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Futebol brasileiro: a pressão pela volta

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O Brasileirão de 2020 estava programado para começar no primeiro final de semana de maio, mas em decorrência da pandemia do coronavírus seu início foi adiado. Ontem, o secretário geral da CBF, Walter Feldman, declarou que o campeonato possivelmente volta em julho e se necessário utilizará datas em janeiro de 2021. Contudo, a prioridade ainda é a normalidade do calendário, primeiro os campeonatos estaduais, depois o nacional.

Walter Feldman afirmou também que o formato do campeonato se manterá o mesmo que é vigente desde 2006, pontos corridos disputados por 20 clubes com rodadas de ida e volta. O primeiro campeonato de pontos corridos foi disputado em 2003 e contou com 24 clubes por apenas dois anos. Com a intenção de enxugar o calendário, somente dois clubes subiram da Série B de 2005 mas foi mantido os quatro rebaixados. Isso fez com que o campeonato de 2005 contasse com 22 clubes, método repetido em 2006, quando chegamos no modelo atual.

Segundo uma pesquisa realizada pela Fenapaf (Federação Nacional dos Atletas Profissionais de Futebol), em parceria com o SIAFMSP (Sindicato dos Atletas de Futebol do Município de São Paulo), a maioria dos jogadores e jogadoras de futebol querem o retorno das competições. Ao todo, 734 atletas que atuam em todos os estados responderam a pergunta “você é a favor ou contra a volta dos campeonatos de futebol?”. Dos entrevistados, 68% se disseram a favor e 32% contra, com margem de erro de 4%. 

Além de responderem a esta pergunta, os jogadores detalharam suas motivações. A maioria disse que a situação financeira é uma das principais preocupações. Entre os atletas que desejam o retorno dos jogos, 33% disseram que precisam disso para voltar a ganhar o salário. 

A Alemanha foi o primeiro país a voltar com o campeonato nacional em meio à pandemia, no dia 16 de maio. Todos os jogos estão sendo realizados com portões fechados e respeitando as recomendações da OMS, inclusive nas comemorações dos gols. Para o retorno, a federação alemã traçou um plano para evitar a disseminação do vírus, que inclui testes regulares dos jogadores e demais funcionários dos clubes e limitação do número de pessoas nos estádios e nos arredores durante os jogos. Algo que vem chamando atenção na volta do campeonato alemão são as frequentes lesões dos atletas após a paralisação de dois meses. Nas seis primeiras partidas do pós-quarentena, oito jogadores sentiram lesão, sendo um desses casos durante o aquecimento. 

O Brasileirão passou por diversos formatos desde sua criação em 1971, nem todos tão ortodoxos. Em 1974, eram dois grupos de 20 times, os 10 primeiros se classificavam para a próxima fase. Esse campeonato tinha um outro critério de classificação curioso, os dois clubes não classificados por pontos com maior renda passariam de fase, os beneficiados por esta regra foram Fluminense e Nacional/AM. 

Em 1987, a CBF estava em uma crise financeira e não ia conseguir organizar o campeonato brasileiro. Alguns clubes se reuniram para que ele acontecesse. Organizado em dois módulos, este talvez seja o brasileirão mais polêmico da história, porque o Flamengo foi o campeão do módulo verde e o Sport do amarelo. Até hoje os times disputam o título do ano de 1987 nos tribunais. A zoação dos rivais sempre está presente nas redes sociais quando o assunto é este campeonato. No ano passado o Flamengo se sagrou heptacampeão brasileiro, e a zoação era de que o time tinha conquistado seu sexto título. O jogador Diego Souza quando era atleta do Sport, utilizava a camisa número 87 para provocar o Flamengo. 

No ano de 2000, aconteceu a copa João Havelange, com 116 times divididos em 4 módulos e que se classificavam para o sistema de mata-mata nas oitavas de final. A final foi entre Vasco e São Caetano e novamente com polêmica. O jogo no estádio de São Januário teve superlotação e a arquibancada não aguentou o peso da torcida, desmoronando, mas Eurico Miranda, presidente do Vasco, queria o reinício da partida. Apesar da pressão de Eurico, o jogo foi adiado e o Vasco venceu.   

O formato do campeonato brasileiro sempre gerou discussão desde a adoção dos pontos corridos. O Portal perguntou os motivos de alguns torcedores preferirem o mata-mata e de outros os pontos corridos.

Segundo Léo Feldman, que apitou jogos de futebol de 1976 até 2001, a adrenalina de uma partida de mata-mata é muito maior, principalmente porque o emocional de todos que estão envolvidos no jogo fica diferenciado. “Sou a favor do mata-mata durante meio ano”. Ele acha que esse formato de disputa é mais emocionante do que o estilo de pontos corridos. Para o ex-árbitro, os campeonatos no Brasil só deveriam ser retomados depois de que a pandemia esteja resolvida. 

Outra pessoa que tem preferência pelo modelo antigo é o jornalista Aydano Motta. “Eu não gosto conceitualmente do formato de ponto corrido porque acho que é uma solução europeia que funciona para a europa, mas que para o perfil de espectador do Brasil, que prefere o jogo final, decisão, clímax de ser campeão, nesse sentido os pontos corridos não funciona”. O jornalista ainda comentou que o clima que um mata-mata proporciona, torna os jogos épicos vivos na memória de quem acompanha o esporte. “É mais emocionante tanto que se você for ver em ponto corrido, que existe há 16 anos, deve ter uns três jogos memoráveis, não deve ter nenhum inesquecível porque são todos a mesma coisa”.

Com quase 70% dos jogadores querendo voltar aos treinos e jogos, e clubes como Flamengo, Grêmio e Internacional, já treinando, a discussão pela volta do futebol no Brasil ganha força. A curva de casos do coronavírus no Brasil ainda está na ascendente, mas mesmo assim a volta do calendário do futebol está prevista para Junho e Julho, por conta disso muitos jornalistas esportivos, como Aydano, são contra a volta do futebol nestas datas. “Não acredito que o campeonato deve começar em julho porque a pandemia não deu trégua, o Brasil caminha para ser o país com mais mortes pela Covid-19 no mundo, então não é momento para falar de volta do futebol”.

 

Reportagem: Carolina Mie, João Medina, João Pedro Camero, Felipe Rinaldi, Leo Garfinkel e Pedro Cardoso

Infográfico: João Medina

Edição de áudio: Pedro Cardoso

Supervisão: Mariana Colpas e Patrick Garrido

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