Deslocamento entre região metropolitana e capital fluminense fica 12,61% mais caro
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O aumento do preço da passagem sempre esteve em tópico, não é para tanto que o artista Xamã já em 2018 cantava “Ô governador, o senhor abaixa o preço da passagem”. Todos os dias, ainda antes do amanhecer, milhares de moradores da Região Metropolitana do Rio deixam suas casas rumo à capital. O trajeto pode ultrapassar duas horas e desde o dia 15 de fevereiro, ele também ficou 12,61% mais caro.
Já está em vigor o reajuste das tarifas de ônibus intermunicipais que atendem a Região Metropolitana do Rio de Janeiro. A medida foi publicada no Diário Oficial do Estado em 12 de fevereiro e passou a valer três dias depois no meio do carnaval. O aumento impacta diretamente trabalhadores que dependem do deslocamento diário entre municípios como São Gonçalo, Duque de Caxias e Nova Iguaçu para chegar aos seus empregos, serviços públicos e oportunidades concentradas na capital.
Além do aumento nas tarifas intermunicipais, o reajuste também impacta o valor do Bilhete Único Intermunicipal (BUI), benefício que permite a integração entre modais com pagamento de um valor máximo por trajeto. Com a atualização, o teto da tarifa integrada também foi reajustado para R$9,40, encarecendo o deslocamento de quem depende da combinação entre ônibus municipais, intermunicipais, trens ou metrô. É o segundo aumento nas tarifas em menos de um ano, movimento que reacende críticas sobre a política tarifária adotada pelo Governo Estadual.
A Região Metropolitana é marcada por forte movimento pendular, ou seja, quando o morador trabalha em um município diferente daquele onde vive. Dados do último censo realizado pelo IBGE indicam que, em diversas cidades da Baixada Fluminense, a maioria da população ocupada exerce atividade fora do próprio município. Em Japeri, por exemplo, cerca de 67% dos trabalhadores se deslocam diariamente para outras cidades. O índice também é elevado em Queimados (aproximadamente 64%), Mesquita (cerca de 60%), Nilópolis (58%) e São João de Meriti (55%). Esses números revelam a dependência estrutural da capital e evidencia como emprego e renda seguem concentrados no centro metropolitano.
“Toda manhã, todo final de tarde, a gente vê pessoas perdendo muitas horas. A Baixada está entre as cidades que levam o maior tempo de deslocamento do Brasil em relação ao Rio de Janeiro”, afirma Cadu Ribeiro, arquiteto e urbanista.
Segundo o geógrafo e sociólogo Henri Lefebvre, “o direito à cidade é o direito de todos os cidadãos de participar ativamente na construção e usufruto da cidade, incluindo o acesso ao espaço público.” A ausência de políticas que melhorem o planejamento das mobilidades periféricas resultam no afastamento desses cidadãos do direito à cidade.
“Direito à cidade é ter direito ao tempo, e é ter direito ao tempo de se cuidar, de ter acesso à saúde, a exercício físico, a lazer, a cultura, a um trabalho decente, mínimo, digno, e que você consiga consumir no comércio local sem muita insegurança”, afirma Vitória Rodrigues, estudante de comunicação e ativista do Movimento Metrô Justo.
Para quem recebe um salário mínimo, o impacto é direto no orçamento. Considerando duas viagens por dia, cinco dias por semana, o custo mensal do transporte pode comprometer parcela significativa da renda. Cadu Ribeiro aponta que aumentos sucessivos nas tarifas tendem a ampliar desigualdades territoriais, uma vez que moradores das áreas periféricas percorrem distâncias maiores e dependem mais do transporte coletivo.
Além do peso financeiro, o tempo de deslocamento também é um fator determinante. Moradores da Baixada e de municípios do Leste Fluminense frequentemente enfrentam trajetos que ultrapassam três horas diárias entre ida e volta. O tempo gasto nos deslocamentos reduz horas de descanso, convivência familiar e qualificação profissional, dimensões que também integram o debate sobre qualidade de vida.
Foto: Daniel Martins
Reportagem: Luisa Teixeira
Supervisão: Vinicius Carvalho



