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Clubes de leitura ganham força no Brasil e transformam hábito de ler em experiência coletiva

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No Dia Mundial do Livro, celebrado em 23 de abril, iniciativas que incentivam a leitura ganham destaque – entre elas, os clubes de leitura, que vêm crescendo no Brasil. Em 2025, o consumo de livros no país também avançou: 18% da população adulta adquiriu ao menos um exemplar nos últimos 12 meses, um aumento de dois pontos percentuais em relação a 2024, segundo a pesquisa Panorama do Consumo de Livros da Câmara Brasileira do Livro em parceria com a Nielsen BookData. O cenário indica uma mudança na forma como os brasileiros se relacionam com a literatura, cada vez mais marcada pela troca coletiva e pelo compartilhamento de experiências. 

Aquisição de livros no Brasil entre adultos aumentou de 16% para 18% em 2025, de acordo com pesquisa nacional. Foto: Larry D. Moore / Wikimedia Commons / Licença CC 4.0

Para além do tímido crescimento recente, entender o que caracteriza um clube de leitura ajuda a dimensionar o alcance desse fenômeno. Em geral, são grupos que se reúnem periodicamente para ler e discutir uma mesma obra, promovendo a troca de interpretações e a construção coletiva de sentidos a partir do texto. Esses encontros podem ocorrer presencial ou virtualmente e costumam ser organizados por livrarias, bibliotecas, centros culturais ou pelos próprios leitores, sem necessariamente uma mediação formal.

A prática, embora hoje associada a dinâmicas contemporâneas e ao ambiente digital, tem origens mais antigas. Desde o século 17, há registros de grupos que se reuniam para discutir leituras em conjunto, inicialmente em contextos religiosos e educacionais. Com o tempo, esses encontros se expandiram para espaços mais informais e acessíveis, lógica que permanece até hoje para que os clubes de leitura se organizem e se adaptem aos diferentes leitores. 

No paulistano BookVerso, clube criado pela radiologista Mariana Miranda, de 26 anos, a proposta vem sendo ajustada desde os primeiros encontros. “O clube foi criado em outubro de 2025, então estamos sempre apostando em novidades”, explica. Inicialmente, os encontros não tinham data fixa e eram marcados de acordo com a disponibilidade do grupo, geralmente em estabelecimentos mais tranquilos, para favorecer a conversa. Além das reuniões mensais, o grupo passou a organizar encontros extras em datas alternativas, como feriados, para ampliar a participação. “Quem não viaja no feriado acaba se encontrando para tomar um café e, depois, há o encontro oficial para comentar o livro”, diz Miranda.

Mariana Miranda junto com as participantes do BookVerso em um dos encontros mensais. Foto: Acervo pessoal

Outra mudança está na forma como as discussões são conduzidas. Diante de leituras que nem sempre geravam debates espontâneos, o clube adotou uma nova estratégia: “Agora estamos organizando tabelinhas com perguntas e reflexões para guiar a conversa”, afirma Miranda. 

Fora dos livros, as relações também ganham vida. O debate sobre a obra frequentemente divide espaço com as trocas pessoais e a construção de amizades que ultrapassam as páginas. “O objetivo principal é criar laços por meio da leitura. Ler por ler, todo mundo leria sozinho; o clube serve para termos amizade e conexões”, opina Miranda.

A experiência de quem participa ajuda a dimensionar esse movimento. Lavínia Correia, de 21 anos, técnica de enfermagem e participante do BookVerso, conta que começou a ler há dois anos e, antes de entrar num clube, sentia a leitura como uma atividade solitária. Ao encontrar o grupo pelas redes sociais, passou a dividir interpretações e, principalmente, a se sentir parte de um coletivo. “A gente não se julga. Cada uma tem sua opinião e respeitamos isso; teve livro que muita gente odiou e algumas gostaram. E tudo bem”, afirma. O ambiente de acolhimento, segundo ela, permite que opiniões divergentes coexistam sem constrangimento, reforçando o vínculo entre as participantes.

