“Aprender é o meu refúgio”, diz Olivia Cordeiro
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A trajetória da estudante travesti de 25 anos até passar em primeiro lugar no curso de ciências econômicas da UFF.
No campus do Gragoatá, na Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói, há uma pedra voltada para a Baía de Guanabara que não faz parte dos trajetos principais dos estudantes, mas que, para Olívia Cordeiro, 25 anos, se tornou um ponto de referência. O espaço funciona como uma pausa dentro da rotina universitária.
A cena, aparentemente simples, ganha outro peso quando associada à trajetória de quem chegou até ali após uma sequência de recomeços. Aprovada em primeiro lugar no curso de ciências econômicas, Olívia trata a conquista como um ponto de continuidade num processo em que o estudo sempre ocupou lugar central.
“Eu gosto de vir para cá quando preciso organizar as coisas. Às vezes, eu nem escrevo, só fico olhando e pensando. É meio que um lugar onde tudo desacelera e eu consigo entender melhor o que estou fazendo aqui no campus”, explica.

Ao falar da própria trajetória, recorre sempre à ideia que sintetiza uma forma de agir diante das dificuldades: “Quem tem um porquê acha um como. Pra mim sempre foi assim. Eu nunca tive as melhores condições, mas eu sabia o que eu queria, então eu ia dando um jeito de continuar”.
Nascida em Limeira, no interior de São Paulo, Olívia cresceu em um ambiente marcado por tensões familiares que se intensificaram à medida que passou a afirmar sua identidade como travesti. “Eu sempre soube quem eu era. Isso nunca foi dúvida para mim. O problema era como as pessoas reagiam a isso. E aí você vai aprendendo que, muitas vezes, você vai ter que se sustentar sozinha mesmo”, afirma.
Ao longo desse percurso, a relação com a mãe aparece como elemento importante de reconstrução, ainda que atravessada por dificuldades. Foi nesse contexto instável que o estudo começou a se consolidar como um espaço possível de permanência, um território onde ela conseguia exercer controle e continuidade.
Dos trabalhos informais ao primeiro emprego de carteira assinada
Antes de ingressar na universidade, Olívia acumulou experiências em diferentes empregos, formais e informais, em cidades distintas e sob condições frequentemente precárias. Conseguiu o primeiro trabalho CLT pouco depois de retornar à casa da mãe, em um momento de reorganização – episódio que ela menciona com humor: “Eu entreguei um currículo. Um. Já saí de lá empregada. Eu lembro que pensei: ‘bom, pelo menos isso funcionou’”.
A partir desse ponto, passou por supermercados, serviços temporários e outras funções, chegando a acumular mais de um trabalho ao mesmo tempo. No entanto, a permanência nesses espaços raramente dependia apenas de sua competência. “Não era sobre eu saber fazer ou não. Eu sabia. O problema era que, para algumas pessoas, não fazia sentido eu estar ali. E isso vai aparecendo nas pequenas coisas, no jeito que te tratam, no que falam, no que deixam de falar”, relata Olívia.
Em 2022, Olívia foi presa injustamente e permaneceu 16 dias detida no Centro de Detenção Provisória de Pinheiros, em São Paulo, mesmo sem haver provas que a vinculassem à acusação de roubo. O processo, segundo ela, não indicava sua participação, e a vítima não a reconhecia como envolvida. Ainda assim, a prisão ocorreu. Meses depois, foi absolvida. Ao relembrar o caso, aponta o que considera claro: a exposição desigual de pessoas travestis a situações de violência institucional.
A escolha pelo curso de economia
Ela relembra episódios recorrentes de violência psicológica e situações de constrangimento que evidenciavam o quanto as pessoas não aceitavam sua identidade. Após um desses episódios numa relação amorosa, passou por atendimento e acolhimento em serviços especializados, incluindo a Casa Florescer, um centro de atendimento social e psicológico voltado a mulheres travestis e transexuais em situação de vulnerabilidade em São Paulo. Foi nessa casa onde Olívia encontrou suporte para reorganizar aspectos práticos da vida. Acabou retomando planos de estudo e reestruturando objetivos de longo prazo.
No dia a dia, o estudo funcionou como um mecanismo de estabilidade em meio a contextos instáveis. “Aprender é o meu refúgio”, diz. Por isso, estudou em ônibus, salas de espera ou quaisquer outros espaços disponíveis. Sem acesso constante a materiais ou ambientes adequados, Olívia desenvolveu estratégias próprias para manter a rotina. “Se não tinha lugar, eu estudava no chão. Se não tinha material, eu dava um jeito”, relata. Para ela, o estudo não dependia de circunstâncias ideais, mas de uma decisão de seguir aprendendo.
A relação intensa com o conhecimento surge também fora da sala de aula. A estudante consome com frequência conteúdos sobre economia, política e outras áreas, assistindo a documentários e produzindo anotações próprias. Para organizar os pensamentos e elaborar ideias, ela escreve desde muito nova. Ao mesmo tempo, mantém hábitos de uma jovem que gosta de equilibrar a rotina ouvindo músicas da cantora estadunidense Taylor Swift. “Cada álbum da discografia dela me acompanhou em diferentes momentos da vida”, compartilha.
A escolha pelo curso de ciências econômicas surge como um desdobramento natural das leituras diárias. Para Olívia, a área oferece ferramentas para compreender e intervir nas dinâmicas que estruturam a sociedade. “Quando alguém quer buscar impacto, faz economia”, opina. Essa área do conhecimento vai muito além dos números, segundo ela, e, por isso, a futura economista tem especial interesse nas políticas públicas que influenciam diretamente as condições de vida da população.
Cotas para pessoas trans e travestis
A jovem enfatiza a importância de afirmar a identidade travesti nos espaços em que circula. Para ela, a distinção entre travesti e mulher trans não é apenas conceitual, mas reflete diferenças concretas de acesso e vulnerabilidade. “Travestis ainda estão em um lugar muito mais exposto”, afirma. A presença na universidade não é vista por ela apenas como conquista individual, mas como parte de um movimento de ocupação de espaços historicamente negados.
Por isso, defende a implementação de cotas para pessoas trans e travestis como uma política necessária para ampliar o acesso ao ensino superior. A aprovação dela se deu por meio desse sistema, o que ela aborda sem titubear: “Eu cheguei até aqui. O caminho que eu fiz não diminui isso. O acesso precisa ser acompanhado por políticas de permanência. Não basta abrir a porta da universidade. Tem que garantir que a pessoa consiga ficar com segurança”.
A adoção de cotas para pessoas trans e travestis em universidades públicas brasileiras tem avançado nos últimos anos como parte de políticas voltadas à ampliação do acesso ao ensino superior. Em 2023, a deputada federal Erika Hilton apresentou o Projeto de Lei 3109/2023, que propõe a reserva de 5% das vagas em universidades e instituições federais de ensino para pessoas trans e travestis. Atualmente, o projeto ainda está em tramitação no Congresso Nacional e não foi aprovado. Hoje em dia, no Brasil, mais de 30 instituições públicas oferecem cotas para pessoas trans e travestis, como a Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB) e a Universidade Federal do ABC (UFABC), seja na graduação ou pós-graduação.
Na UFF, Olívia está se inserindo em atividades além da sala de aula, interessando-se por projetos, palestras e núcleos de ação estudantil que ampliarão sua atuação. Ao falar do futuro, evita projeções grandiosas, mas indica uma direção: quer estar em espaços onde decisões são tomadas e onde possa contribuir para transformações concretas na vida das mulheres.
Reportagem: Luisa Teixeira
Supervisão: Renata Fontanetto



