Quando ser negro vira alvo: dados mostram a face cruel da violência no país
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O dia 20 de novembro é uma data dedicada à luta e as contribuições da população negra no Brasil. A data foi pensada principalmente para homenagear Zumbi dos Palmares, símbolo da luta contra a escravização do povo preto, morto neste mesmo dia por bandeirantes, após anos de resistência contra as expedições que visavam destruir o Quilombo dos Palmares.
Da luta de Zumbi aos dias atuais, o Brasil ainda convive com sua realidade marcada pela violência contra a população negra. Dados do Atlas da Violência de 2024 indicam que das mais de 46 mil pessoas que foram assassinadas no Brasil, 76,5% são pessoas pretas e pardas.
Ao se pensar no Rio de Janeiro, a realidade é ainda pior. Segundo o 1º Informe Epidemiológico Sobre a Situação de Saúde Da Juventude Brasileira: Violências e Acidentes, estudo da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), publicado em agosto, 3 em cada 4 mortes dos jovens negros decorrem da violência ou acidentes. Entre os homens jovens, o risco de morte violenta é 50% maior que o da população masculina num todo. Este levantamento evidência que a desigualdade racial é mais acentuada na juventude, e revela que fatores como região, idade e gênero influenciam os óbitos.
De acordo com o Instituto de Segurança Pública (ISP), somente em 2023 foram registradas 4.270 mortes violentas de homens negros e jovens, considerando latrocínios, homicídios dolosos, lesões corporais seguidas de morte e ações envolvendo agentes de segurança do Estado.

Foto: Tomaz Silva /Agência Brasil
Um dos episódios mais conhecidos ocorreu em fevereiro de 2025, envolvendo o jornalista Igor Melo, que retornava para casa de mototáxi. No trajeto, encontrou o policial militar da reserva Carlos Alberto de Jesus, que procurava suspeitos de um suposto assalto contra sua esposa. O PM derrubou a moto e atirou contra o mototaxista e o passageiro. Igor foi hospitalizado em estado grave e perdeu um rim. Chegou a ficar sob custódia e sem receber visitas da família, mas foi posteriormente absolvido por falta de provas.
Outro caso aconteceu em 7 de junho de 2025, quando Herus Guimarães Mendes foi morto com dois tiros no abdômen e arrastado por policiais durante uma festa junina na comunidade Santo Amaro, na Zona Sul do Rio. Segundo o inquérito da Delegacia de Homicídios, o policial militar Aristheu de Góes Lopes, coronel do comando do Batalhão de Operações Especiais (BOPE), que efetuou os disparos, alegou legítima defesa putativa — quando há a presunção de ameaça, mesmo que não corresponda aos fatos. Logo após o caso, ele foi nomeado superintendente da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro.
Para Tamyris, moradora do Morro Santo Amaro, o caso de Herus alterou a rotina de toda a comunidade e evidenciou como o racismo estrutural segue presente. “Quando olhamos para esses casos, percebemos que a maioria das vítimas tem o mesmo perfil: jovens negros de periferia. Isso evidencia como o racismo estrutural ainda influencia a forma como esses territórios são tratados.” – declarou.
Ela reforça que a discussão sobre violência no Rio precisa ir além da presença policial: “Por isso, quando falamos de violência no Rio, a conversa não pode ser só sobre segurança pública. Ela precisa ser sobre respeito, dignidade e sobre garantir essas vidas”. Quanto à segurança pública, Tamyris cita que o Estado precisa estar mais presente de verdade, trazendo para além da polícia, políticas de saúde, educação, iluminação e outros projetos, além de um preparo maior do policiamento, trazendo mais inteligência. “Outra coisa essencial é o Estado se unir à comunidade, ouvir quem mora ali, entender nossas necessidades e parar de olhar pra gente como inimigo ou como pauta para justificar violência. Quando existe parceria, respeito e oportunidade, o ambiente fica mais harmonioso e a violência diminui.” – conclui.
A segurança pública na cidade do Rio de Janeiro segue como um dos maiores desafios. Falhas de estratégia, desinformação e falta de inteligência tática contribuem para um cenário em que operações destinadas a combater o crime organizado acabam gerando ainda mais insegurança entre os moradores, especialmente nas periferias e comunidades negras.



