ESPM-Rio recebe Guga Chacra para conversa sobre o cenário político internacional
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Os Estados Unidos passam por uma deterioração muito clara da sua democracia. A avaliação é do jornalista e correspondente internacional Guga Chacra, que participou de um evento na ESPM-Rio nesta segunda-feira (06/04). Para Chacra, este é um dos maiores momentos de incerteza política internacional, devido especialmente às declarações e à desinformação propagada pelo presidente Donald Trump. Na análise do jornalista, independentemente do candidato vencedor nas eleições presidenciais brasileiras deste ano, o próximo presidente do Brasil deve ser pragmático e manter relações comerciais amistosas com os EUA:
“Trump está enfraquecendo as instituições nos Estados Unidos, perseguindo a imprensa e pressionando universidades. O Brasil e o próximo presidente devem ser realistas e manter uma boa relação comercial com os norte-americanos.”
A comunidade brasileira está assustada nos EUA com a deportação em massa de imigrantes pela ICE, o que tem causado muitos casos de autodeportação, como aponta Guga. “Estudantes estrangeiros não vão criticar Trump nem Israel porque vão observar o que aconteceu com outros estudantes, como a aluna turca que escreveu um artigo criticando a atuação em Gaza e foi presa.”
Incerteza no Estreito de Ormuz
Após o início dos bombardeios em Teerã, o Irã iniciou um bloqueio naval no Estreito de Ormuz – uma das principais rotas de transporte global de petróleo. Com o fechamento da passagem, o preço do barril disparou na cotação mundial e encareceu os combustíveis em diversos países ocidentais, gerando desgaste para a imagem doméstica de Trump.
“O Irã está fazendo uma guerra simétrica, atacando países do Golfo. O Irã está aplicando a Teoria dos Jogos. Antes, os EUA queriam derrubar o governo; agora, querem reabrir o Estreito de Ormuz, que estava aberto antes de os EUA bombardearem o Irã.”
Guga Chacra lembrou ainda que o presidente norte-americano pediu ao Congresso a elevação dos gastos do país com Defesa, da ordem de US$ 1,5 trilhão — um recorde histórico — e o corte de 10% em outros programas federais. Para Chacra, o conflito ainda deve recrudescer antes de um cessar-fogo definitivo, o que exigirá dos jornalistas uma cobertura crítica dos próximos passos do teatro de operações. Segundo ele, não é possível deixar de ressaltar crimes de guerra e as mortes de crianças.
“Não se pode normalizar as mortes de crianças e civis. E os EUA ameaçam cometer crimes de guerra ao bombardear instalações elétricas no país persa. Sem energia, pessoas em hospitais, em respiradores, vão morrer sem atendimento.”
Matéria que mais marcou
Com ascendência libanesa e especialista em Oriente Médio, o jornalista, que vive em Nova Iorque há 21 anos, contou que a cobertura que mais o marcou foi o terremoto de 2010 no Haiti. Chacra embarcou no dia seguinte para a capital atingida pelo tremor que devastou o país e, ao chegar ao aeroporto, viu um cenário de destruição e mortes. Segundo ele, militares fortemente armados tentavam garantir a saída de estrangeiros do país, enquanto haitianos e suas famílias eram impedidos de acessar a área de pousos e decolagens. “Precisei me afastar por duas semanas porque fiquei muito abalado. Passei uma semana em Porto Príncipe e, ao voltar para Santo Domingo (República Dominicana), liguei para meu irmão e só conseguia chorar.”




