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 O futsal feminino como espaço de pertencimento

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Reportagem: Isabella Mattos, Kaylane Pedroso, Letícia Capela e Luisa Teixeira

Por muito tempo, o futebol foi tratado como um espaço quase exclusivamente masculino. Para muitas mulheres, o desejo de jogar bola veio acompanhado de preconceito, exclusão e da dificuldade de encontrar lugares onde realmente se sentissem acolhidas. É nesse contexto que foi criado o Delas, projeto de futsal feminino criado pelas atleta e designer Letícia Rocha e a atleta Ana Beatriz Ribeiro, que funciona no bairro Jardim Botânico. “Mais do que ensinar fundamentos do futsal, o projeto aposta na construção de um ambiente de pertencimento e coletividade”, afirma Letícia Rocha.

Criado oficialmente em 2021, o Delas começou de forma pequena. Segundo Letícia, havia dias em que os treinos aconteciam com apenas duas pessoas em quadra. Ainda assim, a proposta era continuar insistindo em um espaço voltado exclusivamente para mulheres.“A gente começou muito devagar, mas começou. Era melhor jogar com duas pessoas do que não jogar”, lembra.

Hoje, cinco anos depois, o projeto atende a cerca de 100 alunas divididas em quatro turmas: infantil, adolescente e duas categorias adultas. O crescimento acompanhou o fenômeno de aumento do interesse feminino pelo esporte, especialmente entre mulheres que nunca tiveram oportunidade de jogar na infância. “A gente recebe mulheres que sempre gostaram de futebol, mas nunca tiveram espaço para aprender”, explica Ana Beatriz, professora de Educação Física, atleta de beach soccer e sócia-fundadora do projeto.

A relação de Ana com o esporte começou cedo. Aos 10 anos, incentivada pelo pai, passou a jogar futsal em um time criado no próprio bairro. Pouco tempo depois, entrou para a base do Vasco e iniciou a trajetória como atleta profissional. Atualmente, atua no beach soccer e já foi convocada para a Seleção Brasileira da modalidade, além de conquistar um título mundial.

Expansão não afasta preconceitos

Mesmo com uma carreira consolidada, Ana afirma que o preconceito contra mulheres no futebol ainda faz parte da realidade do esporte. Os episódios, segundo ela, aparecem tanto em competições quanto no cotidiano da escolinha, especialmente através da resistência de alguns pais em colocar meninas no futebol.“Tem pais que ainda chegam com um pouco de preconceito, como se aquele espaço não fosse para elas”, afirma.

Aluna do Delas, a professora de inglês Sara Souza, de 34 anos, começou a jogar ainda na faculdade, incentivada por amigas, mas encontrou no projeto a oportunidade de retomar o esporte depois de uma lesão no joelho. Para ela, o futsal passou a ocupar um espaço importante também na saúde mental e na rotina fora da quadra.

Rede de apoio e senso de comunidade

Mais do que os treinos, fundamentos do futebol e prática de esporte, o projeto incentiva o cuidado e o compartilhamento de experiências para troca de apoio entre as mulheres. A participação em campeonatos e amistosos prioriza uma lógica de respeito e acolhimento. “As meninas comemoram as conquistas umas das outras. Aqui não existe aquele ambiente hostil que muita gente associa ao futebol”, ressalta Sarah Souza.

Alunas se ajudando durante o treino Foto: Letícia Capela

Além dos torneios internos, o projeto também participa da Supercopa de Futsal Feminino, competição que reúne escolinhas e equipes parceiras em partidas realizadas ao longo do ano. Para as fundadoras, o crescimento da modalidade passa justamente pela criação de espaços mais acessíveis para meninas desde a infância, principalmente dentro das escolas e projetos esportivos. A ideia é que o futebol feminino deixe de ser visto como exceção e passe a fazer parte da formação esportiva das crianças de forma natural.

Mesmo diante dos avanços, o caminho da igualdade de condições ainda é longo. A falta de incentivo, investimento e visibilidade continua sendo um desafio para atletas e projetos independentes. Ainda assim, iniciativas como o Delas mostram como o esporte também pode funcionar como ferramenta de transformação social, fortalecendo autoestima, vínculos e a sensação de pertencimento entre mulheres de diferentes gerações.

Para Letícia Rocha, o maior orgulho do projeto é conseguir oferecer às meninas oportunidades que ela própria não teve na infância. “Quando eu era criança, muitas vezes saía triste dos treinos porque os meninos não tocavam a bola para mim”, relembra. “Hoje a gente consegue criar um espaço onde elas podem ser quem quiserem ser.”

Ao completar cinco anos em 2026, o Delas planeja continuar ampliando o número de alunas e fortalecer as categorias de base. O objetivo, segundo as fundadoras, é crescer sem perder a principal essência do projeto, transformar o futsal feminino em um espaço de acolhimento, identidade e permanência para mulheres de diferentes gerações.

Time adulto iniciante do Projeto DELAS Foto: Kaylane Pedroso

 

Serviço:

Localização: Clube Militar, R. Jardim Botânico, 391 – Lagoa, Rio de Janeiro – RJ, 22470-220

Turmas: Infantil: Quartas e Sextas às 08h30 (de 6 anos a 10) 

Adolescente: Quartas e Sextas às 18h30 (11 anos a 13)

Juvenil: Quartas e Quintas às 17h30 (14 anos a 17)

Adulta: Terças e Quintas às 20h15 ou 21h  (+18)

Matrícula anual: sócios do clube R$160 e convidados R$ 170

Mensalidade: sócios R$ 340 e convidados R$ 370

 

Supervisão: Ana Lúcia Araújo, Pollyanna Brêtas e Vinicius Carvalho