Mais de 1,7 milhão de crianças foram registradas sem o nome do pai na última década
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Trauma, omissão e vazio. No Dia dos Pais, nem todas as crianças e jovens conseguem celebrar a data. Isso porque mais de 1,7 milhão de crianças foram registradas sem o nome do pai na certidão de nascimento na última década, segundo dados do Portal da Transparência do Registro Civil.
Somente em 2025, cerca de 174 mil crianças foram registradas apenas com o nome da mãe, o equivalente a 6,9% dos 2,5 milhões de nascimentos do ano. A conta do abandono parental e do cuidado acaba caindo no colo de milhares de brasileiras.
Uma pesquisa do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV) mostra que o Brasil tem mais de 11 milhões de mulheres criando filhos sozinhas.
Dentro dessa realidade, há ainda um recorte claro de gênero e de raça: entre 2012 e 2022, o crescimento no número de mães solo se concentrou no grupo de mulheres pretas. E a conta da casa muitas vezes não fecha, porque elas ganham 39% menos do que homens casados e com filhos.
A ausência de uma figura paterna para a criança pode gerar questões psicológicas que não ficam restringidas apenas ao período da infância, como explica a psicanalista autônoma Patricia Perez.
“A criança não pensa ‘meu pai e minha mãe estão com problemas e me abandonaram’. Ela pensa: ‘eu não fui suficiente’. Essa conclusão é levada para a vida adulta. O resultado é uma ferida enorme, e a pessoa vai sempre achar que merece menos do que de fato merece.”
Apesar da complexidade da situação, Perez ressalta que o abandono não é uma sentença. O quadro pode ser atenuado por outras figuras de afeto que ocupem espaço na vida da criança, com presença e carinho, além de um acompanhamento terapêutico consistente.
Em outubro de 2025, foi sancionada a Lei 15.240, que altera o Estatuto da Criança e do Adolescente para caracterizar o abandono afetivo como ilícito civil. Na prática, um filho pode acionar a Justiça e pedir reparação de danos morais ou materiais contra a pessoa omissa. O dever parental deve incluir sustento material, a guarda e a assistência afetiva. Em outras palavras, não basta somente pagar a pensão.
Para a estudante Sara Ribeiro, de 19 anos, a indenização, ainda assim, não resolve anos de ausência:
“Ouvir que eu tinha um pai e perceber que ele nunca sequer foi a um evento de escola ou comemoração, principalmente meu aniversário, sempre foi muito triste. É como se a minha vida toda tivesse se tornado sobre a ausência de uma pessoa que nem sequer fez algo para demonstrar que me amava. O que mais me incomoda é o medo que isso me traz; um medo de as pessoas me abandonarem e me deixarem sozinha”.
Reportagem: Ana Caldana, Carlos Colla e Guilherme Martins
Supervisão: Renata Fontanetto
Crédito foto: Pixnio/ Licença Creative Commons



