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A Distorção de Itaguaí: Dados do DETRAN-RJ apontam 13 infrações para cada habilitado no município

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O município de Itaguaí, no Rio de Janeiro, registra um volume de infrações 13 vezes maior que o número de condutores habilitados. Esse é o dado mais impressionante encontrado em uma análise que, apesar das falhas e inconsistências na base de dados do DETRAN-RJ, revela um cenário de distorção que compromete a segurança viária e expõe  a fragilidade de um sistema que deveria orientar decisões estratégicas do poder público. 

Analisamos as informações públicas disponibilizadas pelo próprio DETRAN-RJ, extraídas das bases de habilitados, infrações e veículos registrados. Após a limpeza e padronização dos dados, ainda assim foi possível identificar problemas estruturais que não podem ser corrigidos apenas com tratamento estatístico. A falta de ligação entre condutor, tipo de veículo e natureza da infração impedem análises mais profundas e comprometem qualquer tentativa de compreender o perfil dos motoristas ou a distribuição dos tipos de infração. 

Embora limitadofoi traçado um perfil parcial dos condutores e das infrações no estado. Entre os habilitados, o gênero masculino foi predominante, com a média de idade igual a 57 anos. No entanto, a distribuição de idades apresenta inconsistências, com registros que vão de 19 a 125 anos, o que levanta suspeitas sobre a qualidade dos registros. A infração mais comum é “Transitar em velocidade superior à máxima permitida em até 20%”, e a maioria das infrações registradas é de natureza “Gravíssima”.

A distribuição geográfica das infrações, visualizada no mapa, reforça a hipótese de que há concentração do problema na capital e em seus arredores. O município do Rio de Janeiro aparece com a cor mais escura, indicando o maior volume de infrações em números absolutos. Embora o mapa não reflita a taxa de infrações por habitante, ele é um indicador visual da área onde a fiscalização e o volume de ocorrências são mais intensos, concentrando o foco do problema na região metropolitana e em alguns polos regionais do interior.

A disparidade na distribuição de infrações é evidente ao analisar o ranking dos 10 municípios com mais ocorrências no estado. O município do Rio de Janeiro lidera com ampla vantagem, registrando 41,96% infrações, o que representa a maior parte do total estadual. Em seguida, destacam-se Itaguaí com 9,08% e Niterói com 4,48% , que apesar de terem números absolutos muito menores que a capital, figuram no topo da lista.

Essa concentração na capital e em municípios próximos, como Macaé, Cabo Frio e São Gonçalo, reforça a necessidade de uma fiscalização mais direcionada e de políticas públicas que considerem as particularidades de cada região. Dessa maneira, a análise por município revela disparidades alarmantes.

O Gráfico de Dispersão de Total de Infrações por Total de Habilitados ilustra visualmente a discrepância nos dados. A maioria dos municípios se concentra na parte inferior esquerda, indicando um comportamento semelhante entre cidades de menor porte. Entretanto, dois pontos se destacam como outliers: o município do Rio de Janeiro, que naturalmente concentra o maior número de habilitados e de infrações e, de forma mais crítica, Itaguaí. Este aparece com um volume de infrações muito superior ao esperado para o seu número de condutores, reforçando a tese de que a base de dados possui distorções significativas que precisam ser corrigidas para refletir a realidade do trânsito local.

Todavia, quando se analisa a taxa de infrações por habitante habilitado, o município de Itaguaí se destaca negativamente, com uma taxa de 13,67 vezes o número de condutores habilitados no município. Este dado pode indicar um alto volume de tráfego de veículos de outras localidades ou uma fiscalização intensa, mas a falta de dados mais detalhados impede uma conclusão definitiva. Outros municípios, como Casimiro de Abreu (4,44), Guapimirim (2,74) e Angra dos Reis (2,77), também apresentam taxas elevadas, enquanto Cambuci (0,02) e Carapebus (0,03) registram as menores taxas.

Questionada sobre a discrepância, a Prefeitura de Itaguaí atribuiu o alto índice de infrações ao fato de o município ser cortado pela rodovia Rio-Santos (BR-101) e à implementação do pedágio sem cancela na via. “Convém lembrar que o município é cortado pela rodovia Rio- Santos (BR- 101), e a modalidade de cobrança e fiscalização que foi implementada nesta via- o pedágio free flow, sem cancela ou pedágio- certamente impactou nas estatísticas referentes a Itaguaí”, afirmou a assessoria, destacando que a fiscalização e a quantificação das infrações na rodovia são de responsabilidade da concessionária CCR-RioSP e da Polícia Rodoviária Federal (PRF), e não da fiscalização municipal.

