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Bares LGBTQIA+: quando beber também tem a ver com a resistência

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Cerveja gelada, música e sair com os amigos são comuns nos finais de semana dos moradores do Rio de Janeiro. O estado do Rio possui aproximadamente 15 mil bares e restaurantes associados à Abrasel RJ (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes). Dentre esses estabelecimentos, há uma escassez de locais voltados para pessoas LGBTQIA +, que muitas vezes, não são representadas e sentem que não há espaços para elas. Alguns locais, no entanto, fogem à regra, como é o exemplo do Boleia Bar, em Humaitá.

Com a equipe formada apenas por mulheres lésbicas, bissexuais e trans, o Boleia é um espaço repleto de diversidade e voltado para mulheres. Lela Gomes, a dona do Boleia, reconheceu-se lésbica aos 16 anos e afirma que uma das motivações para a criação do bar foi perceber a ausência de locais em que a comunidade pudesse se sentir aceita. “Sempre fui muito ativa na comunidade e reparei que não existia um lugar feito e pensado para a gente. Desde então, sempre ocupávamos alguns espaços que não eram feitos para nós.”

Lela também conta que foi muito incentivada pela eleição do presidente Jair Bolsonaro e abriu o bar como maneira de resistir. “Desde muito nova, a vontade de abrir o lugar existia, mas deixava para lá. Quando o atual presidente foi eleito, resolvi tirar o sonho do papel como forma de resistência porque já imaginava que viria um retrocesso muito grande”, finaliza. O bar inaugurou em março de 2020 e ficou aberto por apenas 4 dias por causa da chegada da pandemia, tendo que se adaptar ao delivery. O estabelecimento enfrentou dificuldades e voltou a receber clientes no espaço físico um ano depois, com a flexibilização de medidas da COVID-19.

O estabelecimento tem conquistado o público por sua originalidade. Os pratos e drinks possuem nomes criativos, usando símbolos da comunidade, como “Frango a Piriquita” e “Maria Bethônica”. Além disso, fazem referência a episódios históricos ligados à resistência lésbica e demais comunidades LGBTQIA+. Juliana Valle, cozinheira do Boleia, conta que esses nomes também foram feitos com o intuito de conscientizar, como por exemplo o hambúrguer vegano, que se chama Stonewall, nome de um bar em Nova Iorque onde aconteceram eventos importantes que levaram ao movimento moderno de libertação e à luta por direitos LGBT no país, nos anos 60. “Associar Stonewall a alguma das opções veganas foi uma ideia de trazer consciência alimentar e política ao que consumimos”, conclui a cozinheira. 

Uma pesquisa realizada com pessoas e representantes de recursos humanos do Paraná, São Paulo e outros doze estados mostra que 38% das indústrias e empresas têm restrições para contratar membros da comunidade LGBTQIA+. Juliana fala da importância de existir lugares como o Boleia no mercado, em que nem sempre a aceitação é presente. Ela destaca a alegria em poder ser quem é na sua área de trabalho sem repressão alguma: “Assim como eu, muitas pessoas querem se sentir seguras e tranquilas em qualquer lugar pelo simples fato de sermos quem somos”. 

Um bar em Guarulhos (SP) foi condenado a pagar indenização no valor de R$25 mil a um cliente que foi alvo de xingamentos homofóbicos por parte dos seguranças do local, e essa é a realidade enfrentada frequentemente pela comunidade LGBTQIA+. Luísa Dias, uma frequentadora do Boleia, conta que o diferencial de lugares pensados para a comunidade é o ambiente livre e que proporciona segurança. “Somos respeitados e nos sentimos seguros em publicamente sermos nós mesmos”, finaliza. 

A existência de ambientes como o Boleia levantam a importância de nos questionarmos sobre representatividade e segurança para todos. Em um dos países que mais mata LGBTs no mundo, segundo dados do Grupo Gay da Bahia divulgados em 2019, torna-se cada vez mais importante repensarmos sobre diversidade e educação social, como aponta Juliana Valle. “Trabalhar em um lugar como o Boleia me fez perceber que somos perfeitamente diferentes uma das outras e está tudo bem nesse ponto, porque diversidade é isso”, conclui. 

Reportagem: Beatriz Chagas | Deborah Lopes

Supervisão: Gabriela Leonardi

Imagem: Beatriz Chagas

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