Tela Brasil: A Netflix brasileira gratuita começa a operar com mais de 500 títulos do cinema nacional no catálogo
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De clássicos do cinema brasileiro Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), de Glauber Rocha, e Xica da Silva (1976), de Cacá Diegues, a sucessos contemporâneos como Carandiru (2003), de Hector Babenco, e Olga (2004), de Jayme Monjardim. A plataforma de streaming Tela Brasil começou a operar como aposta para fomentar a produção audiovisual nacional. Apelidada de “Netflix brasileira”, a ferramenta, com mais de 500 títulos, é gratuita e opera a partir de um serviço público.
Para o diretor e roteirista Gustavo Colombo, o cinema brasileiro ganha um novo aliado. Colombo enxerga essa iniciativa como um passo importante para a ampliação do cinema, garantindo que filmes nacionais sejam distribuídos. “É uma ferramenta importante. Tem muitos filmes que são produzidos e a gente tem dificuldade de colocar em uma sala de cinema, e também têm muita dificuldade de serem incentivados por streaming”, ressalta Colombo.
O projeto foi coordenado pelo Ministério da Cultura (MinC), em parceria com a Universidade Federal de Alagoas (UFAL), chegando com uma iniciativa diferente de todos os outros serviços do mercado, um acesso totalmente gratuito. Para acessar a plataforma, o usuário precisa fazer login com a conta Gov.br. Em princípio, o projeto só está disponível na versão Web, mas técnicos trabalham para lançar também um aplicativo.
Preocupação com serviços independentes
O sistema disponibilizará curtas, médias e longas-metragens, além de séries, e ainda conta com recursos de acessibilidade com audiodescrição, legendas descritivas e libras.
Especialistas ponderam que os ganhos do novo serviço não devem interferir na produção de streamings independentes. Para Pedro Butcher, jornalista e professor de cinema na ESPM-Rio, é importante verificar se o Tela Brasil não afetará as plataformas independentes, como historicamente aconteceu com o caso da produtora Embrafilmes que monopolizou, nos anos 80, a produção de filmes no Brasil. “Temos muitas plataformas interessantes, algumas pouco conhecidas, como o Cardume, e outras redes de streaming independentes que são muito importantes no Brasil para dar visibilidade a determinados filmes que têm mais dificuldade de circular. Como uma plataforma dessa poderia existir sem afetar a existência também das outras?”, questiona Butcher.
Relatório anual da Ancine de 2024 mostra que o mercado cinematográfico brasileiro ainda é amplamente dominado por produções estrangeiras, restando aos filmes nacionais uma fatia de apenas 10,1% do público total. Para Butcher, iniciativas como o Tela Brasil podem ser fundamentais para reverter esse panorama, desde que consigam dialogar com os jovens. “Deve ser feito de forma inteligente e estratégica, justamente para não virar algo forçado e gerar rejeição. Precisa ser uma proposta bem fundamentada, com filmes adequados, comentados e contextualizados que promovam um bom debate”.
Netflix brasileira anima jovens produtores
O serviço também dá esperança aos universitários, que podem esperar ter um espaço na seleção de títulos. Para a estudante de cinema Isabella Renck, de 21 anos, o “Tela Brasil” representa uma oportunidade de exibição de seus próprios trabalhos. “Nesse processo vai ser importante que os responsáveis não foquem apenas em obras que tiveram uma ótima recepção crítica ou um bom projeto de publicidade, como normalmente acontece nos streamings, mas que eles deem uma chance para que diferentes tipos de obra tenham seu espaço na plataforma”, comenta Isabella.
Essa realidade já é sentida por produtores que conseguiram emplacar suas obras nessa primeira fase do projeto. O documentário Prólogo, de Gabriel Marinho, lançado originalmente em 2014 após ser contemplado pelo programa Histórias que Ficam, é um dos títulos independentes presentes no catálogo. Para o diretor da obra, o Tela Brasil surge como uma oportunidade crucial de reaver o contato com o público.
“Ficar numa plataforma como essa, aberta, significa que agora o nosso filme vai sair daqueles círculos restritos, dos festivais, dos canais específicos, e conseguir, pelo menos potencialmente, ganhar boa parte do Brasil”, comemora Marinho. Para ele, a democratização digital atualiza o alcance de obras que antes eram vistas apenas como comerciais: “Significa que a gente agora vai conseguir talvez cumprir essa vocação de história pública que o filme sempre quis colocar”, diz
Escolha e curadoria
O projeto prevê um investimento inicial de R$9 milhões. Os filmes escolhidos foram escolhidos pelo Ministério da Cultura em parceria com instituições ligadas à preservação e difusão do audiovisual brasileiro, como a Cinemateca Brasileira, o Centro Técnico Audiovisual (CTAv), a Funarte e a Fundação Cultural Palmares. O ponto da curadoria é ampliar a divulgação de obras independentes que tenham dificuldade de distribuição nas plataformas comerciais.
O diretor Gabriel Marinho relata o orgulho de ver sua obra dividindo espaço com nomes que moldaram a gramática do audiovisual no país.“Estar lá a prateleira do Cinema Novo, a prateleira dos meus filmes formativos, e ali do ladinho está o Prólogo, é muito bom. Faz a gente reconhecer o nosso papel, a nossa trajetória no cinema. A gente passa a se reconhecer como parte desse processo formativo”, desabafa o cineasta.
Reportagem: Kaylane Pedroso e Letícia Capela
Supervisão: Pollyanna Brêtas
Foto de capa: Deus e o diabo na terra do sol/ Glauber Rocha



