Sátira, caos e política: os bastidores do Medo e Delírio em Brasília na ESPM-Rio
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Por: Gustavo Medeiros e Maria Elysa Mendes.
A cobertura do cenário político brasileiro por uma lente ácida e caótica foi o centro do debate que encerrou o primeiro dia da Semana do Jornalismo na ESPM-Rio, nesta terça-feira (08). A mesa reuniu Cristiano Botafogo e Pedro Daltro, as vozes e mentes por trás do podcast “Medo e Delírio em Brasília”. Durante o painel, a dupla compartilhou os desafios e as peculiaridades de produzir um dos programas mais originais e influentes da comunidade de podcasts nacionais.

Foto: Manu Vasil
Nascido durante as eleições de 2018, em um blog onde Daltro canalizava sua indignação com o cenário político, o projeto migrou para o áudio mantendo em sua essência uma montagem acelerada que traduz o clima do país. “A gente vive um caos, (o formato) tem que acompanhar”, explicou Daltro. Segundo Botafogo, a transição dos textos e gifs para a mídia sonora resultou em uma identidade única, que eles mesmos consideram um “contraexemplo” mercadológico. “Sempre fizemos o que queríamos e conseguíamos fazer, e as pessoas gostaram.”, revelou Botafogo.
O projeto se alimenta de material produzido pela imprensa tradicional, mas busca também certo distanciamento. Embora partam da apuração dos grandes veículos para roteirizar os episódios, usando sempre fontes aprofundadas e seguras, rejeitam o dogma da neutralidade. Para eles, isso é o que garante a liberdade para fazer piadas e expor as contradições do poder. “O humor pode tornar um assunto difícil mais palatável, muitas vezes é assim que a pessoa consegue entrar em contato com aquela pauta, o que é melhor do que não entrar em contato.”
No entanto, o tom debochado tem limites muito claros. Os convidados ressaltaram que não há espaço para sátira quando o assunto envolve tragédias humanas. Assuntos sensíveis, como a tortura ou vítimas de conflitos internacionais, não viram piada. Nesses momentos, o formato abre espaço para a reflexão séria.

Foto: Manu Vasil
Sobre a rotina de produção, a dupla diz que muitas vezes abrem mão da pauta mais quente do momento para discutir assuntos que estão fora do radar da imprensa. Os temas geralmente são definidos pelo roteirista, afirma Botafogo: “Quem define e faz a costura é o Pedro, então acho importante que seja uma coisa que ele esteja empolgado pra fazer. Se tivesse alguém pautando, talvez ele não fosse tão produtivo.”
Em um mercado de áudio que se expandiu exponencialmente nos últimos anos, o Medo e Delírio não enxerga outros programas como concorrentes diretos, focando apenas em continuar oferecendo um recorte exclusivo para os ouvintes.
O horizonte político também pautou a mesa. Os convidados temem que o cenário eleitoral traga ainda mais instabilidade a curto prazo. Durante o papo, Botafogo comentou os recentes livros “A verdade vos libertará” e “Juízo Final” lançados em parceria com a fotojornalista Gabriela Biló. Reforçando o compromisso do podcast em registrar a história política recente do Brasil, eles traçam uma linha do tempo documental da escalada da violência política no Brasil desde 2013 até os atos de 8 de janeiro de 2023.
Supervisão: Guilherme Correa.



