Parque para quem? A desigualdade no acesso a áreas verdes no Rio de Janeiro
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Diferença na distribuição de espaços com vegetação revela desigualdades urbanas e influencia a qualidade de vida no Rio.
Em meio a ondas de calor cada vez mais frequentes no Rio de Janeiro devido às mudanças climáticas, espaços verdes têm se tornado cruciais para a qualidade de vida da população. No entanto, nem todos os bairros dispõem de ruas arborizadas, parques e jardins que amenizam os dias quentes.
Um levantamento de 2023 da Sociedade Brasileira de Arborização Urbana indica que as zonas norte e oeste têm menos árvores. Bairros como Cordovil, na zona norte, além de Bangu e Santa Cruz, na zona oeste, são os mais prejudicados, enquanto regiões como Jardim Botânico e Gávea, na zona sul, e Grajaú, na zona norte, apresentam mais vegetação.
De acordo com o último Censo Demográfico 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 37,8% dos moradores do Rio de Janeiro vivem em ruas e avenidas sem nenhuma árvore. Cerca de 62% da população reside em vias arborizadas – índice que fica abaixo da média nacional, de 66%.
A falta de árvores impacta de forma direta o enfrentamento às ondas de calor. Um artigo publicado em 2022 na Revista Brasileira de Climatologia, escrito por pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), analisou dados de sete estações meteorológicas da cidade entre 2015 e 2019.
Os pontos de Irajá e São Cristóvão foram os mais quentes no verão na chamada temperatura de superfície, ou seja, a que calcula a temperatura do solo. Quanto mais vegetação, mais amena é a medição. O bairro do Alto da Boa Vista, na zona norte, localizado no coração do Parque Nacional da Tijuca, foi um dos mais frios. Segundo o estudo, as áreas urbanas com maior densidade de árvores apresentam temperaturas superficiais menores do que aquelas com muitas construções civis.

Mapa de temperatura de superfície evidencia áreas quentes da cidade, com destaque para bairros da zona norte, como Irajá. Fonte: Revista Brasileira de Climatologia (2022).
Além disso, o levantamento mostrou que as áreas com temperaturas de superfície elevadas tendem a concentrar mais episódios de calor extremo ao longo do ano, reforçando a relação entre desigualdade socioespacial e vulnerabilidade climática na cidade.
Parque Eduardo Guinle se destaca como área verde aberta à população
Na zona sul, o Parque Eduardo Guinle, em Laranjeiras, é um dos exemplos de área arborizada que atrai visitantes em busca de tranquilidade, lazer e contato com a natureza.
Originalmente, o espaço foi uma chácara adquirida pelo empreiteiro e banqueiro brasileiro Eduardo Guinle para a construção de sua residência. Projetados na década de 1920, os jardins do antigo palacete foram uma criação do famoso paisagista francês Gérard Cochet.
Conheça o Parque Eduardo Guinle numa reportagem produzida para o Instagram do Portal de Jornalismo.
Conhecido hoje como Palácio das Laranjeiras, o local é residência oficial do governador do Estado, podendo ser ou não utilizado como moradia. Com cerca de 24 mil metros quadrados, o parque reúne lago, alamedas, gramados e vegetação, além de um conjunto residencial projetado por Lúcio Costa. O local é aberto ao público e recebe visitantes de diferentes regiões da cidade.

Momento de lazer em família no Parque Guinle, em Laranjeiras. Foto: Maria Eduarda Torres.
Para quem frequenta o parque, existem diversos benefícios. A passeadora de cães Emanuele Oliveira define o lugar como um contraponto à dinâmica urbana. “É um ótimo espaço dentro dessa cidade quente e barulhenta. Aqui a gente tem um lugar fresco, relaxante, calmo, bom para trazer cachorros, crianças e fazer piquenique. Acaba sendo um refúgio”, afirma.
A ciência reforça essa percepção. Um estudo publicado na Revista Brasileira de Ecoturismo em 2025, que analisou pesquisas realizadas em diferentes países, identificou que, em 94% dos casos, o contato com ambientes naturais está associado a benefícios psicológicos e fisiológicos.

O parque proporciona ambiente de descontração ao ar livre. Foto: Maria Eduarda Torres
Em Realengo, Parque Susana Naspolini oferece refúgio nos dias mais quentes
Outra opção arborizada é o Parque Realengo Susana Naspolini, na zona oeste do Rio. Inaugurado em 2024, o espaço é resultado de uma mobilização comunitária duradoura que reivindicou a transformação do antigo terreno da Fábrica de Cartuchos do Exército em uma área pública de lazer e contato com a natureza. “O parque surge a partir do desejo dos moradores em ter essa área verde”, explica a jornalista Fernanda Távora, integrante da Agenda Realengo 2030.

Parque Realengo Susana Naspolini em vista aérea. Foto: Fábio Motta/Prefeitura do Rio
Além de oferecer infraestrutura esportiva, cultural e de convivência, o parque desempenha um papel ambiental relevante. Segundo Távora, a área já se destacava na cartografia do território antes mesmo da inauguração: “Por causa da vegetação, o terreno vira um pontinho verde no meio do mapa de calor de Realengo”. A presença das árvores regula o microclima local e ajuda a reduzir a temperatura, que costuma ultrapassar os 35 graus Celsius (°C) no verão.
Reportagem: Maria Eduarda Torres e Mirella Casanova
Supervisão: Ana Lúcia Araujo, Renata Fontanetto e Vinicius Carvalho
Apoio: Luisa Teixeira



