Enredo de papel: quando a literatura contemporânea desfila na Sapucaí
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No carnaval de 2027, pela primeira vez, dois romances contemporâneos brasileiros vão deixar as páginas dos livros e atravessar a Marquês de Sapucaí. De um lado, a jornada de Samuel, protagonista de A Cabeça do Santo, que deixa o interior do Ceará e ganhará vida na Unidos da Tijuca. Do outro, a história das irmãs Bibiana e Belonísia, e a narrativa sobre racismo e disputa de terra, em Torto Arado, vão tomar forma na avenida pela Vila Isabel.
A relação entre literatura e carnaval está longe de ser novidade. O que chama atenção, neste caso, é a escolha simultânea de duas narrativas modernas. Para o sociólogo Bruno Filippo, é fator que pode indicar um novo momento para o carnaval do Rio de Janeiro.
“O Carnaval sempre foi amigo da literatura, sempre existiu uma relação entre escola de samba e literatura. Mas agora são obras recentes que ganharam visibilidade pela qualidade do produto e vão se tornar enredo de escola de samba. Isso é um ineditismo”, avalia o jornalista.
A Sapucaí já experimentou carnavais épicos com obras de autores como Jorge Amado e Mário de Andrade. Mais recentemente, em 2024, a Portela trouxe para a avenida Um Defeito de Cor, de Ana Maria Gonçalves. Livro que conta a história de Kehinde, uma mulher africana traficada para o Brasil. O desfile causou um grande impacto e a venda de exemplares do romance de 952 páginas bateu recorde.
Uma cabeça cheia de vozes
Tudo começa com um pedido. Antes de morrer, a mãe de Samuel, protagonista de A Cabeça do Santo, deixa seus últimos desejos: acender três velas para três santos diferentes e descobrir as origens da própria família. Em sua busca ele encontra abrigo dentro da cabeça oca de uma estátua gigante e inacabada de Santo Antônio. Ali o rapaz começa a ouvir diversas vozes femininas.
Publicado em 2014, A Cabeça do Santo, da escritora cearense Socorro Acioli, mistura religiosidade, humor e realismo mágico. A premissa diferente foi justamente o que conquistou o carnavalesco Lucas Milato, de 29 anos, que comanda seu primeiro desfile à frente da Unidos da Tijuca.
“O barato do carnaval é a possibilidade de apresentar para o público histórias curiosas. O ineditismo e a bizarrice dessa são itens extremamente necessários para se tornar um enredo”, afirma o carnavalesco.

Lucas Milato. Foto: Alex Maia
Milato revela que a decisão também nasceu de uma motivação pessoal. Antes mesmo de se apaixonar pelo romance de Socorro Acioli, ele havia se deparado com o caso verídico da estátua de Santo Antônio na cidade de Caridade, no Ceará, uma escultura que ficou incompleta por quase quarenta anos, com o corpo erguido no topo de um morro enquanto a cabeça permanecia abandonada no chão por falta de verba.
“O enredo propõe uma releitura da obra para criar uma nova narrativa sob a ótica carnavalesca”, conta Lucas. A autora da obra acompanha parte do processo criativo e mantém trocas com a equipe responsável pelo desenvolvimento do desfile.
Ao falar sobre o desfile, Milato revela quais elementos do livro podemos esperar na avenida: “Apesar da fé, do sonho e do realismo mágico serem subjetivos, eles estão esculpidos em outros elementos. A fé está nas imagens dos santos, nos relicários. Os sonhos estão no nosso cotidiano e no que a gente deseja alcançar. Mesmo sendo elementos subjetivos, são muito palpáveis e muito próximos da gente. Todos esses elementos e vislumbres vão estar esculpidos também no nosso desfile.”
As histórias da terra
Em Torto Arado, o baiano Itamar Vieira Junior cria a trajetória de duas irmãs que vivem no interior da Chapada Diamantina, na Bahia. Ainda crianças, um acidente envolvendo as irmãs transforma para sempre a relação entre elas. O romance revela a vida de uma comunidade marcada pelo trabalho na terra e pelas heranças da escravidão.
