Crítica: Feito Pipa (2026)
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Feito Pipa é dirigido por Allan Deberton, e o roteiro é assinado por André Araújo. Baseado nas memórias de infância da dupla, o filme acompanha Gugu, um menino do interior do Ceará que vive uma relação conflituosa com o pai, Batista. Ele é muito ligado à avó, Dilma, que enfrenta um quadro rápido e progressivo de doença de Alzheimer. A obra foi escolhida para tentar representar o cinema brasileiro no Oscar de 2027.
Ambientada em Quixadá, no sertão cearense, a história não ignora o preconceito que um garoto que gosta de dançar e se maquiar pode encontrar. O foco da temática LGBT e da LGBTfobia não está na hostilidade do mundo contra Gugu, e sim na relação dele com o pai. A maioria dos personagens, aliás, adora o menino, o que reforça seu encanto e contrasta com o conflito que o separa do pai.
O elenco principal reúne dois nomes consolidados da cena artística brasileira: Lázaro Ramos (Batista) e Teca Pereira (Dilma). O destaque, porém, vai para o ator mirim Yuri Gomes, que vive Gugu em uma atuação digna de Oscar. Em cena, o menino irradia carisma e conduz a narrativa de um jeito que torna difícil desviar o olhar. Em um dos momentos mais marcantes, o protagonista dança e conquista pela sensação de liberdade e pela ausência de medo do julgamento alheio. Essa segurança é outra marca do personagem: quando o pai pergunta se ele liga para o que os outros pensam do seu comportamento, a resposta é não.
É também em torno de Gugu que o humor do filme se concentra. As cenas mais leves nascem da espontaneidade do menino, de suas respostas e de seu jeito de encarar o mundo, e são nesses momentos que a plateia ri com mais facilidade.
A narrativa se divide em dois pólos que ajudam a construir o protagonista. O primeiro é a relação entre Gugu e Batista. Há no pai uma luta nítida entre os valores rígidos que carrega e o amor pelo filho, e Lázaro Ramos constrói essa dualidade com sensibilidade.
O problema é que o roteiro nem sempre sustenta essa complexidade. Em vários momentos, Batista é conduzido para o lugar de vilão, o que contraria a ideia de um pai dividido e empobrece um personagem que tinha tudo para fugir mais ainda do clichê. A atuação de Lázaro Ramos protege o papel, mas a escrita, em certas cenas, trabalha contra ele.
O segundo lado, e o mais tocante, é a relação de Gugu com a avó. Antes muito próximos, os dois se distanciam à medida que o Alzheimer avança. Ainda assim, Dilma continua sentindo a presença do neto, mesmo sem compreender direito o que se passa, e as cenas entre eles são capazes de fazer o espectador sair da sala de cinema chorando.
Apesar de as duas tramas serem apresentadas com peso semelhante, o filme dá mais destaque à relação com a avó, e o conflito com o pai, que parecia ser o centro da história, fica sem um desfecho merecido. A sensação é de que uma das linhas foi mais bem resolvida que a outra, e quem entra na sessão esperando uma conclusão para a relação entre Gugu e Batista sai com a impressão de uma promessa não cumprida.
Feito Pipa estreou mundialmente em 14 de fevereiro de 2026, no Festival de Berlim, onde integrou a mostra Generation, voltada a produções com protagonistas e temas infantojuvenis. Na ocasião, conquistou o Urso de Cristal e o Grande Prêmio do Júri de Melhor Filme, além de ficar entre os três finalistas do Teddy Award, dedicado a obras de temática LGBTQIAPN+. Ainda em 2026, foi selecionado para a mostra competitiva principal da 54.ª edição do Festival de Gramado. A estreia nos cinemas brasileiros está prevista para 5 de novembro de 2026, com distribuição pela Paris Filmes. No mercado internacional, o título é Gugu’s World.
Crítica: Guilherme Guedes
Supervisão: Renata Fontanetto



