Quanto custa ser universitário no Rio de Janeiro?
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Antes mesmo de chegar à sala de aula, muitos estudantes universitários já começam o dia fazendo conta, como transporte, alimentação, aluguel e material. Em muitos casos, o custo de estudar acaba sendo maior do que o salário de um estágio.
A dimensão do sistema universitário brasileiro revela o tamanho do desafio. O ensino superior no Brasil nunca teve tantos alunos. Segundo o Censo da Educação Superior, divulgado pelo INEP, o país chegou à marca de 10 milhões de estudantes universitários, em 2024, um crescimento impulsionado principalmente pela expansão das universidades privadas e do ensino a distância.
Embora conseguir uma boa vaga seja a primeira barreira, a dificuldade financeira pode se transformar em pesadelo. Cerca de 44% dos estudantes brasileiros de ensino superior já precisaram trancar a faculdade por não conseguir pagar os custos da rotina universitária, que vão muito além da mensalidade. Os dados fazem parte de uma pesquisa da Serasa, divulgada no ano passado, realizada em meio ao período de rematrícula nas universidades. Além disso, 24% dos entrevistados admitiram ter dificuldade de se concentrar durante as aulas, devido às contas atrasadas.
Peso do transporte no orçamento
Após a felicidade de ser aprovada em um dos vestibulares mais concorridos do país, a estudante Mariana Fonseca, de 20 anos, precisou encarar desafios econômicos para realizar seu sonho de cursar Comunicação Social, na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Moradora de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, ela decidiu se mudar para o Centro da capital, como estratégia para economizar na passagem e no tempo de deslocamento.
“O meu maior gasto hoje como estudante é o transporte público, porque se você não tem o passo universitário, você acaba gastando R$ 300, R$ 400 com passagem, e quando você estuda em uma (universidade) federal, acaba que você não tem os custos de mensalidade e alimentação, mas o transporte acaba ficando muito por nossa conta”, afirma Mariana.

Foto: Acervo pessoal de Mariana Fonseca
Cálculo exclusivo revela escolhas difíceis
Para entender melhor quanto custa, na prática, ser universitário no Rio, a reportagem pediu ao economista chefe da WAY Investimentos e professor Alexandre Espírito Santo uma estimativa exclusiva sobre os gastos de um estudante que mora no subúrbio e estuda no Centro da cidade.
Segundo o levantamento, esse estudante pode gastar entre R$ 200 e R$ 250 por mês apenas com transporte. Somando alimentação e despesas básicas, o custo mensal pode chegar a entre R$ 1.500 e R$ 2.000.
“O estudante precisa abrir mão de lazer e outras coisas, supérfluos, bens de luxo que eventualmente ele poderia querer para poder arcar com os gastos que ele tem, não somente de pagar a faculdade, mas aqueles associados ao custo do transporte para ele ir e voltar, a alimentação, os livros, o material didático, tudo isso tem um custo muito grande para ele e aí você vai precisar fazer trocas”, explica Alexandre.

Foto: Acervo pessoal de Alexandre Espírito Santo
Sem estágio, universitários dependem da família, ressalta economista
Nos primeiros períodos da faculdade, muitos estudantes ainda não conseguem estágio e acabam dependendo da ajuda da família, como explica o economista da FGV, André Braz.
“O estudante depende muito da família, uma bolsa de estudos ajuda muito, mas nos primeiros períodos, bolsas são escassas, porque você ainda não tem como participar de estágio ou de programas de trainee, porque o seu conhecimento ainda é muito tímido da disciplina da graduação que você está fazendo”, conta André.

Foto: Fgv IBRE
Para tentar evitar que estudantes abandonem a universidade por falta de dinheiro, o governo federal mantém o Programa Nacional de Assistência Estudantil que oferece auxílios como moradia, alimentação e transporte para alunos de baixa renda das universidades federais.
Um levantamento do site Quero Bolsa mostra que, só nas três universidades federais do Rio de Janeiro, mais de 13 mil estudantes recebem algum tipo de auxílio estudantil atualmente. Mas nem sempre esses auxílios são suficientes. Para a estudante de Física da UERJ, Sarah Sousa, de 20 anos, a distância e o custo de morar perto da universidade ainda são grandes obstáculos.
“Aqueles que não têm nenhum auxílio da universidade em relação a transporte ou moradia, e aqueles que querem morar perto da faculdade por morarem longe, os arredores da faculdade são muito caros justamente por ser um local estratégico”, relata Sarah

Foto: Acervo pessoal de Sarah Sousa
O Brasil ampliou o acesso ao ensino superior nos últimos anos. Mas o desafio agora é outro: garantir que os estudantes consigam permanecer na universidade até a formatura.
Reportagem: Kaylane Pedroso e Letícia Capela
Supervisão: Pollyanna Brêtas



