Como o Corpus Christi se tornou uma das principais tradições de São Gonçalo?
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A trajetória política e religiosa de uma celebração que se tornou patrimônio cultural da cidade.
Todos os anos, as ruas do centro de São Gonçalo são cobertas por toneladas de sal colorido, serragem e borra de café por uma multidão que transforma 2,5km de uma das principais avenidas do município em uma grande celebração de fé. Para os mais de 40 grupos envolvidos na montagem em São Gonçalo, incluindo paróquias, instituições de ensino e projetos sociais, a prefeitura disponibilizou mais de 1,6 mil sacos de sal.
Com mais de 30 anos de tradição, a celebração de Corpus Christi na cidade conta com a confecção de 236 tapetes – hoje considerados por lei como Patrimônio Público Cultural e Religioso do município. O evento, que hoje atrai cerca de 100 mil pessoas, se consolidou globalmente em outras cidades desde o século 16.
Para o mestre em história social Pedro Henrique Robaina, de 26 anos, a tradição dos tapetes de sal integra sua história desde a infância. Criado numa família que participava da montagem dos tapetes na paróquia local, ele acompanhava a atividade ao lado do avô.
Já na graduação em história, percebeu que, apesar de a cidade ser conhecida por sediar o maior tapete de sal da América Latina, poucas pesquisas acadêmicas estavam disponíveis sobre a tradição. Atualmente, como doutorando no Programa de Pós-Graduação em História Social da Faculdade de Formação de Professores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), Pedro dedica seus estudos ao patrimônio cultural e religioso de São Gonçalo.
O que faz o tapete de São Gonçalo ser considerado um dos maiores e mais importantes da América Latina? Esse título é oficial?
No decorrer da minha pesquisa, analisando legislações municipais, acervos de jornais locais como O Fluminense e o Jornal São Gonçalo, bem como organismos oficiais, não encontrei absolutamente nada que comprove de forma técnica que o nosso tapete é o maior da América Latina. Inclusive, há dados que apontam Curitiba como a detentora do maior tapete de sal do Brasil em edições recentes – o que logicamente anularia o título continental de São Gonçalo.
O que existe, na verdade, é uma construção discursiva muito forte. Dizer que é o maior da América Latina traz um elemento crucial de visibilidade e prestígio para a Igreja Católica e para o município. A imprensa reproduz isso historicamente através da oralidade e das matérias de jornal, e o próprio site da prefeitura replica essa informação nos seus releases oficiais todos os anos. As pessoas absorvem e reproduzem sem problematizar ou buscar uma análise crítica. Não estou negando a magnitude da festa, mas pontuando que, cientificamente, não há dados ou um “ranking oficial” que embase essa afirmação.
A festa ganhou muita força nos anos 1990. Pelo viés da história social, qual momento foi decisivo para a consolidação desse evento na nossa cidade?
Eu trabalho com a hipótese de que o crescimento expressivo do Corpus Christi em São Gonçalo, a partir de 1994, foi uma política de afirmação territorial da Igreja Católica. Quando analisei os censos do IBGE daquela época, percebi que, entre as décadas de 1990 e 2000, o número de evangélicos protestantes na cidade disparou. Se você perguntar aos padres hoje, a maioria vai negar essa motivação competitiva. No entanto, pesquisando os arquivos históricos, encontrei a ata de uma reunião do Vicariato de São Gonçalo de meados dos anos 1990 na qual o tema principal pautado pelo clero era, textualmente, o “medo pelo crescimento de evangélicos na cidade”.
Antes disso, a mobilização católica de massa acontecia na Caminhada da Ressurreição, que reunia os fiéis na Páscoa. Em 1994, os padres decidiram extinguir essa caminhada e transferir toda a estrutura e energia dos fiéis para o Corpus Christi. Para a teologia católica, o “Corpo de Cristo” não é só a hóstia, é também a comunidade reunida. Era preciso colocar a “igreja reunida” na rua para demarcar espaço num território que mudava rapidamente o seu perfil religioso.
O que significou transformar o Corpus Christi em patrimônio cultural de São Gonçalo em 2005? Isso mudou a forma como o evento é preservado?
Significou garantir a sobrevivência da festa por meio de uma lei. Em 2005, assumiu a prefeita Aparecida Panisset, então filiada ao antigo Partido da Frente Liberal, cujo mandato ficou marcado por colocar a máquina pública a favor do seu segmento religioso, o protestante, preenchendo cargos altos do governo com pessoas de sua confiança. Naquela edição de 2005, a prefeitura cortou o subsídio financeiro que tradicionalmente dava para a montagem dos tapetes. Diante desse impasse, houve uma grande mobilização das pastorais católicas e da Câmara de Vereadores. A solução veio através de um vereador do Partido dos Trabalhadores à época, Miguel Moraes. Como a maioria da Câmara também era evangélica, ele propôs aos parlamentares a patrimonialização simultânea de duas grandes festas da cidade: a Marcha para Jesus e o Corpus Christi. Ao pegar o texto das duas leis daquele ano, são idênticas, mudando apenas o nome do evento. Quando você transforma um bem em patrimônio cultural, além do reconhecimento simbólico, você garante por lei o apoio institucional e a subvenção financeira do Estado. Isso blindou o Corpus Christi de perseguições ou cortes políticos futuros, assegurando que o poder público financie a infraestrutura do evento.
