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A linguagem combativa das charges no Brasil

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Créditos: Zé Dassilva

Em 1837, o porto-alegrense Manuel de Araújo dava vida a primeira charge publicada no Brasil. A obra, chamada “A campanha e o cujo”, fazia uma crítica ao envolvimento de funcionários do governo em esquemas de propina e corrupção. Ainda no século XIX, as ilustrações acompanhadas de sátiras e conteúdos político-ideológicos ganharam espaço nas redações e passaram a ser publicadas em grandes veículos da época, como a Revista Dom Quixote e a Revista Ilustrada. Passados 184 anos da primeira publicação, as charges se mantêm como instrumentos de denúncia aos aspectos sociais de um país e também se apresentam como ferramentas importantes para a manutenção da democracia e de combate ao autoritarismo e à desinformação.

     Primeira charge publicada no Brasil – “A campanha e o cujo” (1837)

Desde sua formação, a história da imprensa no Brasil é marcada pela alternância de períodos com maior e menor liberdade de expressão. Enquanto que no primeiro reinado, Dom Pedro I utilizava o periódico da monarquia, o Diário Fluminense, para atacar e ameaçar  opositores, o governo de Dom Pedro II representou um período de trégua para a imprensa, que pôde avançar com conteúdos de crítica e oposição ao império. O século XX, entretanto, foi marcado por retrocessos na questão do direito à liberdade. Em 1939, o governo Vargas criou o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), cuja finalidade inicial era propagar a ideologia do Estado Novo. O órgão, no entanto, passou a exercer expressivo controle sobre a imprensa. Exemplo disso, foi a invasão de militares do governo à sede do jornal “O Estado de São Paulo”, em 1940, que interviu no periódico durante os cinco anos subsequentes.

Durante os 21 anos da Ditadura Civil-Militar (1965-1985), esta tendência de controle aos meios de comunicação se intensificou. Mecanismos como a Lei de Imprensa, a Lei da Censura Prévia e a Lei de Segurança Nacional, foram criados para garantir esse controle e limitar o acesso à informação. O chargista e artista Fausto Bergocce, que nas décadas de 1970 e 1980 desenhou para o Última hora (SP) e o Folha de São Paulo, explica que havia sempre um clima de preocupação presente nas redações e que os editores tinham consciência dos limites impostos pelo regime. Ele reitera, no entanto, que não permitia que a censura direcionasse o seu trabalho e as suas ideias: “Uma coisa que eu nunca fiz foi me autocensurar. Eu tinha a ideia, fazia, entregava para os editores e via o que eles iriam falar. E aí realizava as alterações, caso fosse necessário.”

 

Charge de Fausto Bergocce com crítica às ações do governo / Reprodução: Arquivo pessoal

Embora os anos de chumbo tenham passado, a preocupação em relação à censura ainda ronda o dia a dia dos profissionais da comunicação. A reação do governo diante de uma charge, publicada em junho do ano passado, retomou esse receio. Intitulada “Crime continuado”, a obra foi produzida pelo chargista Renato Aroeira e fazia uma associação entre o presidente Jair Bolsonaro e o nazismo. Um dia após a publicação, o então ministro da justiça e segurança pública, André Mendonça, solicitou um pedido de investigação contra Aroeira, com base na Lei de Segurança Nacional. 

 

Créditos: Renato Aroeira / Reprodução: Brasil 247

 

Mais conhecida como LSN, a lei foi aplicada durante a Ditadura Militar para promover a ordem e evitar “distúrbios sociais”. Tinha como premissa preservar o Estado Democrático de Direito contra crimes à soberania nacional. O governo do presidente Bolsonaro acabou tendo outras interpretações do objetivo dessa lei e usou-a como proteção político-ideológica. Ainda esse mês, o Congresso decidiu, em votação, a revogação da LSN para realizar atualizações em um novo projeto. No último dia 2, por meio de publicação no Diário Oficial da União, o presidente efetivou o projeto, mas vetou artigos importantes, como o que  estabelecia como crime a disseminação em massa de notícias falsas. 

Fausto e centenas de chargistas se reuniram para apoiar  Renato Aroeira em um movimento que ficou conhecido como “Charge continuada”. Nele, diversos artistas recriaram a charge de Aroeira acompanhada de hashtags como: #somostodosaroeira e #censuranao. A repercussão ao movimento foi tamanha que, em outubro de 2020, durante o  Prêmio Jornalístico “Vladimir Herzog“, a comissão anunciou uma premiação exclusiva para aquela edição. Nomeada como “Prêmio Destaque Vladimir Herzog Continuado”, categoria criada para homenagear Aroeira e os chargistas que participaram da causa.

O jornalista, chargista e roteirista Zé Dassilva, que também foi contemplado com o prêmio, conta sobre a situação atual da imprensa e afirma que enxerga a atitude do governo, para com a charge de Aroeira, como uma tentativa de censura. “O tempo todo é censura e intimidação. Isso aconteceu muito no passado: não só censurar, mas o próprio governo tem o poder de prender alguém por causa de uma crítica […] sempre tem, não só no Brasil, mas em outros lugares também, essa ameaça constante [à imprensa]”, finaliza. 

Zé também explica que na hora de fazer uma charge, há réguas que costumam guiar e delimitar a produção. “Têm desenhos que dão para publicar no jornal, têm outros desenhos que não. Eu acho que para publicar no jornal não pode haver algo relacionado à campanha. Não dá pra publicar no jornal um cartum escrito “Fora temer” ou “Ele não”. O jornalista exemplifica sobre uma charge que fez de Jair Bolsonaro e optou por colocar somente na internet. O desenho retrata o presidente sendo julgado pelo tribunal de Haia, enquanto é mostrada a imagem do mesmo abaixando a máscara de uma criança, em um evento de junho deste ano. 

 

Créditos: Zé Dassilva

A respeito da importância das charges em períodos de crise política, Zé Dassilva explica o papel dessas obras como ferramentas de transformação social: “A charge tem a função de expor o ridículo às pessoas que se levam muito a sério. Eu acho que tem muita gente se levando a sério, sendo que são muito ridículas.” Sobre a mesma questão, o chargista Fausto Bergocce enfatiza a importância de se conhecer a ideia por trás da origem da palavra “charge”: “Ela vem do francês e era uma referência à “carga de cavalaria” […] então a charge desde sempre traz essa ideia de combate.” A carga de cavalaria, a que se refere Fausto, representa uma tática militar de enfrentamento, que tem o objetivo de promover a vitória pelo combate ao adversário. No caso das charges, a vitória da democracia pelo combate ao autoritarismo e à desinformação. 

Reportagem: Isabela Garz | Leonardo Marchetti

Supervisão: Brenda Barros

Créditos da imagem: Zé Dassilva | Arquivo pessoal

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