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A trajetória do ballet no Theatro Municipal

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O balé do Theatro Municipal é uma das companhias mais prestigiadas do Brasil, porém se encontra em crise desde meados de 2017. Além das dificuldades financeiras enfrentadas pelo estado, a pandemia do coronavírus agravou a situação, levando à paralisação das atividades do TMRJ e prejudicando seus funcionários, como diz uma das principais bailarinas Cláudia Mota: “Já passei por fases maravilhosas no Theatro, outras nem tanto. Nós não conseguimos estar sempre no mundo das maravilhas”.

Trabalhar na companhia se tornou o sonho de carreira de muitos artistas desde sua inauguração. O papel de destaque da instituição no Brasil fez com que ela sempre recebesse apresentações de grande porte, não sendo possível restringir a um período único nos mais de 100 anos de sua existência, como explica Laura Ghelman, responsável pelo Centro de Documentação. “Nomes internacionais como Louis Armstrong, Ray Charles, Pavarotti, Mikhail Baryshnikov e o Ballet do Teatro Bolshoi de Moscou também passaram pelo palco do Theatro Municipal”, reitera Laura. 

Aos quatorze anos, quando ainda estava na escola de dança Maria Olenewa, a bailarina Claudia Mota (que prefere não revelar sua idade) começou a estagiar no Corpo de Baile, onde se formou com dezesseis anos e começou sua carreira internacional. “Fui fazer um intercâmbio na Europa e depois consegui um contrato no ballet de Camagüey, em Cuba, pelo mestre Fernando Alonso”. Após a temporada na ilha caribenha, em 2002, Cláudia entrou para o Theatro Municipal, por audição pública, onde está trabalhando até hoje no cargo de primeira bailarina.

O Theatro é uma instituição do Estado do Rio de Janeiro, logo, os funcionários que trabalham nela e na companhia são públicos, inclusive os bailarinos, e dependem muito das forças governamentais para operar. Quando ocorrem mudanças de cargos do Estado, a presidência do Municipal muda e os dançarinos passam por todo o processo da adaptação, como mudanças na programação, que geram gastos, como explica Cláudia Mota. “Nem todos os diretores e presidentes têm a mesma linha de raciocínio. A gente vai se ajustando conforme as mudanças, mas isso é normal em qualquer companhia do mundo.”

A crise que o Theatro Municipal passa desde 2016 tem origem na situação na qual o Rio de Janeiro estava nessa época. A grave crise econômica, de um rombo de R$19 milhões de reais nas contas estaduais, fez com que o Estado precisasse decretar situação de calamidade pública. A queda da arrecadação dos royalties de petróleo, falhas na gestão das finanças do governo carioca, a necessidade urgente de ter verbas para os Jogos Olímpicos e custear as obras públicas para tal fizeram com que o foco para saúde, segurança e cultura sumisse. 

Sendo assim, o Theatro Municipal, esquecido e negligenciado, perde a importância que sempre teve para a cidade. Cerca de 550 funcionários foram atingidos pela crise e acabaram ficando sem salário por quatro meses. Até hoje, 5 anos depois, o Theatro passa por dificuldades e é difícil ele voltar a ser o que era. Com as dívidas formadas, foi preciso encerrar as atividades em 2017, um ano em que não houve nenhum espetáculo. Até 2021, houve oito trocas de presidentes do Theatro – nenhum deles completou mais de um ano e meio – dentre eles secretários da cultura, maestros e compositores. 

A ex-primeira bailarina do Theatro, Ana Botafogo, de 63 anos, começou na dança por incentivo da mãe, mas logo se encantou com o ballet clássico. Com experiências de estudo na França, Ana foi contratada na Companhia de Roland Petit, onde permaneceu até o final da década de 1970, quando foi nomeada Primeira Bailarina do Teatro Guaíra, em Curitiba. Após essa temporada ela fez uma audição, em 1981, para o Theatro Municipal e conseguiu o cargo que continuou ocupando até deixar a dança. “Foi quando eu estive na França que tive oportunidade de viajar pra estudar e também fazer um curso na Universidade, na qual tive minha primeira oportunidade profissional”, nos conta a dançarina. 