Como um evento religioso consegue também disputar memória, identidade e poder dentro do espaço urbano de São Gonçalo?
Memória, identidade e poder estão intimamente ligados a quem domina as esferas institucionais. A memória urbana é altamente censurável; basta lembrar que um dos primeiros terreiros de umbanda do Brasil, fundado em São Gonçalo, no bairro de Neves, foi desapropriado e destruído durante a gestão da prefeita Aparecida Panisset, um apagamento histórico severo. Em contrapartida, o catolicismo historicamente desfruta de um poder de barganha muito maior. A Moreira César, principal via do município, é fechada de ponta a ponta apenas duas vezes ao ano: para o desfile cívico e para o Corpus Christi. Nenhuma outra religião consegue fechar a principal via da cidade e alterar todo o fluxo de transporte público. Na minha dissertação, divido essa identidade em três vertentes: a religiosa (sobre a performance da fé, os cantos, os ritos), a política (demonstrada na negociação com o Estado, visível nas primeiras fileiras de cadeiras reservadas para o prefeito e vereadores) e, por fim, a gonçalense (de como a população, mesmo de outras religiões, se apropria do evento como um marco cultural da própria cidade).
Como a tradição de tapetes em São Gonçalo dialoga com outras celebrações de Corpus Christi no Brasil? Existe alguma característica única daqui?
A Igreja Católica contemporânea preza muito a padronização ritual. As estruturas das celebrações na nossa região são muito parecidas. No entanto, se olharmos para a história, as tradições mudam muito. No período colonial, por exemplo, a procissão de Corpus Christi era extremamente rígida. Havia disputas acirradas e editais da Câmara Municipal quase como um concurso público para decidir quem tinha o status social de carregar o palio (cobertura que protege o Santíssimo Sacramento). A ordem das filas determinava a importância da pessoa na sociedade: quanto mais perto do Sacramento, mais importante você era. Além disso, São Jorge era o único santo permitido na procissão por ser padroeiro de Portugal e, hoje em dia, ele já não faz parte do rito.
Em São Gonçalo, a principal característica única é o gigantismo que demanda adaptações práticas. Em muitas cidades, a missa de Corpus Christi acontece dentro da catedral. Aqui é impossível, já que a matriz não comportaria o público de milhares de pessoas. Então, a missa é obrigatoriamente campal. O próprio palio sofreu uma modernização tecnológica: em vez de ser carregado manualmente por cidadãos ilustres como no Império, é preso e estendido em cima de um carro de som que acompanha o cortejo.
Em uma cidade marcada por tantas transformações sociais e urbanas, como manter viva uma tradição como essa?
O segredo está na transmissão geracional e na capacidade de adaptação da própria igreja. Existe uma memória afetiva familiar envolvida. Eu fui levado pelo meu avô. Essa passagem de bastão constrói a continuidade do costume.
Por outro lado, o evento sobrevive porque soube absorver as transformações da cidade. Quando São Gonçalo sofreu o declínio industrial da sua tradicional “Manchester Fluminense“, a cidade entrou num cenário de forte vulnerabilidade social. Esse vácuo socioeconômico é o terreno ideal para a atuação de novos grupos religiosos, como o neopentecostalismo e, dentro da Igreja Católica, a Renovação Carismática (RCC). A tradição se mantém viva porque aceita se reconfigurar para dialogar com o seu tempo.
Após concluir o seu trabalho, qual o principal aprendizado que o Corpus Christi deixa sobre a história e a identidade gonçalense?
O meu maior aprendizado foi conseguir descolar o meu olhar de católico praticante e pesquisar a minha própria religião a partir do viés científico da história social. A partir disso, passei a enxergar as tensões e as belezas da nossa pluralidade urbana. Passei a notar, por exemplo, missionários das Testemunhas de Jeová distribuindo folhetos silenciosamente nas calçadas paralelas aos tapetes católicos. Notei as disputas estéticas e os pequenos conflitos entre as paróquias por causa de sal, mas também vi a imensa rede de solidariedade e doação que se cria. O Corpus Christi nos ensina que São Gonçalo é uma cidade complexa e plural, que transborda os limites dos templos. Em pleno feriado, enquanto os preceitos sagrados ocupam o asfalto, os comércios da Moreira César abrem as portas, os camelôs vendem água e a economia local gira. A festa é um espelho dinâmico da sobrevivência e da identidade do povo gonçalense.
Reportagem: Luisa Teixeira
Supervisão: Renata Fontanetto



