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A ascensão do Grime no Brasil

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A ascensão do Grime no Brasil

O gênero musical londrino Grime ganhou destaque no Brasil nos últimos anos. Com ritmo contagiante e semelhanças à música eletrônica, o estilo traz à tona a realidade das favelas brasileiras, com músicas que evidenciam a criminalidade nas periferias. Leall, músico do Rio de Janeiro, foi um dos contribuidores para o crescimento do gênero no país. Seu álbum “Esculpido a Machado” conta com cerca de 10 milhões de streamings na plataforma digital Spotify.

O “Brasil Grime Show” também participou diretamente da popularização do ritmo no Brasil. Com aproximadamente 120 mil seguidores e 8 milhões de visualizações, o programa é a maior vitrine para cantores do gênero no país. Porém, o estilo sofre com a dificuldade de formar uma identidade própria e deixar de ser relacionado ao Rap e ao Drill.

O que é o Grime?

O Grime é derivado da música eletrônica, criado em Bow, Londres. O gênero conta com batidas agressivas, mesclando Reggae, Dubstep, Garage entre outros. O gênero começou a ser propagado em rádios piratas locais, antes de ir para o “mainstream” londrino, por volta da década de 2000. Antes de chegar ao Brasil, ele já era falado no exterior. O maior artista de Grime atual, “Stormzy” conseguiu colaborações com grandes nomes da indústria musical, como Ed Sheeran e Kanye West, divulgando o gênero em grande escala. As batidas são normalmente feitas em 140 batidas por minuto (BPM), enquanto as de Rap ficam entre 60 e 100 BPM.

Por ser um estilo vindo do subúrbio, o Grime sempre teve pautas sociais em suas letras. Músicas que passam uma visão de mundo diferente da vivida nos burgos, se sobressaem na cena e fazem o gênero ser o que ele é. Comparando com o estilo “hardcore” do Rock, o produtor e DJ Antconstantino evidencia essa função social do Grime: ” O descobrimento do hardcore foi o que mudou minha cabeça em vários aspectos. Seja lance político, não comer carne, evitar usar droga, lance de comportamento e atitude. O hardcore mudou isso na minha mente e com o Grime foi basicamente a mesma coisa. Eu já ouvia, quando era mais novo, Rap, Rock e outras coisas, mas nada tinha despertado a maluquice em mim igual o Grime despertou”, comenta o DJ.

ANTCONSTANTINO tocando no Morfeus Club / Créditos: Wander Scheeffër

ANTCONSTANTINO tocando no Morfeus Club / Créditos: Wander Scheeffër

O Grime no Brasil

No Brasil, o gênero começou a ser propagado pelo cantor baiano Vandal, que integrou a cultura nos seus shows, em 2011. Porém, não foi bem aceito pelo público e o artista teve que mesclar o Grime com Samba-Reggae. Segundo Vandal, a ideia veio quando escutou o álbum “Boy in Da Corner” do cantor inglês Dizzee Rascal.

No entanto, não foi a primeira vez que um rapper decidiu se aventurar no ritmo, até então, desconhecido. Em 2002, Mv Bill, em colaboração com o cantor Chorão, lançou a música “Cidadão Comum Refém”, considerada uma das primeiras aparições do Grime no Brasil. De acordo com o carioca, ele conheceu o estilo na revista “BIZZ” e pôde se aprofundar na cultura quando viajou para Londres.

Após quase duas décadas, o gênero voltou a ganhar destaque no cenário nacional. Leall, músico do Rio de Janeiro, ganhou relevância após o lançamento do álbum “Esculpido a Machado”. Indicado em quatro categorias pelo Prêmio Nacional RAP TV 2021, venceu três: “Melhor álbum”, “Melhor capa” e “Melhor MC Masculino”, perdendo apenas “Melhor Música”. O trecho “Se a cadeia é meu destino, o que me resta?”, presente no refrão da faixa “Pedro Bala”, é uma forma do cantor denunciar que os jovens negros buscam no crime uma fonte de renda,  por não terem nada a perder. Porém, muitas vezes, são mortos ou, como dito na música, acabam na cadeia.