Antes de transformar Torto Arado em samba-enredo, os carnavalescos da Vila Isabel, Gabriel Haddad e Leonardo Bora, decidiram conhecer os locais que inspiraram a obra. A dupla visitou a região da Chapada Diamantina, onde Itamar Vieira Junior realizou as pesquisas que serviram de inspiração para o romance.

Leonardo Bora e Gabriel Haddad. Divulgação: Vila Isabel
“Na nossa visita à região da Chapada Diamantina, tivemos um diálogo muito interessante com os moradores do Quilombo do Remanso. Ali, conseguimos compreender questões muito importantes sobre o que eles representam enquanto sociedade, enquanto movimento de luta antirracista e enquanto luta pela terra”, afirma Haddad.
A história dos quilombos está ligada ao período da escravidão no Brasil, quando pessoas negras escravizadas formavam comunidades de resistência em busca de liberdade. O Quilombo do Remanso localizado em Lençóis, na Chapada Diamantina, é reconhecido desde 2005 pela Fundação Cultural Palmares, órgão federal responsável por identificar e certificar comunidades remanescentes de quilombos no Brasil.
Outro elemento importante que vai apontar na avenida é o Jaré, crença presente apenas na Chapada Diamantina. Marcada pela mistura de diferentes tradições, reunindo influências indígenas, africanas e do catolicismo, formando uma expressão de fé exclusiva do território.
Para Haddad, o contato direto com essas histórias foi fundamental para compreender como esses elementos precisam ser traduzidos com responsabilidade: “O que a gente preza é ter esse cuidado, esse respeito com aquilo que a gente está apresentando. E isso vem de diversos carnavais que a gente constrói”, afirma.
Os desafios da carnavalização
Para Aydano André Motta, jornalista e pesquisador do carnaval, os desafios não são iguais entre a Unidos da Tijuca e a Vila Isabel. Enquanto Lucas Milato teria uma tarefa menos complexa ao adaptar o universo fantástico de A Cabeça do Santo, Gabriel Haddad e Leonardo Bora tem um desafio maior ao transformar em espetáculo uma história marcada por racismo, disputa de terra e discussão sobre escravidão.
“Eu acho que o Lucas Milato tem um desafio menos íngreme, menos hostil que o do Bora e do Haddad. Porque o livro é uma história muito pesada. Então eles têm um desafio na carnavalização dessa história”, avalia Aydano.
Apesar da dificuldade, o jornalista considera a dupla da Vila Isabel uma das mais preparadas para esse trabalho. Para ele, Haddad e Bora vivem um momento de destaque no carnaval e têm a capacidade de lidar com a profundidade de Torto Arado.
Do CEP à ficção
Nos últimos anos, cidades e regiões do país ocuparam o foco dos desfiles em enredos patrocinados por governos locais, os chamados “enredos CEP”. Em troca da visibilidade proporcionada pelo carnaval, as escolas de samba recebiam recursos financeiros.
Aydano André Motta avalia que o modelo fortaleceu financeiramente as escolas de samba, mas cobrou um preço das narrativas apresentadas na avenida.
“A Sapucaí é uma plataforma de divulgação poderosa. Então eles vão falar de um lugar, ele vai passar a ser mais visitado e, em troca dessa propaganda, o governante de lá arruma dinheiro para o desfile. Isso enriqueceu as escolas, mas empobreceu a narrativa dos desfiles”, afirma.
Agora, Tijuca e Vila Isabel seguem outro caminho: um carnaval menos interessado em cartões-postais e mais voltado para histórias sobre identidade, espiritualidade e pertencimento. E a literatura contemporânea tem a chance de ganhar um novo tipo de leitor.
Reportagem: Adercino Orçay
Supervisão: Pollyanna Brêtas



