A partida que não termina para as mulheres no futebol
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A violência contra mulheres não se restringe ao ambiente doméstico. Ela também atravessa os estádios, ocupa as arquibancadas e se estende aos trajetos até os jogos. É nesse cenário que surge o Projeto de Lei 2448/22, de autoria da deputada Sâmia Bomfim (PSOL-SP), que propõe responsabilizar o poder público, clubes, ligas e federações pela prevenção ao assédio e à violência de gênero no futebol. O debate ganha urgência em um momento simbólico: o Brasil se prepara para sediar a próxima Copa do Mundo Feminina, ao mesmo tempo em que acompanha o calendário masculino, duas realidades que coexistem, mas não se equivalem.
A torcedora corintiana Caroline Maffei, integrante da Fiel Fazendinha, coletivo feminino ligado ao clube, aponta um problema estrutural: a evasão de responsabilidade por parte das instituições. “A maioria das federações e clubes tem a tendência de se esquivar e não abordar o problema”, afirma. Para ela, a comparação com o enfrentamento ao racismo no futebol é inevitável: punições mais duras podem produzir efeitos concretos. “Se eles pegassem mais firme nas punições sobre assédio, acredito que teríamos um retorno melhor.” Mas Maffei não ignora o limite das sanções. A violência, segundo ela, é também cultural e exige respostas que ultrapassem o campo disciplinar e alcancem o educativo.
Em dias de jogos, as agressões aumentam
Os números ajudam a dimensionar o problema. Pesquisa do Fórum Brasileiro de Segurança Pública em parceria com o Instituto Avon (2022) indica que, em dias de jogos, os registros de ameaça contra mulheres aumentam 23,7%, enquanto os de lesão corporal crescem 20,8%. Quando a partida ocorre na cidade do time, o índice sobe ainda mais: 25,9%.
Diante desse cenário, torcer passa a exigir estratégia. A própria Fiel Fazendinha nasce como resposta coletiva à insegurança. O nome remete ao Estádio Alfredo Schürig, a “Fazendinha”, hoje símbolo do futebol feminino do Corinthians. Mais do que uma torcida, o grupo se organiza como rede de proteção: em jogos de maior público, mulheres combinam trajetos coletivos para reduzir riscos.
Apesar do aumento da presença feminina nas arquibancadas, a experiência ainda é atravessada pelo medo. “A presença feminina no futebol brasileiro é grande, mas a que custo?”, questiona Maffei.
Visibilidade em alta, estruturas em atraso
O Brasil caminha para sediar, pela primeira vez, uma Copa do Mundo Feminina, a décima edição do torneio, número ainda distante das competições masculinas. O avanço em visibilidade, no entanto, convive com impasses históricos.
Para o jornalista Paulo César Vasconcellos, comentarista do Sportv, o crescimento do futebol feminino não tem sido acompanhado por mudanças estruturais em um ambiente ainda resistente à autocrítica. “O futebol é muito conservador e com enorme dificuldade para a reflexão. Enquanto assim for, continuará sendo um espaço propício a manifestações que ofendem e desprezam”, afirma.
No Congresso, novas iniciativas tentam responder a esse cenário. O Projeto de Lei 1550/25, do deputado Marcos Tavares (PDT-RJ), propõe medidas como campanhas educativas, ampliação dos canais de denúncia, capacitação de profissionais e planos específicos de segurança em dias de jogos.
A proposta dialoga com um ponto central levantado por Vasconcellos: a punição é necessária, mas insuficiente. “Punir é consequência. Sem educação, não há mudança de perspectiva.”
Violência em campo
A violência simbólica também se manifesta dentro das quatro linhas. Em fevereiro, durante o Campeonato Paulista, o zagueiro Gustavo Marques, do Red Bull Bragantino, questionou a presença da árbitra Daiane Muniz em uma partida de grande porte: “não adianta colocar uma mulher para apitar um jogo desse tamanho”.
A declaração resultou em suspensão de 12 partidas pelo Tribunal de Justiça Desportiva de São Paulo, punição restrita às competições estaduais. A limitação expõe a fragmentação do sistema disciplinar do esporte, como explica a advogada Renata Falcão, especialista em direito desportivo: cada instância atua em seu âmbito, o que pode reduzir o alcance das sanções.
Casos mais sutis também revelam a persistência de estigmas. Durante o Brasileirão, Neymar utilizou a expressão “acordou meio de chico” ao criticar a arbitragem de Sávio Pereira Sampaio. O termo, associado de forma pejorativa à menstruação, reforça a ideia de descontrole emocional e reproduz estereótipos historicamente dirigidos às mulheres, mesmo quando elas não são o alvo direto.
O jogo longo demais
A presença feminina no futebol brasileiro carrega marcas profundas de exclusão. Em 1941, um decreto de Getúlio Vargas proibiu as mulheres de praticarem futebol, sob o argumento de que a atividade era “incompatível com sua natureza”. A proibição durou quase quatro décadas.
Quando o veto foi revogado, em 1979, o futebol já estava consolidado como um território simbólico masculino. Hoje, mais de 40 anos depois, o passado ainda reverbera. A ampliação da participação feminina, seja como jogadoras, árbitras ou torcedoras, não eliminou as barreiras estruturais nem a violência cotidiana.
Às vésperas de sediar uma Copa do Mundo Feminina, o Brasil se vê diante de um paradoxo: celebra o avanço da visibilidade enquanto convive com práticas que restringem, silenciam e afastam mulheres do esporte.
A partida, ao que tudo indica, ainda está longe do apito final.
Por: Adercino Orçay
Supervisão: Pollyanna Brêtas