Em resposta, o Núcleo de Comunicação Institucional da PRF informou que, em 2024, foram emitidas 199.817 autuações por infrações de trânsito apenas na BR-101 (Rio-Santos), no trecho de Itaguaí. As principais infrações registradas foram: excesso de velocidade, conduzir veículo com licenciamento vencido, não utilização do cinto de segurança, conduzir veículo com mau estado de conservação e conduzir veículo com equipamento obrigatório em desacordo. O alto volume de autuações em uma rodovia federal que corta o município ajuda a explicar a distorção nos dados estaduais.

Em todos os municípios analisados, o automóvel configura como o tipo de veículo com o maior número de infrações. No Rio de Janeiro, por exemplo, das 2.775.093 infrações registradas, 1.699.038 são atribuídas a automóveis. Outros tipos de veículos também contribuem significativamente para o total de infrações, refletindo a diversidade da frota fiscalizada: as motocicletas, as caminhonetes (veículos mistos com caçamba aberta) e as camionetas (veículos mistos com carroceria fechada, como SUVs e peruas) apresentam números consideráveis, o que demonstra a amplitude da fiscalização e a variedade de veículos envolvidos nas ocorrências.

A fragilidade dos dados do DETRAN-RJ é confirmada por Felipe Petrucci, jornalista e analista de dados. Segundo Petrucci, a ausência de informações contextuais torna qualquer interpretação frágil e sujeita a conclusões distorcidas. “Quando lidamos com informações do DETRAN que vêm incompletas ou pouco detalhadas, principalmente sem dados como fluxo de veículos, origem e destino dos deslocamentos, perfil populacional ou a forma como o solo urbano é utilizado, qualquer interpretação fica muito frágil. É comum que, sem esses elementos, uma leitura inicial leve a conclusões distorcidas”, afirma.

 

Foto: Redes Sociais

 

O Analista Felipe Petrucci , analista de dados e em inteligência de mercado

O analista destaca que a falta de dados sociais, como renda e escolaridade, impede a identificação de problemas estruturais, transferindo indevidamente a responsabilidade para o motorista. Além disso, a ausência de um histórico individual de infrações impede a identificação de padrões de comportamento. “Quando não existe um registro claro sobre quantas vezes um mesmo motorista repete determinado tipo de infração, fica difícil identificar padrões de comportamento que se repetem. Sem o histórico individual, tudo vira estatística solta e perdemos a chance de perceber motoristas que apresentam o mesmo tipo de conduta ao longo do tempo ou regiões que repetem o mesmo problema”, explica Petrucci. 

Para ele, os dados atuais servem majoritariamente para controle interno e fiscalização, mas não entregam a profundidade necessária para o planejamento urbano. Ele defende a integração de dados entre o DETRAN e as prefeituras, que poderiam fornecer informações sobre movimentação de carros, perfil dos bairros e condições das vias. “Para que as informações realmente tenham valor, seria necessário que DETRAN, prefeituras e órgãos responsáveis pelo trânsito trocassem dados de maneira mais organizada.”.

Questionado sobre as inconsistências nos dados, o DETRAN-RJ, por meio de sua Assessoria de Comunicação, forneceu uma explicação para as distorções encontradas, especialmente no que tange à idade dos condutores habilitados. “Como já explicado, a base de dados do Detran inclui carteiras de habilitação já vencidas, o que gera distorções.” A declaração do órgão sugere que a inclusão de CNHs vencidas na base de dados de habilitados é a causa da discrepância na distribuição de idades, como a presença de condutores com mais de 100 anos. Em uma comunicação anterior, o órgão havia informado que “Os condutores habilitados com 100 anos ou mais com a CNH não vencida são 12 no Estado do Rio.” Apesar da explicação, a inclusão de dados “vencidos” na base de habilitados para fins de análise estatística e formulação de políticas públicas continua a ser um ponto de crítica, pois distorce a realidade do universo de condutores ativos e, consequentemente, a taxa real de infrações por habilitado.

Foto de Capa: Agência O Globo

Reportagem: Bebeto de Pinho e Taís Vianna

Supervisão: Leonardo Mancini e Vinicius Carvalho

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