CARREGANDO

O que você procura

Rio de Janeiro

Mães em luta: mulheres que perderam os filhos em ações policiais criam grupo de apoio e mobilização no Rio

Compartilhar

Há um ano, no dia 7 de junho de 2025, Herus Guimarães Mendes, de 23 anos, assistia às apresentações de quadrilha na tradicional festa junina do Morro Santo Amaro, onde nasceu. Afastou-se da família por um momento para comprar um lanche na padaria, quando policiais do Batalhão de Operações Especiais (Bope) entraram de surpresa na comunidade para uma operação. Herus foi baleado nas costas e morreu na hora. Imagens das câmeras corporais dos agentes mostram que ele segurava apenas um telefone celular, segundo o Ministério Público do Rio de Janeiro. Outras cinco pessoas ficaram feridas na operação. Sua dor a fez integrar um grupo formado há mais de 20 anos que hoje reúne 250 mulheres de jovens mortos ou desaparecidos em 13 cidades do Rio.

“A mãe morre junto com o filho, a mãe é enterrada junto com o filho. Uma parte da gente morre”, relata emocionada Mônica Mendes, mãe do jovem assassinado. Nas primeiras 48h após o assassinato do filho, ela participou de um ato pedindo Justiça. Mônica levou suas lágrimas e indignação ao programa “Encontro com Patrícia Poeta”, da TV Globo. 

O luto, a saudade e a busca por Justiça foram amparados na experiência de luta de outras mães que experimentaram a dor que ela vivia. ”Encontrar elas (outras mães) te mostra que você não está sozinha, te dá um conforto”, diz ela. Para Mônica, ver que existem outras mulheres que carregam cicatrizes semelhantes e que transformam o processo do luto em luta pela construção da memória e Justiça dos seus filhos é o que permite suportar a dor.

Mães partilham dor e lutam por Justiça

Em 31 de março de 2005, um grupo de policiais militares do 15º Batalhão (Duque de Caxias) saiu por bairros dos municípios de Nova Iguaçu e Queimados assassinando moradores em um raio de 15km. No total, 29 pessoas foram mortas por agentes do estado. Na ocasião, investigações apontaram que o episódio foi uma retaliação contra novo comandante que vinha combatendo desvios de conduta e corrupção. O caso ficou conhecido como “Chacina da Baixada”.

O primeiro morto dessa chacina foi Raphael Silva, de 17 anos, que nas palavras de sua mãe, Luciene Silva, era um rapaz alegre, atleta e sonhava em ser professor de educação física. Após o assassinato de seu filho, Luciene se engajou na luta pela construção da memória e fundou a Rede de Mães e Famíliares de Vítimas de Violência do Estado, na Baixada Fluminense.

O grupo foi inicialmente formado por familiares da Chacina da Baixada, que começaram a se reunir e perceber que a realidade da da Região Metropolitana era semelhante à de outras comunidades e, por isso, precisavam unir vozes para denunciar abusos e violência policial. A rede atualmente conta com cerca de 250 mães e atua nos 13 municípios da região, lutando ainda contra o racismo estrutural e o desaparecimento de jovens periféricos.

Número de mortos cresce na Baixada

De acordo com um boletim divulgado pelo Fórum Grita Baixada (FGB) em julho de 2021, a violência policial na Baixada Fluminense é proporcionalmente maior do que na capital e no restante do estado. O relatório aponta que, em 2020, as ações policiais resultaram na morte de 404 pessoas nos 13 municípios da região, sendo que 73% – ou 7 em cada 10 – das vítimas eram pretas ou pardas. O quadro de violência continuou crítico no primeiro semestre de 2021, período no qual mais da metade das cidades da Baixada registraram taxas de letalidade policial superiores às do município do Rio de Janeiro. 

“O papel da rede é acolher, amparar, dar suporte, orientar, dar voz, cobrar justiça, memória e reparação. E esse é o papel da rede de mães.” reforça Luciene Silva, fundadora do grupo. Para ela, esse coletivo é fundamental para que a luta pela justiça continue, para que consigam apoio psiquiátrico e psicológico custeado pelo Estado, e principalmente, para que não se sintam desamparadas ou abandonadas. 

