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RISUG: a recepção ao novo anticoncepcional masculino

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O Instituto Indiano de Tecnologia anunciou no final de setembro um anticoncepcional masculino que promete funcionar por até 10 anos. No formato de injeção, o Risug (sigla em inglês para Inibição Reversível do Esperma Sob Controle) é um gel que tem como função criar um processo que retém os espermatozoides, impossibilitando a fertilização do óvulo. 

Essa forma de contracepção se apresenta como uma nova alternativa aos métodos tradicionais de barreira. Ela apresentou nos testes 97% de eficácia e é completamente reversível a partir da aplicação de uma solução de água com bicarbonato de sódio, ao contrário da vasectomia (procedimento que os homens fazem para não ter filhos), que possui baixa taxa de reversão bem-sucedida. 

Foto: Shutterstock

Por mais que o projeto do anticoncepcional masculino esteja sendo bem recebido nas redes sociais, o urologista Eduardo Leze alerta para o perigo de um aumento de IST ‘s (Infecções Sexualmente Transmissíveis). “Um grande problema vai ser a explosão de infecções sexualmente transmissíveis porque muitos homens usam preservativo por causa de uma preocupação maior com a gravidez, e não com infecções”, explica o profissional. 

Além do risco de IST´s, existe outra limitação para a adoção em massa do novo método. A aplicação do Risug é no ducto deferente, ou seja, é necessário um médico especializado para esse tipo de procedimento. O médico da UnitedHealth Group, Caio Carvalho, explica que o acesso a essa anticoncepção é muito diferente do acesso aos principais métodos que existem hoje em dia. “Se pensar nos métodos de barreira, você não precisa de nenhuma prescrição médica, é possível adquirir em uma farmácia ou pegar em um posto de saúde. Quanto aos métodos hormonais, a maioria das mulheres que têm o atendimento via SUS, podem ter uma prescrição pelo médico de família ou do médico do posto de saúde, não necessariamente por um ginecologista”. Para aplicar o novo método, os homens precisariam de um médico capacitado ou de um especialista, o que tiraria a praticidade e acessibilidade do seu uso. 

Foto: Diário de Santa Maria

Caio, que trabalha como médico no Hospital Pasteur, no Méier, explica que o Risug atua interrompendo o processo ainda no corpo do homem. “Quando o homem ejacula, os espermatozoides saem do testículo, através do ducto deferente, que os levam até estruturas próximas a próstata e a vesícula seminal, onde se juntam a outras substâncias para formar o sêmen”. O novo anticoncepcional atua obstruindo as passagens nos ductos deferentes. Assim, após a injeção do gel, ainda haverá sêmen na ejaculação, só que sem a presença de espermatozoides. “Eles não conseguirão sair do testículo e chegar nas outras estruturas para compor o sêmen”, explica o médico.

A novidade gerou diferentes opiniões, tanto para as mulheres, quanto para os homens. Por parte da população feminina, a inovação trouxe animação. A estudante de jornalismo Júlia Sabino apontou que é necessário quebrar a ideia de que só a mulher tem que se proteger. “Além disso, promove o bem-estar da mulher com o fim da ingestão de anticoncepcionais em pílula.” Mariana Levi, estagiária na área de biologia, comenta que aprovou a ideia, e ainda afirmou que somando métodos contra a gravidez para ambos os sexos, a chance de um acidente reduz.

Já o niteroiense Luca Carneiro, que também é estudante, afirma que vai continuar usando os métodos tradicionais, “Não quero utilizar essa opção, tenho pavor de agulhas.” O youtuber Marcos Martinho se mostra preocupado com a possibilidade de efeitos colaterais, e por isso demonstrou indecisão em relação ao assunto. 

Inicialmente, vem se criando uma resistência dos homens ao Risug. São receios que vão desde a aplicação até possíveis efeitos colaterais. Apesar disso, o Dr. Eduardo Leze tranquiliza a população masculina. “Teoricamente não haverão efeitos colaterais porque não mexe com a parte hormonal do homem, diferente do que acontece com a pílula que a mulher usa”, comenta o urologista. 

Foto: Vasectomy.com

O ambiente social e cultural do Brasil tem grande influência na discussão que cerca o uso do contraceptivo masculino. O Dr. Caio Carvalho aponta que o machismo estrutural que existe na sociedade impede o desenvolvimento de novas ideias de anticoncepção voltada para o público masculino e perpetua a ideia de que a responsabilidade da gravidez esteja voltada unicamente para a mulher. “Existe uma crença popular que liga a anticoncepção masculina com chances de impotência sexual ou infertilidade permanente. Importante ressaltar que só o acesso à informação e educação pode mudar esse cenário”. 

O especialista afirma que é muito pouco provável que esse novo método seja uma escolha da maioria da população. “Acredito que não haverá grande mudança. A anticoncepção vai continuar sendo majoritariamente feita pelo público feminino”. Caio ainda atenta para o cuidado maior que as mulheres têm com a saúde genital em relação aos homens. “A cultura da mulher é de procurar atendimento, fazer consultas de rotina, os exames preventivos anuais. O público masculino negligencia a saúde de forma preventiva, muito mais do que o feminino.”

Testado em aproximadamente 300 homens, o Risug completou seus testes finais e a expectativa é que o produto comece a ser comercializado em 12 meses, se for aprovado pelas autoridades sanitárias reguladoras. Nos Estados Unidos, um anticoncepcional masculino similar, chamado Vasalgel, também está sendo desenvolvido pela Parsemus Foundation.

Reportagem: Bruno Giovanni, Leo Garfinkel e Thiago Vivas

Supervisão: Fabiano Cruz e Leo Garfinkel 

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