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Quem cuida de quem cuida?

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No Brasil, as mulheres dedicam, em média, quase dez horas a mais por semana do que os homens ao trabalho de cuidado não remunerado. O dado faz parte de um estudo da Organização Internacional do Trabalho (OIT), em parceria com o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, divulgado no fim do ano passado, e evidencia uma desigualdade histórica na divisão das tarefas domésticas e de cuidado.

Esse trabalho inclui atividades como alimentar, higienizar, acompanhar tratamentos de saúde e oferecer suporte diário a crianças, idosos e pessoas com deficiência. Apesar de essencial para o funcionamento das famílias e da sociedade, o cuidado ainda é tratado, em muitos casos, como uma obrigação feminina natural, e, na maioria das vezes, sem remuneração.

Especialistas apontam que essa lógica faz parte da chamada divisão social do trabalho, em que tarefas fundamentais, mas invisibilizadas economicamente, ficam concentradas nas mulheres. Enquanto cuidadores contratados possuem direitos garantidos pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), como FGTS, férias e Previdência Social, o cuidador familiar permanece em uma espécie de zona cinzenta da legislação.

Zona cinzenta

Para o advogado trabalhista e da família Alain Alves, a ausência de políticas públicas amplia ainda mais essa sobrecarga. Ele explica que a falta de serviços de apoio, como creches e escolas especializadas, acaba empurrando muitas mães para fora do mercado de trabalho: “O Estado falha em prover os serviços públicos que possam integrar a pessoa cuidada. Acaba que, por ter poucas creches e escolas especializadas para crianças atípicas, a mãe cuidadora passa muito tempo tendo que prover as necessidades das crianças. Fica inviável cuidar de uma criança especial ou de um idoso e permanecer no mercado de trabalho”, afirma Alves.

Esse impacto aparece na rotina de famílias que vivem o cuidado de forma integral. A técnica de enfermagem Daiane Cunha, de 30 anos, viu sua vida mudar após o diagnóstico de autismo do filho João, de 6 anos. Com o tempo, ela precisou reorganizar a dinâmica da casa e dividir mais as responsabilidades. “Quando veio o laudo do João, eu fazia tudo sozinha. A gente vai abrindo mão. Descobri que eles (a família) podem fazer por mim, por mais que façam do jeito deles e não do meu, mas dá certo do mesmo jeito”, diz Cunha.

A sobrecarga do cuidado também traz consequências econômicas e sociais. Segundo a assistente social Alessandra Rodrigues, muitas mulheres deixam o trabalho para se dedicar aos familiares, o que compromete a renda imediata da família e reduz a proteção previdenciária no futuro: “Muitas das vezes a mulher abandona o trabalho para cuidar de um familiar, e isso compromete a renda imediata da família. Ela acaba ficando vulnerável porque, na medida em que deixa de contribuir para a Previdência, não tem acesso a benefícios sociais”, explica Rodrigues.

Mães e filhos atípicos durante evento natalino do projeto TEAcolher. Foto: acervo pessoal

Projetos acolhem mulheres

Iniciativas da sociedade civil tentam oferecer apoio. Um exemplo é o projeto TEAcolher, que atende mais de três mil mães de crianças autistas. A fundadora, Roberta Maia, relata que o trabalho vai além do acolhimento emocional e enfrenta também barreiras sociais e preconceitos constantes: “Eu sinto que eu enxugo gelo, às vezes. A gente faz um trabalho lindo, uma roda de conversa, uma palestra, aí eu chego em casa, vou olhar a rede social e tem um comentário criminoso, capacitista, preconceituoso. Quando a gente fala sobre inclusão, ainda tá longe de uma inclusão real”, relata Maia.

Na esfera pública, o governo federal lançou o Plano Nacional de Cuidados, com previsão de cerca de 25 bilhões de reais em investimentos. A proposta inclui a ampliação de creches, criação de cuidotecas e capacitação de profissionais, além de outras ações voltadas à estruturação da Política Nacional de Cuidados.

A proposta busca integrar ações do governo para reconhecer, reduzir e redistribuir o trabalho não remunerado do cuidado, além de garantir melhores condições tanto para quem recebe quanto para quem exerce essa função. Ainda assim, especialistas afirmam que o desafio central vai além da criação de políticas públicas: envolve uma mudança estrutural na forma como a sociedade enxerga o cuidado, ainda frequentemente associado, de forma quase automática, às mulheres.

Reportagem: Júlia Luparelli, Maria Eduarda Torres e Mirella Casanova 

Supervisão: Pollyanna Brêtas 

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