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“O julgamento, as cobranças pelas ausências e as dificuldades em se fazer ouvir”

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Nesta quarta-feira (26), a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, aprovada pela Assembléia Nacional constituinte da França, completa 231 anos. O documento foi inspirado pelos ideais iluministas que nortearam a Revolução Francesa. No entanto, dois anos depois, a ativista política Olympe de Gouges foi guilhotinada por conta de sua obra ‘’Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã’’, que se opunha a desigualdade de gênero presente no primeiro documento. Apesar de não ter sido reconhecido na época, o episódio é considerado um precursor da luta pelos direitos femininos.

Entre o fim do século XIX e início do século XX, a mobilização pelo sufrágio feminino, que buscava garantir às mulheres o direito de votar, ganhou força em diversos países democráticos do mundo, principalmente na Inglaterra. A reivindicação foi atendida na maior parte dos locais, e em 1893 a Nova Zelândia tornou-se o primeiro país a permitir a participação feminina na democracia. No Brasil, o movimento foi liderado pela ativista e bióloga Bertha Lutz, que em 1919, fundou a Liga para a Emancipação Intelectual da Mulher. Contudo, o direito do voto feminino só foi conquistado no país décadas depois, em 1946.

Inspirado nas ideias da filósofa Simone de Beauvoir e da ativista Betty Friedan,  e impulsionado pelos movimentos de contracultura, o feminismo eclodiu de vez durante as décadas de 1960 e 1970, especialmente nos EUA e na França. Buscava-se, principalmente, combater a violência contra a mulher, a diferença salarial entre gêneros e a pouca inserção feminina no meio político. Além disso, o acesso a métodos contraceptivos gratuitos e a descriminalização do aborto também eram bandeiras importantes.

Ao longo das últimas décadas, as mulheres também ganharam espaços no campo da política. Hoje, no Brasil, a Câmara dos Deputados conta com 77 mulheres eleitas, aproximadamente 15% das cadeiras. A deputada federal do PCdoB, Jandira Feghali, diz que apesar de ser um baixo número, ele já trouxe resultados importantes. Os projetos que falam sobre a maior participação das mulheres na política são de autoria de deputadas e senadoras. Entretanto, Jandira acrescenta que enfrentou obstáculos parecidos como os de toda mulher que escolhem a vida pública para chegar aonde está. “O julgamento, as cobranças pelas ausências e as dificuldades em se fazer ouvir. Muitas são silenciadas, menosprezadas, sofrem na pele a violência política de gênero”.

Entretanto, apesar desses avanços sociais, a violência contra a mulher ainda é bastante recorrente no Brasil. De acordo com estudo do Atlas da Violência de 2017, realizado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) em parceria com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), são mortas 13 mulheres por dia no país. Durante esse período de isolamento social ocasionado pelo novo coronavírus, o número de agressões também cresceu. No Rio de Janeiro, por exemplo, o Plantão da Justiça Estadual registrou que esse número chegou a 50% após a primeira semana do isolamento. Porém, é preciso refutar o argumento de que o aumento da violência é fruto do isolamento. ‘’A quarentena é fundamental para salvar vidas e evitar a disseminação do Covid-19, mas a causa da violência continua sendo o machismo estrutural”, diz Jandira.

Na visão de Angélica Ferrarez, doutora em História Política pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), as mulheres sempre tiveram protagonismo em diversas frentes de trabalho e pautas de luta, e estão vivenciando regimes de visibilização. “O protagonismo feminino já existe e precisa ser visibilizado”. De acordo com ela, a sociedade naturalizou processos de apagamento feminino, através discursos e imagens onde elas nunca apareciam, como se o trabalho realizado por mulheres fosse atribuído ao universo masculino. 

O mundo acadêmico não é exceção quanto à exclusão da mulher nos cargos de poder. Apesar de representar 57% dos estudantes de universidades brasileiras, apenas 24% das bolsas 1A, as mais prestigiadas, do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) contemplam mulheres. Nos cargos de poder a representatividade feminina ainda é pouca, apenas 30% das reitorias são ocupadas por mulheres. Para Drica Madeira, Doutoranda em Ciência da Literatura pela UFRJ, a ocupação desses lugares é essencial. “Faz toda diferença estarmos em cargos de poder, em especial para rediscutirmos o poder e suas abordagens diante de tanta diversidade, desigualdade e mazelas que enfrentamos enquanto nação.”

Apesar de diversos avanços nos direitos da mulher, ainda é notória a desigualdade de gêneros encontrada ao redor do globo. Hoje as mulheres podem votar, frequentar escolas e universidades dentre outras conquistas, mas ainda não ocupam lugares de poder proporcionais a sua representação e são discriminadas diariamente devido ao seu gênero. A luta feminista por direitos já ganhou espaço no discurso público, porém ainda há um longo caminho a ser percorrido.

Reportagem: Bruna Barros, Eloah Almeida, Felipe Rinaldi, João Pedro Abdo, Joaquim Werneck, Juliana Ribeiro e Lucas Geia

Infográfico: Bruna Barros e João Pedro Abdo

Supervisão: Ana Júlia Oliveira, Carolina Mie e Patrick Garrido

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