Álbum "Esculpido a Machado" / Idealizada por LEALL e produzida por Marcelo Martins

Álbum “Esculpido a Machado” / Idealizada por LEALL e produzida por Marcelo Martins

Os cantores Febem e Fleezus tiveram destaque ao lançarem o disco “BRIME!”. Produzido por CESRV, o Extended Play (EP) contém 6 músicas que misturam o Grime com o Funk e trazem referências ao futebol, à moda e ao estado de São Paulo. “Chelsea”, quarta música do projeto, faz diversas alusões a jogadores de futebol, além do nome ser o mesmo do time inglês. Por outro lado, “Raddim” é uma forma de Fleezus e Febem representarem os “bailes de favela”, frequentados pelos jovens paulistas. O EP conta com quase 3 milhões de streamings no YouTube.

SD9, que se intitula como “Rei do Grime brasileiro”, é mais um que teve êxito ao mesclar o Funk com o ritmo londrino. Com letras agressivas e que remetem a realidade das favelas cariocas, o álbum “40º.40” apresenta músicas com cunho cinematográfico, semelhantes à uma crônica narrativa. A canção “40º.40”, que leva o mesmo nome do disco, define bem o que é a obra: a beleza do Rio de Janeiro em contraste com a criminalidade do estado.

Rennan Guerra, produtor e criador do Brasil Grime Show, considera bom o momento atual do gênero: “Novos artistas estão surgindo, se identificando com o gênero, lançando coisas novas. Algumas grandes empresas já estão de olho no Grime. Por enquanto não acho que tenha ninguém financeiramente bem ainda, mas tem gente que já consegue se virar”.

O reconhecimento do Grime no Brasil

A grande quantidade de subgêneros que compõem o Grime, gera confusão do estilo musical com outros semelhantes. Também de origem londrina, o Drill, ritmo derivado do Rap, é o principal responsável por essa dificuldade na distinção entre os gêneros. A escassez de artistas que focam exclusivamente no Grime permite que grandes portais de Rap incluam ambos ritmos no mesmo meio, sem distinção. Portanto, no Brasil, essas culturas caminham juntas.

Os projetos de Grime mais bem sucedidos no país mesclam o gênero com o Funk ou o Rap. A sonoridade habitual facilita o consumo dessas obras para o público brasileiro, mas prejudica a identificação do ritmo como diferente do conhecido. Ao mesmo tempo que essa questão amplia a visibilidade dos artistas e suas músicas, o estilo recebe destaque ou é rotulado equivocadamente, como aponta Antconstantino: “Óbvio que é maneiro se entrar uma música minha em uma playlist de Rap, porque eu vou ganhar view, vou ganhar dinheiro, mas essa confusão que a galera faz dificulta até a relação com grandes marcas. Às vezes uma marca quer fazer um projeto de Grime e ao invés de chegar em um artista de Grime, ela vai acabar chegando em algum que lança Drill e a galera fala que é Grime, por causa dessa bagunça que o público faz no caminho”.

Divulgação do Brasil Grime Show

Divulgação do Brasil Grime Show

Brasil Grime Show

O primeiro movimento de expressão do gênero no país surge em 2018 com a criação do Brasil Grime Show (BGS), um projeto musical que já conta com mais de 118 mil seguidores e 8 milhões de visualizações no Youtube. Rennan Guerra, um dos fundadores, contou como foi o processo de criação: “O Brasil Grime Show surgiu numa roda de conversa. O Lucas Sá e o Mateus Diniz ‘DiniBoy’ estavam trocando ideias sobre a ausência de conteúdos brasileiros relacionados à Grime. O Dini comentou sobre o ‘The Grime Show’, original de Londres, e acabamos animando a ideia. Com isso, criamos um grupo no Whatsapp e marcamos a primeira gravação, com o SD9 e com o Jxnas”.

O programa reúne um DJ e dois MC’s que rimam em batidas de Grime e já está na sétima temporada, com 50 episódios ao todo. Sediado no Estúdio Casa do Meio, em Bangu, o projeto tem o papel de transmitir o gênero dentro do cenário musical nacional. Logo após o lançamento do primeiro “BGS”, os apresentadores da versão britânica do programa solicitaram rapidamente a produção do segundo, para que pudessem transmitir em seu canal.

Guerra também comentou sobre a influência do Brasil Grime Show na carreira de quem passou pelo canal: “Eu acho que todo artista tem o mérito próprio na verdade. A gente é só mais uma forma de exposição. Eu acho muito legal quando os artistas voltam até a gente e falam o quanto foi o diferencial na carreira deles terem passado por aqui. Mesmo sabendo que esse é só um primeiro passo na carreira deles”.

Reportagem: Arthur de Castro, David Silva, Mateus Gomes, Pedro Zandonadi, e Renan Schimid

Supervisão: Gabriel Rechenioti e Lucas Guimarães

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