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Oscar 2026 tem recorde de indicações femininas, mas desigualdade de gênero na direção de fotografia persiste

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Em 98 anos, o Oscar para direção de fotografia permanece como uma das categorias com menor presença de mulheres entre os indicados aos melhores do cinema internacional. No próximo dia 15, quando a indústria cinematográfica se reúne para mais uma edição da premiação, a indicação de Autumn Arkapaw, americana de origem asiática, por “Pecadores”, marca a quarta vez que uma profissional disputa a estatueta, que desde sua criação nunca chegou às mãos de uma diretora de fotografia.

A premiação só passou a ter a presença de uma profissional do gênero feminino na disputa pela direção de fotografia em 2018, com Rachel Morrison sendo nomeada por “Mudbound: Lágrimas sobre o Mississippi”. Ana Galizia, diretora fotográfica e professora da ESPM, avalia que, embora a presença feminina no cinema seja relevante, sua produção é pouco valorizada: 

“O cinema sempre teve mulheres trabalhando na área, inclusive em funções técnicas. O problema é o apagamento dessas trajetórias e a falta de valorização desses trabalhos”, aponta Ana Galizia.

A falta de reconhecimento profissional das mulheres em áreas técnicas cinematográficas se estende para outras funções no cinema. O Oscar 2026 não tem indicações femininas nas disputas para algumas categorias técnicas, como montagem, trilha sonora e roteiro original. Em toda a história do Academy Awards, o gênero feminino tem sido mais presente em áreas associadas à estética e à valorização da beleza. Cerca de 70% das estatuetas da categoria de figurino até as edições até 2024, por exemplo, foram conquistadas por mulheres, segundo um levantamento da consultoria da Hibou, a pedido da Forbes Brasil.

Edição registra recorde de indicações femininas

Apesar dos números apresentados poderem despertar inquietação, esta edição é um marco na história do Oscar. As mulheres representam cerca de 30% das nomeações, o maior índice da história da premiação. São 74 mulheres que receberam indicações este ano, o maior índice anterior havia sido registrado com 71 mulheres em 2023.

Autumn Arkapaw durante as gravações de “O Sol Também é uma Estrela” (2019), dirigido por Ry Russo-Young, em New York City. Foto: Divulgação.

Mas o percurso para chegar até aqui não foi fácil. Foram necessárias 56 edições da premiação para que, em 1984, uma mulher, Kay Rose, ganhasse a estatueta de Melhor Som, uma das categorias técnicas, por seu trabalho em “O Rio do Desespero”. A falta de diversidade se repete dentro do próprio gênero feminino: Halle Berry foi a única mulher negra a vencer o Oscar de Melhor Atriz, em 97 anos de história da cerimônia.

Mesmo que de forma gradual, esses avanços na premiação são resultado de transformações sociais, que despertam no público uma inquietação e geram nos streamings uma necessidade de abordar certos temas e contratar uma maior diversidade de pessoas, analisa a diretora fotográfica da Rio TV Câmara, Marcela Amaral:

“Acredito que os estúdios não se preocupam em empregar mulheres. Acho que eles se importam em ter a imagem de que empregam mulheres”.

Desigualdade à brasileira

No Brasil, o cenário de desigualdade não é diferente. Dados da Agência Nacional do Cinema (Ancine) indicam que, entre os longas-metragens brasileiros exibidos em 2024, apenas 14,2% das direções de fotografia foram assinadas exclusivamente por mulheres, enquanto 66,8% ficaram sob responsabilidade exclusivamente masculina.

Para profissionais do cinema brasileiro, a falta de reconhecimento do trabalho de técnicas no cinema está ligada a preconceitos estruturais. Durante décadas, prevaleceu o pensamento de que profissões que dependem do manuseio de maquinários e equipamentos pesados devem ser destinadas a pessoas do gênero masculino. As mulheres estavam destinadas a postos como produção, figurino e direção de arte, enquanto áreas como fotografia e operação de câmera se construíram majoritariamente masculinas.

A diretora fotográfica Marcela Amaral acredita que a indústria tem avançado na busca pela equidade de gênero, embora ainda carregue marcas de uma estrutura antiga. 

“Nos últimos anos, eu percebi que a entrada de mulheres nas áreas técnicas se tornou muito mais comum”, avalia Marcela. 

A presença feminina na formação do setor já é uma realidade no Brasil. As mulheres são maioria entre profissionais com graduação (57%) e pós-graduação (67%), de acordo com  pesquisa realizada pela Ação Aliança por Mais Mulheres no Audiovisual, realizada em 2022. 

Ana Galizia, professora da ESPM, ressalta a importância de espaços de integração entre mulheres no mercado cinematográfico brasileiro. A diretora fotográfica destaca  iniciativas do DAFB, Coletivo de Diretoras de Fotografia. O objetivo é ser uma rede de apoio entre profissionais da fotografia cinematográfica, promovendo visibilidade e valorização do trabalho de mulheres nos bastidores do cinema.

Coletivo DAFB participa da mesa “Desafios da Diversidade na Cinematografia Atual”, dedicada à troca de experiências entre coletivos. Foto: Divulgação.

Ambientes como o DAFB contribuem para a promoção de discussões e lutas sobre o direito das mulheres de assumir cargos técnicos e enfrentar os estereótipos que ainda circulam nos sets de filmagem. Para muitas diretoras de fotografia, ocupar esses espaços técnicos também significa influenciar diretamente os produtos finais que chegam ao público. Para Ana Galizia, a presença de mais mulheres em funções criativas e técnicas contribui para diversificar perspectivas dentro do cinema e ampliar as possibilidades narrativas da produção audiovisual.

Já a diretora da TV Câmara, Marcela Amaral, acredita que as transformações na indústria cinematográfica dependem de questões que vão além das premiações ou da presença pontual de mulheres em determinadas produções. 

“A mudança não é específica é total. Ela tem que ser social antes de chegar ao industrial”, diz.

Para a diretora de fotografia, a construção de um ambiente mais equilibrado só é possível quando se move todo o ecossistema do cinema, que começa no reconhecimento das mulheres na sociedade, passa pelos pequenos festivais independentes e, posteriormente, ganha visibilidade nas grandes premiações internacionais.

 

Reportagem: Júlia Luparelli

Supervisão: Pollyanna Bretas

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