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A incerteza da volta

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A liberdade de ir e vir é um direito civil do povo brasileiro, entretanto, para as mulheres, nem sempre esta garantia sai do papel. Tomadas pelo medo, elas se sentem receosas em realizar atividades cotidianas. Segundo uma pesquisa do Datafolha, realizada entre fevereiro de 2018 e fevereiro de 2019, 22 milhões de brasileiras sofreram algum tipo de assédio no período. Neste contexto, os aplicativos de motoristas particulares que poderiam facilitar a ida e a vinda de seus usuários, fazem parte deste problema.

Ana Carolina Melo faz parte dessa estatística. A advogada de 26 anos conta sobre os casos de assédio sofridos em carros de aplicativos. “O motorista começou a elogiar meu perfume e ficou falando incisivamente sobre isso, era desconfortável”. Em sua corrida, o condutor mudou a rota e, depois dela o alertar e pedir para que voltasse ao caminho previsto, ela ameaçou sair do carro. “Ele segurou minha mão, mas consegui abrir a porta e descer do carro”.

Em outra situação, ao entrar no veículo, o motorista começou a perguntar sobre a vida de Ana, alegando que ela era muito bonita e que, por estar na rua naquela hora, estava exposta ao perigo. Em seguida, ela pediu que ele a deixasse sair naquele momento e ele negou, mudando o caminho previsto. Em um semáforo, ela abriu a porta e correu para fora do carro, e ele a seguiu, “eu entrei em um posto e me tranquei no banheiro e ele ficou na porta me esperando”. Ela conseguiu escapar, mas o motorista voltou a pedir que ela voltasse para o carro. Após negar e o segurança do posto intervir, o motorista ficou esperando do outro lado da calçada, e a advogada ligou para sua prima pedindo ajuda.

Os institutos Patrícia Galvão e Locomotiva, ao divulgarem uma pesquisa, mostram a quantidade de casos como o de Ana. No estudo, 97% das entrevistadas foram vítimas de assédio em meios de transporte públicos ou privados. Os dados revelaram ainda que 46% das entrevistadas não se sentem confiantes ao usar meios de transporte com receio de sofrer algum tipo assédio sexual.

Muitas meninas ligam para alguém durante a corrida pois se sentem mais seguras em relação ao motorista. “Na hora eu liguei para o Fernando (seu companheiro) e mandei a localização”, é o que conta Julyanna Carim. A arquiteta, de 25 anos, diz que ao voltar de uma festa, foi questionada pelo condutor do carro o por quê de estar sozinha e se ela tinha namorado, alegando que ela era muito bonita. Enquanto isso, ele não seguiu a rota planejada e começou a dar voltas em ruas desertas.

Julyanna ainda comenta uma das frases ditas pelo motorista: “se eu te visse sozinha na rua na época que eu era jovem, nem sei o que eu iria fazer”. Segundo ela, só depois de ter ligado para Fernando, que o assédio parou. “O motorista ficava perguntando como meu marido me deixava sozinha, e que ele tinha que prestar mais atenção” e depois a deixou em casa.

Entretanto, nem sempre ao sair do carro as mulheres estão 100% livres de assédios e do medo. Eduarda Dalforne, estudante de 23 anos, já passou por uma situação de desconforto que durou até a manhã seguinte. Após uma festa, em um carro com as amigas voltando para casa, o motorista falava o quanto elas eram bonitas e que iam “passear” com ele.

A estudante conta ainda que o motorista ligou para outro homem e fez com que ela e as amigas falassem com ele, “o amigo dele falou que ia seguir o nosso carro”, e na hora o homem saiu da rota planejada, mas depois as levou para o local definido. No dia seguinte, pediram outro carro, e o da noite anterior ainda estava na porta da casa de sua amiga. “Quando chamamos quem aceitou a corrida foi ele. Ficamos desesperadas e cancelamos na mesma hora”, concluiu.

Tal violência não é exclusiva às mulheres adultas, desde pequenas, meninas também estão propícias a este tipo de situação. Julia Padilha, de apenas 16 anos, sofreu seu primeiro assédio aos 15 anos de idade. “Eu sempre olho a foto do motorista e quando entrei no carro, era uma pessoa completamente diferente. Achei esquisito, mas não me liguei muito na hora”. Ela comenta que estava de vestido e percebeu olhares do motorista para as suas pernas, que em certos momentos, mexia no retrovisor. “No final da corrida, eu saí do carro e ele disse ‘tchau, meu amor’, fiquei incomodada e com muita raiva”, conclui.

A estudante conta de outro caso em que o motorista pediu para que ela se sentasse ao lado dele e mudou a rota em vários momentos da viagem, mesmo ela o informando do erro. “Eu compartilhei a viagem com meus amigos, como sempre faço”. Ela ainda comenta que sua mãe a aconselha a ficar atrás do banco do motorista, assim dificulta que ele fique a olhando, como já havia acontecido.

Em nota, a 99 afirmou estar trabalhando para aumentar a segurança de seus usuários. O aplicativo já conta com um dispositivo que permite compartilhar a rota, enviando informações sobre o trajeto para que parentes e amigos acompanhem a localização em tempo real – recurso integrado ao botão de segurança do aplicativo, que permite entrar em contato com a polícia. Ainda segundo a 99, um sistema de câmeras monitoradas está sendo implementado em algumas capitais, no intuito de prevenir incidentes ou ajudar a polícia em investigações, se necessário.

Também em nota, Cabify alegou possuir um botão de segurança similar ao da 99 além de contar com um rígido processo de seleção para que casos como os citados nunca aconteçam. Procurada pela reportagem, a Uber não se posicionou.

Reportagem: Ana Júlia Oliveira, Carolina Oliveira, Diana Campos, João Victor Thomaz, Juliana Anjos, Renan Adnet e Yan Lacerda.

Edição: Juliana Anjos

 

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