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A Uruguaiana vai virar um shopping? Memória e identidade entram no debate sobre o futuro do mercado popular

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Duas praças de alimentação, quatro andares de área construída e um boulevard. O projeto que promete revitalizar o camelódromo da Uruguaiana já nasceu em meio à polêmica e enfrenta resistência dos próprios comerciantes. Para o vendedor Tiago Andrade, que trabalha há mais de vinte anos no local, a proposta compromete a preservação de uma identidade de mercado popular construída ao longo dos últimos 32 anos. 

“A gente não pode querer colocar um shopping no Centro da cidade porque vai perder a essência. A característica do mercado da Uruguaiana é ser popular”, opina Tiago. 

A declaração reflete o clima entre trabalhadores do local diante do projeto do Novo Mercado Popular, anunciado pela Prefeitura do Rio no dia do aniversário da cidade, em 1º de março. A proposta levanta um debate sobre o futuro de um dos principais polos de comércio popular da cidade. O Mercado Popular da Uruguaiana foi fundado oficialmente em 1994, pelo então prefeito César Maia.

Caminho do camelódromo

Em meio a disputas entre os ambulantes e o poder público, inclusive com cenas de confrontos abertos no Centro da cidade com a guarda municipal, os comerciantes que ficaram conhecidos em todo o Rio e fora dele por vender de tudo e a preços acessíveis: de sapatos a biquínis, de brinquedos a celulares, de camisas de clubes de futebol a lembrancinhas da cidade maravilhosa, aos novos serviços de manicure e barbeiros. Assim,  a Uruguaiana se consolidou como ponto turístico altamente frequentado por gringos de todas as nacionalidades. E agora pode dar mais um passo em sua história caminhando para a modernização, como promete a prefeitura.

O temor de Jefferson Rodrigo, de 33 anos, que trabalha na Uruguaiana há dois anos, é que a revitalização seja acompanhada de um processo de “gourmetização” do mercado popular, com aumento de custos para comerciantes e repasse para consumidores: “A pessoa vem para cá e quer preço. Se encontra o mesmo valor em outro lugar, não volta”, avalia. 

Do improviso ao luxo

A Uruguaiana se consolidou a partir da ocupação de vendedores ambulantes no centro do Rio ao longo do século 20, especialmente no entorno da avenida Presidente Vargas. Nos anos 1990, o poder público organizou a atividade com a criação do camelódromo, reunindo trabalhadores em um espaço fixo e estruturado. Desde então, o local passou por diferentes fases de crescimento, reorganização e adaptação às transformações do centro da cidade.

Para quem acompanhou o processo desde a fundação, a mudança é visível. A comerciante Cleide Ribeiro, de 60 anos, trabalha há 30 anos no local e lembra de um cenário improvisado. “Quando a gente chegou aqui, era um terreno vazio que não tinha nada. A gente amarrava as lonas da barraca numa pedra”, relata ao descrever um período em que a infraestrutura ainda era precária e o funcionamento dependia de soluções improvisadas.

A história também é marcada por momentos de ruptura. Incêndios atingiram a Uruguaiana em diferentes ocasiões e deixaram prejuízos significativos. O comerciante Alexandre Lima, de 55 anos, já passou por dois incêndios e perdeu tudo num dos episódios, em janeiro do ano passado. “Foi um curto-circuito de madrugada. Quando eu fiquei sabendo, já tinha ido tudo embora”, relembra. 

Reorganização das lojas e praça da alimentação

A proposta do projeto de revitalização prevê a construção de um novo complexo comercial com quatro pavimentos, reorganização dos 1,6 mil boxes já existentes, duas praças de alimentação e áreas destinadas a carga e descarga. O projeto inclui ainda área urbanizada de aproximadamente 10 mil metros quadrados e a criação de um boulevard ligando o mercado à avenida Presidente Vargas, além de melhorias em acessibilidade, mobiliário urbano e circulação de pedestres. 

A obra se insere numa série de projetos recentes voltados à requalificação do centro da cidade, como o Reviver Cultural, que tem como foco atrair atividades culturais para lojas vazias no Centro. Ambos têm o objetivo de melhora na mobilidade, ordenamento urbano e incentivo à circulação de pessoas. 

 

Foto: Projeto gráfico do Novo Mercado Popular/ Prefeitura do Rio

Parte dos comerciantes vê a iniciativa como necessária. “Se for melhoria, é bom para todo mundo. Vai ficar para os nossos filhos, nossos netos”, afirma José Leandro Pinheiro, de 37 anos, ao destacar o potencial de impacto a longo prazo.

Outros trabalhadores, no entanto, demonstram preocupação com o processo de implementação e seus efeitos imediatos. A comerciante Adriana Ferreira Oliveira, de 52 anos, questiona como será o período de transição: “A nossa preocupação é onde a gente vai trabalhar durante esse tempo”. Segundo ela, a possibilidade de realocação provisória ainda não oferece garantias concretas: “É uma promessa, mas a gente não tem certeza”.

A lojista também levanta dúvidas sobre os custos após a reforma e possíveis mudanças no funcionamento do espaço. “Vai ter um custo maior. Será que a gente vai ter dinheiro para pagar?”, questiona. A seu ver, alterações na estrutura podem impactar diretamente o fluxo de clientes: “Aqui é movido a turista. Se for muito fechado e diferente de como é hoje, acho que eles não vão conseguir entrar”.

A licitação para a escolha da empresa que fará a execução do projeto está prevista para o início de junho, e a prefeitura afirmou, por meio de nota, que as obras serão realizadas por etapas, com o objetivo de manter o funcionamento parcial do mercado. A proposta inclui a realocação temporária dos comerciantes, mas ainda não há detalhamento sobre o processo. 

Procurada pela reportagem, a assessoria de imprensa da Prefeitura do Rio de Janeiro enviou apenas o site oficial do projeto, sem apresentar novas informações sobre o cronograma detalhado ou as condições dos comerciantes durante a obra. 

 

Reportagem: Luisa Teixeira e Mirella Casanova

Supervisão: Pollyanna Brêtas, Renata Fontanetto e Vinicius Carvalho