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Na COP30, a saúde entra na pauta da crise climática

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Na conferência climática da ONU que ocorre em Belém até esta sexta (21/11), uma das apostas do Brasil foi o lançamento do Plano de Ação em Saúde de Belém. O documento funciona como um guia de adaptação climática para os sistemas de saúde nacionais e foi apresentado na última quinta (13).

A perspectiva de que a crise climática é, sobretudo, uma crise de saúde pública, representa uma abordagem relativamente nova nas negociações sobre o clima e vem ganhando força nos últimos anos, recebendo um papel de destaque na COP30.

O plano orienta o fortalecimento de três linhas estratégicas: vigilância e monitoramento de doenças e casos de saúde agravados pelo clima; fortalecimento de capacidades e políticas baseadas em evidências; e inovação, produção e saúde digital, todas sustentadas por princípios de equidade, justiça climática e governança participativa.

Até o momento, segundo o ministério da Saúde, mais de 80 endossos foram registrados na COP30, entre países e instituições. A adoção do Plano é voluntária e, por isso, o ministério continuará buscando apoios.

Como as mudanças climáticas afetam as pessoas e os sistemas de saúde?

Diante de uma enchente, por exemplo, os sistemas de saúde necessitam de planos robustos para atuar com efetividade. Devem ser capazes de gerenciar o aumento massivo de atendimentos e a complexa diversidade de agravos. 

De acordo com o relatório do Observatório de Saúde e Clima da Fiocruz sobre o agravamento de problemas de saúde relacionados ao desastre climático no Rio Grande do Sul de 2024, observou-se um aumento de doenças respiratórias e gastrointestinais, lesões físicas e acidentes com animais peçonhentos imediatamente após a catástrofe. 

Além disso, a contaminação da água e do solo eleva exponencialmente o risco de leptospirose, diarreias, dengue e hepatite A, devido à ingestão de água e alimentos contaminados, além da proliferação de mosquitos em água parada. 

Em um cenário pós-enchente, a aglomeração em abrigos facilita a transmissão de doenças respiratórias como gripe, Covid-19, pneumonia e tuberculose. A saúde mental da população também é severamente afetada, com aumento de casos de estresse pós-traumático, depressão e ansiedade.

Mais ondas de calor e problemas decorrentes da poluição

Essa interconexão entre clima e saúde é observada na prática por profissionais como a pneumologista Danielle Bedin, médica em São Paulo e embaixadora do Médicos pelo Clima. Ela relata o agravamento de doenças respiratórias, como asma e bronquite, durante ondas de calor e períodos de alta poluição:

“Nas ondas de calor, muitos pacientes se sentiam mal, às vezes com falta de ar, pressão baixa e piora de doenças prévias, como asma e bronquite crônica. Quando tinha muita poluição, todo mundo vinha tossindo. E aí eu comecei a associar isso com os sintomas do paciente. Pensei que tinha algo a mais que nós, profissionais, não víamos”.

Foi então que ela começou a buscar respostas sobre a sazonalidade desses problemas. A investigação fez com que ela descobrisse um novo mundo sobre os estudos de mudança climática e impacto na saúde. Embora a literatura já abordasse o tema, o foco na saúde era mais recente. 

Mesmo após ter realizado sua formação em pneumologia e doutorado em risco cirúrgico sem foco nessa área, a constatação de uma lacuna na abordagem tradicional, somada à sua crescente observação clínica dos impactos diretos do clima na saúde, marcou uma virada profissional. Ela se aproximou, então, do movimento “Médicos pelo Clima”, do Instituto Ar, do qual atualmente é embaixadora. A iniciativa é o primeiro movimento brasileiro de protagonismo da classe médica no combate à mudança climática e à poluição do ar.

De acordo com o estudo “Desigualdades demográficas e sociais do século XXI de mortes relacionadas ao calor em áreas urbanas brasileiras”, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e Universidade de Lisboa, 48 mil pessoas morreram no Brasil em decorrência de ondas de calor extremo entre 2000 e 2018. 

Os grupos mais afetados pelas mudanças climáticas são socialmente vulnerabilizados, como crianças, idosos, mulheres, pessoas negras, pacientes com menor escolaridade e moradores de regiões periféricas, com menos acesso a serviços básicos. Resta agora saber se os países vão conseguir implementar as medidas recomendadas pelo Plano de Ação para proteger suas populações. 

Reportagem: Ísys Bueno
Supervisão: Renata Fontanetto

 

 

REFERÊNCIAS:

https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/cop30/publicacoes/plano-de-acao-em-saude-de-belem-ingles 

https://www.oc.eco.br/mais-de-48-mil-pessoas-morreram-por-ondas-de-calor-no-brasil-entre-2000-e-2018/- 

https://ceara.fiocruz.br/portal/index.php/institucional/ex-coordenadores/fernando-carneiro-2/ 

https://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0295766 

 https://climaesaude.icict.fiocruz.br/sites/climaesaude.icict.fiocruz.br/files/Nota%202-%20Doen%C3%A7as%20e%20agravos.pdf 

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