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Reportagem: Bento Faria

 

Política externa do governo americano pode impactar na eleição de legislativa de meio de mandato nos Estados Unidos

A política externa do governo de Donald Trump, nos Estados Unidos, tem gerado forte desgaste da imagem doméstica do republicano e pode comprometer o sucesso do partido nas eleições legislativas de meio de mandato, as chamadas “midterms”. A avaliação é de especialistas ouvidos pela reportagem do Portal ESPM. 

A aprovação de Trump está em 37%, o menor patamar desde o início de seu segundo mandato na Casa Branca, segundo pesquisa The New York Times/Siena College, divulgada nesta segunda-feira, dia 18. 

As ações militares e a redistribuição de tropas norte-americanas ao redor do mundo se somam às repetidas e indisciplinas quebras de protocolo do presidente. Uma das mais polêmicas foi a declaração de Trump criticando duramente a Espanha e Itália que, segundo ele, “não ajudaram em nada” no conflito dos Estados Unidos contra o Irã. O republicano chegou a levantar a possibilidade de retirar as tropas americanas das suas bases de ambos os países. Outro episódio constrangedor foi protagonizado na presença da primeira-ministra do Japão, Sanae Takaichi. Na ocasião, o norte-americano fez uma piada sobre o ataque japonês contra a Marinha dos Estados Unidos em Pearl Harbor em 7 de dezembro de 1941, durante a Segunda Guerra Mundial, gerando mal estar com a convidada oriental em visita oficial à Casa Branca.

Além da guerra contra o Irã e o bloqueio do estreito de Ormuz, que impactou o preço do petróleo ao redor do mundo, Trump investiu contra os principais organismos intergovernamentais mundiais, como a Organização do Atlântico Norte (OTAN), a Organização das Nações Unidas (ONU), além dos parceiros históricos da União Europeia, que sofreram com a sobretaxa a seus produtos. 

“No fim, ninguém ganhou com essas tarifas, e a situação chama atenção em relação ao Reino Unido, porque o país tem uma relação tradicionalmente muito próxima com os Estados Unidos, inclusive depois do Brexit”, afirma a jornalista e correspondente internacional Bianca Rothier, que vive há 16 anos na Suíça. 

Guerra comercial abala OMC

A guerra comercial de Trump contra parceiros históricos e economias emergentes, como a do Brasil, também tem gerado impacto negativo nas operações da Organização Mundial do Comércio (OMC). Para economistas, a organização, criada há mais de três décadas, para reduzir barreiras, estabelecer regras claras de comércio internacionais e atuar na solução de conflitos comerciais, tem sido esvaziada pela imposição de tarifas unilaterais.

“Nesse contexto de imposição de tarifas de Donald Trump, a OMC acaba tendo a sua força muito limitada, principalmente pelos Estados Unidos, que são uma potência econômica e possuem uma política independente”, afirma Jonathas Goulart, economista-chefe da Firjan (Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro.

Além do efeito Trump, o crescimento de movimentos nacionalistas ou extrema direita também tem impulsionado o esvaziamento de organismos multilaterais. A avaliação é do jornalista e especialista em política internacional Marcelo Lins. “Na prática, houve uma mistura de estratégias no governo Trump. Por um lado, ele se afastou de organismos internacionais, como a Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Acordo de Paris. Por outro lado, não conseguiu se consolidar como um “presidente da paz”, como ele queria, participando de conflitos, contra o Irã, ações contra a Venezuela e suporte a Israel”, ressalta ele.

A estratégia do republicano é perigosa na opinião de Lins e deve impactar o xadrez eleitoral da maior potência militar do mundo. “Nas eleições legislativas, há risco de perda de maioria na Câmara dos Deputados, o que reduziria significativamente o poder do governo e fortaleceria a oposição”, enfatiza o jornalista. 

 

Supervisão: Pollyanna Brêtas

Foto de capa: REUTERS/Evelyn Hockstein