicos. Ao relembrar a cobertura que realizou sobre as milícias no Rio de Janeiro, ela revelou que fez parte da apuração sozinha e defendeu que investigações desse tamanho sejam feitas em equipe.

Araújo também relembrou sua atuação na cobertura do assassinato de Marielle Franco. Após o crime, a jornalista retornou ao Rio de Janeiro durante uma folga e foi até o local do assassinato, onde encontrou duas testemunhas que, segundo ela, ainda não haviam sido localizadas pela polícia. O episódio demonstra a relevância da iniciativa por parte de um repórter e o quanto é importante dar atenção aos detalhes durante uma investigação.

Reportagem: Maria Eduarda Torres

Supervisão: Renata Fontanetto

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