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Fim das bets: vício em apostas ainda é um problema mesmo após proibição

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(Os nomes dos entrevistados que relataram suas experiências com as apostas são fictícios, para preservar suas identidades.)

Bruno tinha 24 anos quando esteve pela primeira vez numa sala dos Jogadores Anônimos. Na época, há cerca de 20 anos, ainda morava no Acre. Saiu de lá convencido de que aquilo não era para ele: tinha visto um homem ser levado pela mulher, chorando, com os filhos ao lado, e concluiu que era “coisa de louco”. Sua diversão, até aquele momento, eram os caça-níqueis dos bares. O jogo havia começado como uma brincadeira, até que se viu apostando a conta de luz, e a energia da casa foi cortada. Faltava maturidade, diz hoje, para entender que a “brincadeira” já era um problema grave.

Quando chegaram as bets, não demorou para que ele se envolvesse com dezenas de casas. Ali, a aposta ganhou duas faces. Nos jogos de azar, como os caça-níqueis e suas versões digitais, o resultado depende exclusiva ou principalmente da sorte. Já nas apostas esportivas, o apostador pode analisar desempenho, retrospecto e estatísticas antes de escolher, o que alimenta a sensação de controle, embora o resultado continue incerto. Foi nesse segundo universo que Bruno se perdeu: apostava virando a madrugada, acompanhando partidas de Austrália, China, Japão e até as das Américas, e gostava das combinações “múltiplas”, aquelas em que o ganho é mais alto, porém improvável. 

A esposa sabia que havia um problema, mas não a dimensão. Quando começaram a faltar coisas em casa, precisou usar o próprio fundo de garantia, cerca de R$300 mil, para pagar as dívidas do marido. Vieram empréstimos em cadeia e cobranças por telefone e por e-mail. Até que deu o ultimato: disse que só não o deixava porque ele era o pai da filha do casal. “Você sabe aonde tem que ir”, falou. 

Bruno então voltou ao Jogadores Anônimos, hoje no grupo da Tijuca, no Rio. A reunião acontece numa salinha pequena, com algumas carteiras escolares espalhadas e, ao fundo, uma mesa onde se serve um lanche simples durante as pausas. É ali, entre cafés e biscoitos, que ele se sente à vontade para dividir com os colegas a sua trajetória. Ali, ninguém o julga: cada um entende, por experiência própria, o peso que ele carrega. 

A história de Bruno com as bets não é a primeira nem será a última a ser contada no Brasil. Em 2025, as famílias brasileiras perderam R$62,5 bilhões para as bets, o equivalente a 0,68% da renda nacional disponível das famílias, segundo o Boletim Fiscal dos Estados, do  Comitê Nacional de Secretários de Fazenda, Finanças, Receita ou Tributação dos Estados e do Distrito Federal (Comsefaz). O cálculo considera a diferença entre o valor apostado pelo usuário e o que as plataformas devolveram em prêmios.

O custo não é só financeiro. A Organização Mundial da Saúde reconhece o transtorno do jogo, a chamada ludopatia, e o classifica na CID-11 com o código 6C50, no mesmo grupo das dependências. Segundo o Levantamento Nacional de Álcool e Drogas, da  Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), 1,4 milhão de brasileiros preenchem os critérios clínicos do transtorno. O Sistema Único de Saúde (SUS) fez mais de 10,5 mil atendimentos voltados ao vício em apostas entre 2018 e maio de 2025, de acordo com o Ministério da Saúde. Já o Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (Ieps) estima que o setor gere um custo social de R$38,8 bilhões por ano.

 

A história das apostas físicas e online

A história do Brasil com as apostas é antiga, tendo início no período da República Velha (1889-1930). Houve uma época em que os cassinos foram não somente legalizados no Brasil, como também representavam boa parte do entretenimento noturno. Para se ter uma ideia, o famoso Cassino da Urca, no Rio de Janeiro, que esteve aberto de 1933 até a proibição dos jogos, em 1946, costumava receber nomes como Carmen Miranda, Ary Barroso, Dalva de Oliveira e Emilinha Borba em sua programação.

As bets chegaram ao Brasil em 2018, quando a Lei 13.756 autorizou a exploração das apostas de quota fixa, aquelas em que o apostador já sabe, no momento da aposta, quanto poderá ganhar. Na prática, porém, a atividade ficou anos sem regras claras: sem uma regulamentação específica, as empresas passaram a operar no país a partir de licenças obtidas no exterior, e o setor cresceu de forma acelerada, impulsionado por patrocínios a clubes de futebol, campanhas com celebridades e influenciadores e uma presença cada vez maior na publicidade. 

Foi só em dezembro de 2023, com a Lei 14.790, que o mercado passou a ter um marco legal, que previa autorização prévia do Ministério da Fazenda, tributação e regras de publicidade e de proteção ao jogador. A operação regulamentada começou em janeiro de 2025, mas, para especialistas e para quem convive com o vício, a oferta já havia se popularizado muito antes disso. 

Jogadores Anônimos oferece suporte para quem ainda sofre com mercado ilegal

No fim de setembro de 2026, o governo federal proibiu, por medida provisória, as apostas online no país, que haviam sido regulamentadas pela Lei 14.790. A medida, porém, não encerrou a atividade: cerca de 15 mil sites de apostas ilegais continuam acessíveis no Brasil, segundo a CNN Brasil em matéria publicada no dia 8 de outubro. Para Pedro, que, assim como Bruno, frequenta o grupo de Jogadores Anônimos da Tijuca, a proibição não representa uma vitória: “Continuamos na luta. É um problema interminável, porque o vício sempre vai existir. Só temos que tratar ele. Não acho que isso [a proibição das casas de aposta] ajude muito, porque quem é viciado sempre dá um jeito de jogar”, explica.

Presidente Lula anuncia MP para proibir as casas de aposta no país / Foto: Nelson Almeida/AFP

Antônio, organizador do Jogadores Anônimos da Tijuca, reforça a necessidade de apoio no processo de recuperação da dependência. “Sozinho, ninguém consegue. Isso está no nosso primeiro passo: o jogo compulsivo é uma doença emocional de natureza progressiva, que nenhuma quantidade de força de vontade humana consegue deter ou controlar sozinha.” Ele também destaca a importância do grupo nesse processo: “Precisa de uma força maior — a Irmandade que o grupo representa, é uma dessas forças maiores.”

A importância de acompanhamento também é destacada pelo psicólogo Michael Jordan Andrade, formado pela UFRJ e especializado em ludopatia. “Do ponto de vista clínico e terapêutico, não basta retirar o acesso ao jogo. É preciso compreender que função essa prática passou a ocupar para aquele sujeito. E, sobretudo, o que está sendo colocado no jogo para além do dinheiro.”

Para Bruno, retornar às reuniões dos Jogadores Anônimos representou uma nova tentativa de recomeçar. Embora a proibição dificulte o acesso às plataformas de apostas, Bruno mostra que o enfrentamento da ludopatia não termina quando o jogo deixa de estar disponível. O tratamento e o apoio continuam sendo fundamentais para quem tenta reconstruir a vida longe das apostas.

Por: Davi Patury, Guilherme Guedes e Pedro Martins
Supervisionado por: Guilherme Freitas e Renata Fontanetto.

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