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Como dois livros brasileiros chegaram a uma biblioteca sobre censura em Portugal

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Há livros que entram para a história pelo que foi escrito. E outros passam a ser lembrados pelas tentativas de censura. É dessa junção que nasce a Biblioteca Manifesto (Manifesto Library), inaugurada em Portugal para reunir obras que, em diferentes épocas e países, enfrentaram episódios de repressão. Entre elas estão dois romances brasileiros: Olhos d’Água, de Conceição Evaristo, e O Avesso da Pele, de Jeferson Tenório. 

Inaugurado no fim de junho, o projeto foi idealizado pelo Clube de Livros Service95, fundado pela cantora Dua Lipa, em parceria com a Livraria Lello, de Portugal. O acervo reúne cem títulos organizados em quatro seções: poder, controle, voz e memória. Espalhados pelas estantes também estão títulos famosos como 1984, de George Orwell, O Conto da Aia, de Margaret Atwood, e A Cor Púrpura, de Alice Walker. 

A iniciativa surge em um momento de crescimento das tentativas de restrição: só em 2025, a American Library Association registrou mais de 4,2 mil títulos que sofreram tentativas de censura nos Estados Unidos, dos quais 1,6 mil retratam experiências de pessoas LGBTQIA+ e de grupos racializados. 

Da sala de aula às estantes

O primeiro título escolhido para ocupar as estantes da Biblioteca Manifesto foi Olhos d’Água. Publicado em 2014, o livro reúne quinze contos sobre a vivência de mulheres negras brasileiras. A história da chegada da obra ao acervo passa também pela trajetória da professora Daniela Torres, que concedeu uma entrevista ao Portal de Jornalismo.

Em 2021, ela, então professora de história do Colégio Vitória Régia, em Salvador, foi demitida após indicar a obra de Conceição Evaristo para uma turma de ensino médio. A proposta era discutir, por meio da literatura, temas como racismo, desigualdade e violência.

 

Daniela Torres/Foto: Divulgação

Daniela lembra que um dos estudantes se aproximou depois da leitura e disse: “Professora, a senhora fez a gente sentir uma dor que não era a nossa”. Para ela, aquele comentário resumia a proposta: fazer os alunos entrarem em contato com experiências que permanecem distantes de suas realidades.

No entanto, a repercussão da leitura chegou até os responsáveis dos alunos. Segundo Daniela, alguns pais passaram a questionar a escolha da obra, pediram seu afastamento da turma e defenderam que ela fizesse um pedido público de desculpas pela indicação do livro. Após meses, ela foi demitida.

Cinco anos depois, Olhos d’Água passou a ocupar outro lugar. O livro foi escolhido para inaugurar a Biblioteca Manifesto, tanto pelos temas que aborda, como também pela censura que sofreu. Para Daniela, essa escolha amplia o significado da iniciativa:

“Quando a gente fala de livros censurados, costuma olhar apenas para as obras. Mas existe uma história por trás de cada uma delas. Existe um professor que deixou de ensinar aquele livro, um estudante que deixou de acessá-lo, uma bibliotecária que precisou tirá-lo da estante”.

 

Outro caminho até Portugal

Também presente no acervo da Biblioteca Manifesto, O Avesso da Pele, romance do brasileiro Jeferson Tenório, acompanha Pedro, um jovem que reconstrói a trajetória do pai, Henrique, um professor negro morto durante uma abordagem policial. Ao tratar de racismo, violência de Estado e memória, a obra passou a integrar o Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD), do Ministério da Educação.

Em 2024, porém, exemplares do livro foram retirados de escolas estaduais no Mato Grosso do Sul, em Goiás e no Paraná. As secretarias estaduais de Educação justificaram a medida alegando que a obra continha “expressões impróprias” para menores de 18 anos. O Ministério da Educação contestou a decisão e reafirmou que o romance havia sido aprovado após avaliação técnica realizada por especialistas.

Na Biblioteca Manifesto, Olhos d’Água e O Avesso da Pele dividem a seção Voz, dedicada a obras que ampliam o espaço para narrativas historicamente marginalizadas.

Por dentro da Biblioteca Manifesto

Foi a seção “Voz” que a criadora de conteúdo literário Ana Júlia Barros procurou primeiro ao visitar o lugar, poucos dias depois da inauguração em junho. “A minha primeira pergunta foi: ‘Tem algum livro brasileiro aqui?’. Porque os livros brasileiros ainda encontram muita resistência em Portugal. Quando me mostraram O Avesso da Pele e, logo acima, Olhos d’Água, eu fiquei muito feliz. Ver dois livros brasileiros em destaque naquele espaço foi muito simbólico.”

Ana Júlia Barros/Foto: Divulgação

Para ela, a própria arquitetura do local reforça a proposta do projeto. “Os livros cercam quem entra na biblioteca. Você fica sentado no centro e os livros estão acima em estantes. É como se as obras conduzissem a conversa. Eu olhei para aquele espaço e pensei: é perfeito para que as pessoas leiam, conversem e permaneçam ali”, comenta.

Para Ana Júlia, a presença de Olhos d’Água e O Avesso da Pele naquele espaço resume a proposta da Biblioteca Manifesto, opinião compartilhada pela professora Daniela Torres. “A literatura, por um breve momento, te coloca no lugar do outro. Ao mesmo tempo, ela também te coloca no seu lugar, porque faz você refletir sobre os seus próprios privilégios e sobre aqueles que não têm os mesmos.”

Por: Adercino Orçay

Supervisão: Renata Fontanetto