A fotografia analógica ressurge nas arquibancadas
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Nos últimos tempos, quem vai aos estádios de futebol tem encontrado cada vez mais câmeras analógicas. Numa época em que praticamente todo torcedor carrega no bolso um telefone capaz de registrar e compartilhar imagens instantaneamente, por que escolher uma câmera de filme?
O movimento começou com a vontade de reproduzir a estética das fotos antigas, que usam a tecnologia analógica. Mas o que começou com uma brincadeira e um hobby evoluiu para algo mais sério, e alguns fotógrafos começaram a publicar essas fotos nas redes sociais, criando uma reputação junto às torcidas.
Nas câmeras analógicas, um rolo costuma ter 24 ou 36 poses, e o resultado não aparece na hora. Para Gabriel Wisniewski, de 25 anos, fotógrafo que registra a torcida do Coritiba pelo Coxa Analógico no Instagram (@analogico.coxa) , essa limitação muda a maneira de fotografar. “Eu tenho que realmente pensar no que estou fazendo”, afirma.
A escolha pelo filme também muda a relação com os torcedores. “Eu me obrigo a chegar mais perto, a interagir com o torcedor e a conversar”, conta. Em vez de fotografar a arquibancada de longe, ele procura estar no meio da torcida, acompanhando bandeiras, bateria e outros momentos que acontecem fora do campo.

Foto: Gabriel Wisniewski/Coxa Analógico
Essa proximidade também fez com que Wisniewski passasse a ser conhecido no estádio como “o analógico”. Para ele, existe uma lacuna na produção audiovisual esportiva, que muitas vezes concentra seus registros nos jogadores e nos lances da partida. “Eu sentia que não tinha lugares que mostravam o dia a dia do torcedor, da arquibancada, principalmente de forma tão próxima.”
Outro exemplo é o fotógrafo Júnior César, de 35 anos, do Grêmio Analógico (@gremio.analogico), também presente no Instagram. Ele vê no filme uma oportunidade para desacelerar. Para ele, o imediatismo das redes sociais influencia a fotografia. “O filme é uma contracultura nesse mundo digital”, afirma. “Como cada clique tem um custo, é preciso refletir mais antes de fotografar”.
E o custo realmente pesa. Um filme de 36 poses pode custar cerca de R$ 50, enquanto revelação e digitalização acrescentam aproximadamente mais R$ 50. César estima que cada imagem fique entre R$ 4 e R$ 5. Wisniewski, por sua vez, já chegou a utilizar entre cinco e oito rolos em uma única partida.

Foto: Júnior César/Grêmio Analógico
Esse movimento analógico pode ser observado em diversos outros lugares do Brasil, e não é exclusivo de uma única torcida. Além do preço, existem os riscos. Wisniewski já gastou um rolo inteiro sem conseguir registrar as imagens e também perdeu fotos por erros de exposição. Em uma partida, chegou a ficar sem filme justamente quando começava o “Green Hell”, manifestação com fogo e sinalizadores verdes da torcida do Coritiba.
“A fotografia noturna também é um desafio. Já perdi registros por causa da pouca luminosidade”, relata César.
Depois do clique, o filme ainda precisa ser revelado e digitalizado. Wisniewski envia o material para um laboratório, que realiza as duas etapas e entrega os arquivos digitais. Mesmo depois disso, procura interferir pouco nas imagens, mantendo a estética do filme.
A espera pelas fotos faz parte da experiência. Wisniewski costuma esperar cerca de uma semana ou uma semana e meia para descobrir o resultado. Já César conta que mantém filmes ainda não revelados e, muitas vezes, nem lembra exatamente quais imagens estão neles. Ao receber as fotografias, acaba reencontrando momentos que poderiam ter sido esquecidos.
O crescimento da fotografia analógica no futebol também ultrapassa as arquibancadas brasileiras. Segundo os fotógrafos, o movimento vem ganhando força nos últimos anos e criando uma rede de profissionais de diferentes países. Um dos exemplos é a AnalogFootball, que reúne e divulga registros analógicos ligados ao futebol e mantém grupos de fotógrafos em países como Brasil, México, Estados Unidos e França. Mais do que compartilhar imagens, essas comunidades aproximam profissionais e fortalecem a troca de experiências entre quem encontrou no filme uma nova maneira de registrar o esporte.
Matéria: Duda Toqueto, Guilherme Martins e Pedro Martins
Supervisão: Renata Fontanetto e Guilherme Freitas