A bailarina Ana Botafogo também compartilha um pouco da sua experiência como profissional. Ela conta que cada vez que o Rio de Janeiro passava por problemas econômicos, isso refletia na agenda cultural do estado, incluindo o TMRJ. “Nós ficamos três meses sem salário e também sem o décimo terceiro. Então, eu considero, nos meus quarenta anos de carreira no Theatro Municipal, que esse foi o pior momento”, reitera Ana. 

Como consequência da crise, muitos bailarinos precisaram pensar em alternativas para sobreviver. A saída encontrada foi a criação do SOS Theatro, uma campanha para ajudar os profissionais prejudicados. A Primeira Bailarina Claudia Mota conta que a falta de recursos inviabilizou a continuidade da programação dos espetáculos e que a campanha foi essencial. “Foi para que o Theatro Municipal não fechasse por falta de verba”, explicou.

Esses profissionais buscaram outras atividades fora da dança para conseguirem se manter economicamente durante esse período. Muitos recorreram à venda de bolos, Uber e entre outras atividades informais e bem diferentes do que costumam fazer. Mesmo com todos os problemas, a gente não deixou o Theatro Municipal fechar, embora muitos disseram que iria afundar. No final das contas, quem realmente esteve à frente, lutou? Eu cheguei a dançar na grama para fazer a ação do SOS Teatro Municipal”, contou Cláudia. 

Com a pandemia da Covid-19, a crise, que já existia, se tornou ainda pior e fez com que todas as temporadas de 2020 fossem canceladas. Com isso, os artistas, dentro do possível, continuaram realizando trabalhos e experiências remotas para atender o público e todos os patrocinadores. Hélio Bejani, diretor da Escola Estadual de Dança Maria Olenewa, e regente interino do Corpo de Baile do TMRJ diz que da noite para o dia a forma de trabalhar foi completamente modificada e que passar do presencial para o virtual em uma área como a dança é difícil de se obter resultados. 

Contudo, o diretor espera realizar produções do ballet de repertório ainda neste ano, mantendo a tradição do Theatro viva. “Sabemos que as impermanências da vida nos levam a constantes mudanças, logo, estamos nos preparando para um longo e árduo trabalho de recuperação técnico, artístico e psicológico que teremos pela frente”, aponta Hélio. 

A beleza na arte dos palcos acaba sendo deixada de lado, não só no Rio de Janeiro, mas em todo o Brasil. Para se tornar um bailarino, é preciso o mesmo esforço físico e dedicação que atletas profissionais, o que torna a dança uma atividade que deveria ter uma maior divulgação. “O Theatro Municipal é a nossa casa mais importante, não só do Estado e da nossa cidade, mas para a história cultural do Brasil”, afirma Ana Botafogo. 

A dança pode ser considerada uma manifestação artística e também uma atividade educativa, já que por meio da disciplina e trabalho em equipe, as crianças e adolescentes aprendem lições importantes para a vida. “Eu acho que quem resiste à dança no Brasil acredita, tem fé e ama o que faz. Tem problemas aqui? Tem, mas eu danço pra minha família, eu danço pro público que eu construí”, pontua a bailarina Claudia Mota.  

Resiliência é uma das palavras mais utilizadas para definir o atual momento, já que a perspectiva de um futuro com as apresentações ainda é distante. É preciso resolver a questão da pandemia com a vacinação em massa para todos os setores funcionarem como antes. Mesmo assim, os funcionários e bailarinos mantêm altas expectativas para o retorno das atividades presenciais, como finaliza Claudia: “Eu tenho um amor pelo Theatro Municipal muito grande. Ele me deu tudo que eu sou hoje – claro, com muito trabalho, e é isso que eu sempre espero: o melhor, sempre.”

 

Reportagem por: Ana Beatriz Miranda, Bruna Barros, Eloah Almeida, Gabriela Leonardi e Leticia de Lucas

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