Caminho incerto: os desafios de integração, tarifa e expansão do transporte no Rio
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O deslocamento pela Região Metropolitana do Rio de Janeiro faz parte da rotina de milhões de pessoas, mas chegar ao trabalho, à escola ou a outros compromissos ainda envolve problemas como longos trajetos, falta de integração entre os diferentes modais, limitações da rede metroferroviária e tarifas que pesam no orçamento dos passageiros.
Esses desafios fazem parte da discussão sobre mobilidade urbana no estado e no país abordada por Marcus Quintella, diretor da FGV Transportes, em entrevista aos estudantes Luisa Teixeira e Pedro Pitta para o Portal de Jornalismo da ESPM. A conversa integra a série especial de cobertura eleitoral do projeto ESPM nas Eleições, que reúne entrevistas e reportagens sobre temas que devem estar no centro do debate público durante as eleições.
Quintella é doutor em Engenharia de Produção pela COPPE/UFRJ, mestre em Transportes pelo Instituto Militar de Engenharia (IME), pós-graduado em Administração Financeira pela FGV e engenheiro civil pela Universidade Veiga de Almeida.
Rede insuficiente e falta de integração
Para Quintella, um dos principais problemas da mobilidade na Região Metropolitana é a insuficiência da rede de transporte de alta capacidade. Segundo ele, metrôs e trens deveriam ter papel central nos deslocamentos de maior demanda.
“O Rio de Janeiro, assim como qualquer cidade do Brasil, tem gravíssimos problemas de mobilidade urbana. Mas, em termos de transporte público, a deficiência do Rio de Janeiro é principalmente não possuir um sistema de transporte de massa”, ressalta ele.
Na avaliação do especialista, o BRT cumpre uma função importante em corredores de demanda média e como sistema alimentador, mas não deveria substituir os modais de maior capacidade em trajetos com grande concentração de passageiros.
Os dados do município ajudam a dimensionar a demanda pelo sistema metroviário. Em 2025, o MetrôRio registrou fluxo médio de 634 mil passageiros por dia útil. A Linha 1 respondeu por 374 mil passageiros, a Linha 2 por 163 mil e a Linha 4 por 97 mil.
Além da capacidade da rede, outro problema apontado na entrevista é a dificuldade de integração entre diferentes meios de transporte. Para Quintella, o passageiro deveria conseguir combinar ônibus, trem, metrô e outros modais de maneira mais simples, tanto do ponto de vista físico quanto tarifário.
“O transporte não atinge todos os pontos da região metropolitana. Então você tem esse problema. Outro problema seríssimo é a falta de uma integração física e tarifária”, avalia Quintella.
O especialista cita como exemplo um deslocamento entre São Gonçalo e o Recreio dos Bandeirantes, que pode exigir diferentes meios de transporte e aumentar o custo da viagem.
A integração, entretanto, já existe em algumas combinações de modais. O MetrôRio informa, por exemplo, que há integrações tarifárias com trem, ônibus municipal, ônibus intermunicipal e barcas por meio do Bilhete Único Intermunicipal. A questão levantada pelo entrevistado é a abrangência e a capacidade desse sistema de integração para atender aos diferentes trajetos realizados pelos passageiros da Região Metropolitana.
O desafio de financiar tarifas menores
O custo das passagens também aparece entre os principais obstáculos para ampliar o acesso ao transporte público. Atualmente, a tarifa unitária do MetrôRio é de R$ 7,90. Para usuários que atendem aos critérios da Tarifa Social e possuem o Bilhete Único Intermunicipal habilitado, o valor é reduzido para R$ 5.
Quintella defende que a redução da tarifa paga diretamente pelo passageiro precisa vir acompanhada de recursos públicos para garantir a sustentabilidade financeira da operação.
“Então o grande desafio agora é encontrar uma equação até jurídica para mudar o contrato de concessão para que a tarifa pública seja menor e a complementação para que a operação não perca a qualidade, não perca tudo que acontece, haja o subsídio”, avalia ele.
Segundo o especialista, a lógica seria estabelecer uma diferença entre o valor efetivamente pago pelo usuário e o custo necessário para manter o serviço em funcionamento. Essa diferença seria coberta pelo poder público.
“O tributo que todos nós pagamos é feito para converter para a sociedade, ou reverter para a sociedade, de serviços, educação, saúde, segurança, transporte, isso acontece no mundo inteiro”, afirma o especialista.
O modelo de financiamento, portanto, é uma parte central da discussão sobre mobilidade. Para Quintella, reduzir a tarifa sem garantir recursos para a operação poderia comprometer a qualidade do serviço. Por outro lado, manter os custos concentrados no usuário pode dificultar o acesso ao transporte para parte da população.
Mobilidade como tema da agenda eleitoral
Os problemas apontados na entrevista mostram que a discussão sobre transporte público envolve mais do que o preço da passagem. Capacidade da rede, expansão do metrô e dos trens, integração entre os diferentes modais e financiamento do sistema estão relacionados à forma como a população da Região Metropolitana se desloca diariamente.
As propostas para enfrentar esses desafios também fazem parte das escolhas que estarão em debate nas eleições. Por isso, a mobilidade urbana é um dos temas abordados pelo projeto especial ESPM nas Eleições, do Portal de Jornalismo da ESPM, que busca discutir questões relevantes para o estado do Rio de Janeiro a partir de entrevistas com especialistas.
Entrevista: Luisa Teixeira e Pedro Pitta
Reportagem: Pedro Pitta
Supervisão: Pollyanna Bretas



