Segurança pública no Rio: especialistas discutem limites das operações policiais e contaminação do crime organizado na política fluminense
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Forças de Segurança atuando juntas no estado do Rio de Janeiro. Crédito: Secretaria de Segurança Pública do Estado do Rio de JaneiroForças de Segurança atuando juntas no estado do Rio de Janeiro. Crédito: Secretaria de Segurança Pública do Estado do Rio de JaneiroForças de Segurança atuando juntas no estado do Rio de Janeiro. Crédito: Secretaria de Segurança Pública do Estado do Rio de JaneiroNo Rio de Janeiro, o debate sobre segurança pública ultrapassa o enfrentamento direto às facções e milícias. A presença de grupos criminosos em territórios do estado também se relaciona a uma disputa por poder político e influência sobre instituições públicas. Casos envolvendo candidatos e agentes políticos levaram a Justiça Eleitoral a discutir mecanismos para impedir a interferência de organizações criminosas nas eleições. Em setembro de 2026, o Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro (TRE-RJ) informou ter indeferido dez registros de candidatura por vínculos com organizações criminosas de caráter paramilitar.
O problema não é novo. A CPI das Milícias da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), em 2008, já havia apontado o envolvimento de políticos e agentes públicos com grupos paramilitares. O relatório final propôs, entre outras medidas, a criação do crime de “curral eleitoral” e mecanismos de controle sobre a atuação política nas áreas dominadas por milícias.
É nesse contexto que a segurança pública se torna também uma questão eleitoral. O tema foi discutido pelos especialistas João Trajano, professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), e Paulo Storani, ex-capitão do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope). A entrevista, conduzida pelas estudantes Kaylane Pedroso e Letícia Capela, integra a série especial de cobertura eleitoral do Portal de Jornalismo da ESPM, que reúne entrevistas sobre temas centrais para o eleitorado.
O crime organizado e a política
A relação entre organizações criminosas e instituições políticas ganhou novos contornos nos últimos anos. Em 2025, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) reafirmou que integrantes de organizações paramilitares ou pessoas apoiadas por elas não podem disputar eleições. Segundo a Corte, a Constituição impede a interferência direta ou indireta de grupos criminosos organizados no processo eleitoral.
No Rio, investigações também alcançaram o Legislativo estadual. Em 2023, o Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ) e a Polícia Federal deflagraram a Operação Batismo para investigar a atuação política de um parlamentar estadual e de uma assessora em benefício de uma milícia. Foram cumpridos mandados, inclusive em um gabinete da Alerj.
Para além dos casos individuais, a discussão envolve a capacidade do Estado de exercer controle sobre territórios e garantir serviços públicos. É nesse ponto que os entrevistados relacionam a atuação policial à necessidade de uma presença estatal mais ampla e lembram da última grande política de segurança do estado, com todos os avanços, especialmente na redução de homicídios, e desafios, como a expansão sem planejamento e casos de mortes por policiais.
Depois da operação, o que fica?
Criado em 2008, o programa das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) buscou ampliar a presença permanente da polícia em territórios anteriormente controlados por grupos criminosos. A primeira unidade foi instalada no Morro Santa Marta, em Botafogo.
Para João Trajano, a ocupação policial deveria ser acompanhada pela chegada de outros serviços públicos: “A expectativa é que o aparelho estatal chegasse com outros serviços: programas para os jovens, saúde, escolas funcionando bem, saneamento”, ressalta ele.
A avaliação é que a segurança não pode ser reduzida à entrada das forças policiais em territórios dominados pelo crime. A ausência ou fragilidade de outras estruturas do Estado pode abrir espaço para que grupos armados mantenham influência econômica, social e política.
O modelo das grandes operações
A discussão ganhou novo peso após a Operação Contenção, realizada em 28 de outubro de 2025 nos Complexos do Alemão e da Penha. A ação mobilizou cerca de 2,5 mil agentes e terminou com 122 mortos, incluindo policiais. O Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro abriu investigação para apurar as circunstâncias das mortes.
Para João Trajano, o problema não está apenas na realização de operações, mas na centralidade que esse tipo de ação assumiu na política de segurança do estado. Na avaliação dele, décadas de operações não reduziram o poder dos grupos armados e ainda provocam impactos sobre serviços essenciais: “Ao longo desse tempo, nós não tivemos uma diminuição do poder dos grupos armados. Do ponto de vista pragmático, do resultado, da análise de impacto, essas políticas são um fracasso, afirma o especialista. ”
O professor também chama atenção para os efeitos das incursões sobre a rotina dos moradores. Segundo ele, operações podem interromper aulas, serviços de saúde e outras atividades realizadas nas comunidades.
Storani, por sua vez, destaca a dimensão da estrutura armada das organizações criminosas e defende que a atuação policial considere a capacidade de reação desses grupos. Ex-capitão do Bope e consultor dos filmes “Tropa de Elite”, ele afirma que operações de grande escala podem produzir efeitos imediatos, mas não necessariamente alteram a dinâmica econômica do crime: “Quanto deixou de ser vendido, quantas gramas de cocaína deixaram de ser vendidas por conta da megaoperação? Não vai ser deixado de vender 1 grama de cocaína ou nenhum papel de maconha por conta disso, enfatiza Storani.”
A experiência de 2010 também aparece no debate. Naquele ano, uma sequência de ataques levou o governo estadual, com apoio das Forças Armadas, a realizar a ocupação do Complexo do Alemão. A operação ocorreu em 28 de novembro, após dias de ataques em diferentes pontos da cidade.
Entrevista: Kaylane Pedroso e Letícia Capela
Reportagem: Pedro Pitta
Supervisão: Pollyana Bretas