O sentimento de pertencimento tem papel central na permanência dos leitores. Em um contexto marcado pela digitalização das relações, os clubes oferecem uma alternativa baseada no encontro presencial, na troca direta e na leitura compartilhada. “Se o clube reúne pessoas com gostos diferentes, você entra em contato com gêneros, temáticas e autores que desconhecia. A diversidade é um dos pontos mais fortes”, explica o professor Douglas Coelho, doutorando em Estudos de Linguagem pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e professor de língua portuguesa na ESPM-Rio.

Clubes de leitura que estão presentes nas redes podem conquistar mais leitores

Se, por um lado, os encontros presenciais fortalecem vínculos, por outro, é nas redes sociais que muitos desses clubes surgem e se expandem. Plataformas como o TikTok têm funcionado como porta de entrada para novos leitores e como vitrine para iniciativas que, muitas vezes, começam de forma pequena e informal. No caso do BookVerso, o crescimento veio justamente após a publicação de vídeos que despertaram o interesse de novos participantes.

Vídeo viralizado no TikTok da página bookverso_clube com 175,1 mil visualizações e 21 mil likes.

@bookverso_clube POV: Ela só queria compartilhar literatura… e ganhou julgamento coletivo. 😝💖✨ #fyppppppppppppppppppppppp #clubedolivro #booktok #claricelispector #clubedolivrosp ♬ som original – Octávio Queiroz

Ao mesmo tempo, essa visibilidade traz desafios. Isso porque parte das pessoas que chegam pelas redes é movida pelo entusiasmo momentâneo, sem necessariamente manter o engajamento nos encontros. Ainda assim, o chamado “BookTok” – movimento em que usuários principalmente do TikTok indicam livros – desempenha um papel importante ao tornar a leitura mais acessível e atrativa, especialmente para o público jovem. Nesse sentido, as redes sociais podem funcionar como um primeiro contato com o universo dos livros, mas é na convivência presencial que o interesse se sustenta e se transforma em hábito.

Leitura coletiva amplia repertório pessoal e senso crítico

Para o professor Douglas Coelho, o processo de aprofundamento nas leituras que ocorrem ao vivo é essencial para a formação do leitor. A leitura coletiva permite que as interpretações se complementem. “Existe essa questão da interpretação em conjunto: alguém que não entendeu nada pode ser ajudado por quem entendeu um pouco, e quem achava que tinha entendido tudo pode descobrir uma nova forma de interpretar”, pontua Coelho.

Essa diversidade de perspectivas também é um dos pilares do Hobby Book Club, de Porto Alegre, criado pelas jornalistas Júlia Barros e Rafaela Knevitz. A proposta do grupo é justamente reunir pessoas com diferentes vivências para promover discussões mais ricas e plurais. “É um espaço para sentar em roda, ver que a interpretação de um fato pode ser diferente da sua e, com isso, ampliar o repertório e o senso crítico”, afirma Knevitz.

Outro fator é que os clubes também têm se consolidado como espaços de acolhimento emocional. Em meio à rotina acelerada e à predominância de interações digitais, os encontros oferecem uma pausa para a escuta, a troca e a construção de vínculos. Foi o caso da psicóloga clínica Ana Lúcia Bello, de 25 anos, uma das administradoras do Clube do Livro RJ, que buscou o grupo em um período difícil. “Eu achava que não tinha amigos. Minha psicóloga me orientou a voltar aos hobbies para tentar achar pessoas com gostos parecidos”, relata. Bello descobriu o clube pelas redes sociais e resolveu ir a um encontro próximo de sua casa. O ambiente acolhedor do espaço foi determinante para querer permanecer.

A experiência dos clubes de leitura ajuda a traduzir o impacto desses espaços na vida dos leitores. De acordo com Douglas Coelho, outros mundos se abrem a quem se aventura num clube: “Ler é libertador; quanto mais a pessoa lê, mais conhecimento ela adquire para enxergar o mundo de outra forma e mudar sua realidade”.

 

Reportagem: Maria Eduarda Torres
Supervisão: Renata Fontanetto

 

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