CARREGANDO

O que você procura

Cine Resenha Cultura Rio de Janeiro

Crítica: A Bola Negra (2026)

Compartilhar
“Cena da Votação” com o personagem Carlos (Milo Quifes). Cortesia: Festival do Rio.

O filme A Bola Negra, da dupla de diretores Los Javis, é um filme profundo e complexo. A obra aborda diversas temáticas e explora sentimentos complicados e crus, com personagens imperfeitos. O longa segue a história de três protagonistas em três momentos diferentes da história: Carlos (Milo Quifes), em 1932; Sebastián (Álvaro Lafuente Calvo, também conhecido como Guitarricadelafuente), em 1937; e Alberto (Carlos González), em 2017.

Por conta desses três protagonistas em épocas muito diferentes, a narrativa do filme brinca e tira proveito da grande diferença entre os problemas e situações em que eles se encontram. Contudo, ainda existe uma linha narrativa que liga todas as histórias, além de, é claro, o eixo temático do filme.

Poster do filme Bola Negra. Cortesia: Festival do Rio

Carlos busca, a todo custo, se filiar ao cassino local a pedido do pai. Contudo, ele é impedido através de uma votação que utiliza bolas brancas e negras, realizada pelos líderes daquele lugar. O motivo que fez com que seu pedido fosse negado era a suspeita de que fosse homossexual. Carlos então navega por seus sentimentos incertos quanto à sua falta de vontade de acatar os desejos do pai, além de também lidar com seus sentimentos amorosos por um amigo próximo.

Já a história de Sebastián segue um jovem no interior da Espanha que se junta ao exército italiano fascista. Certo dia, Sebastián é encarregado de tomar conta de um prisioneiro inimigo e, conforme os dois se envolvem e se compreendem mais, lentamente Sebastián começa a se apaixonar por ele.

Por fim, a história de Alberto gira em torno de um homem que, após a morte de seu avô, é chamado para uma vila no interior para coletar o testamento de seu parente. Contudo, ao recebê-lo, ele descobre que seu avô havia deixado para trás um envelope para ele e que gostaria que esse envelope fosse entregue a uma família que Alberto nunca ouviu falar.

A história então chega à sua grande reviravolta, quando Alberto descobre que, dentro desse envelope, há uma peça de teatro, e essa peça de teatro é nada mais do que a história de Carlos, intitulada “La Bola Negra”. 

Além de um roteiro envolvente, Los Javis demonstram ser mestres da arte cinematográfica. O longa possui composições magníficas, que são dignas de serem impressas e expostas em galerias de arte. A câmera frequentemente é utilizada para expressar os sentimentos dos protagonistas. 

Por exemplo, Sebastián é apresentado com composições que se mantêm próximas e íntimas, com foco em close-ups que demonstram a proximidade e o amor que lentamente se desenvolve. Mas não se engane: por se passar em um período de guerra, a cinematografia também enfatiza a violência desse período. Existe uma grande indiferença quanto aos cadáveres, à nudez dos mortos e às suas feridas, demonstrando a eventual banalidade da violência.

Alberto possui uma cinematografia moderna. Ela não expressa algo tão diretamente quanto a de Carlos e Sebastián, mas este é justamente o ponto. Alberto é apenas um homem comum, vivendo sua vida e lidando com a monotonia de sua rotina e de sua pesquisa. Contudo, a cinematografia se torna mais detalhada e intimista, análoga à de Sebastián, conforme a reviravolta do filme é revelada e ele se envolve mais com um parente abusivo.

No fim, o eixo temático de A Bola Negra é muito claro. O filme tenta enfatizar a importância de obras LGBTQIAPN+ para a juventude e a maneira como elas são cruciais para o entendimento de sentimentos confusos no coração dos jovens, sua própria aceitação e sua libertação, permitindo que vivam livres e honestos com seus próprios sentimentos. Mensagem essa que é entregue com maestria pelos diretores e roteiristas.

Diretores Javier Calvo e Javier Ambrossi. Cortesia: Festival do Rio

Confira o trailer:

Crítica: Pedro Pitta
Supervisão: Renata Fontanetto