“Organizar e participar de um coletivo é saber que você já passou por tudo aquilo e que hoje precisa ter estrutura para acolher as mães que estão chegando agora”, relatou Elisabete Farias, mãe de Vitor Oliveira de Souza, de 18 anos. Ele foi vítima de uma execução policial, em São João de Meriti. Na noite de 17 de junho de 2018, Vitor estava na garupa de sua moto, pilotada por seu amigo Victor Hugo de Jesus Pires, quando receberam ordem de parada de policiais militares do 21º Batalhão (São João de Meriti). Os jovens não obedeceram à determinação, dando início a uma perseguição que terminou com ambos sendo derrubados da motocicleta. Segundo relatos, após caírem no chão, Vitor ainda afirmou aos policiais que eram moradores do bairro. Mesmo rendidos e deitados no chão, os policiais dispararam tiros contra os dois.

Após quase 8 anos, Elisabete segue lutando contra o desamparo do Estado, e conta que a morte de seu filho teve consequências físicas e emocionais na família: “Nesse tempo todo que a gente fica nessa espera, muitas das mães morrem. Muita coisa acontece, porque elas adoecem. No meu caso, quem adoeceu foi meu esposo”, conta ela. Além disso, uma outra filha de Elisabete perdeu a visão em decorrência de diabetes, agravada pelo luto.

Para ela, participar desses movimentos e contar a história do filho mantém viva a busca por Justiça. Além de incentivar outras mães e familiares a se unirem e se fortalecerem, ela luta para que as vítimas não se tornem apenas estatísticas.

A luta como extensão da maternidade

O caminho de transformar o luto em ferramenta de combate também define a trajetória de Ana Paula Oliveira. Seu filho Johnatha de Oliveira Lima foi assassinado aos 19 anos, em maio de 2014, por um policial da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) em Manguinhos. Com quase 12 anos de militância, Ana Paula relata que o engajamento foi a única forma de suportar a ausência física do filho: “Foi exatamente na militância que eu entendi que eu podia exercer minha maternidade, que eu entendi que era o lugar onde eu poderia continuar sendo a mãe do Johnatha”, ressalta.

Para ela, a decisão de lutar surgiu no momento em que percebeu a tentativa do Estado de criminalizar seu filho logo após o crime. Ao assistir na imprensa o relato oficial da polícia que o rapaz supostamente teria trocado tiros com a polícia, uma narrativa falsa desmentida por testemunhas, ela compreendeu que precisava ser a voz de quem não podia mais se defender. “Eu precisava falar por ele, eu precisava gritar pro mundo que meu filho era um jovem trabalhador”, ressalta Ana Paula. 

Outros movimentos se levantam

O mesmo sentimento deu origem ao movimento Mães de Manguinhos, fundado em parceria com Fátima Pinho que perdeu seu filho, Paulo Roberto Pinho, vítima de espancamento até a morte pela UPP apenas sete meses antes do assassinato de Johnatha. A união entre as duas ocorreu após perceberem que os policiais da unidade já eram conhecidos por abordagens violentas e por hostilizar os moradores. Juntas, elas se uniram para esclarecer a morte dos filhos e participar de atos em outras regiões da cidade.

Ana Paula descreve a rede como um organismo de sobrevivência mútua, essencial para evitar que outras mães adoeçam. “A gente vai se acolhendo. Essa força ela vai se nutrindo uma para a outra”, afirma. Ela enfatiza que o apoio coletivo surge para preencher um vazio, oferecendo desde o abraço até a orientação política e jurídica que o próprio Estado nega. “Eu entendi que eu precisava estar viva para que o Jonathan continuasse vivo”. 

RAAVE: Da fragmentação institucional à política de atenção integral

A luta de Ana Paula também ajudou a dar vida à RAAVE (Rede de Acolhimento e Atenção às Vítimas de Violência do Estado). O surgimento da rede mostra a transição do luto individual dos familiares para uma articulação coletiva.

O movimento ganhou corpo a partir de um mutirão de cuidado na Chacina do Jacarezinho. No dia 06 de maio de 2021, 27 pessoas foram mortas e outras feridas. Na época, o advogado Guilherme Pimentel, coordenador da RAAVE, atuava como ouvidor da Defensoria Pública e tinha como missão desburocratizar e humanizar o atendimento  às famílias. 

O advogado passou a defender a implementação da “política de atenção integral”, que propõe o acolhimento integral das famílias. Essa abordagem articula as esferas jurídicas e psicossociais, garantindo o amparo completo das famílias sem a fragmentação dos processos burocráticos e isolados. A partir disso, a Ouvidoria articulou o Comboio de Direitos Humanos, que reunia a Comissão de Direitos Humanos da ALERJ, da OAB e o Núcleo Especializado da Defensoria. Guilherme explica que a articulação faz toda a diferença no tratamento dos casos, incluindo comboios de assistência motorizada: “Quando algo dava errado em algum lugar, a gente entrava todo mundo na van, nos carros e ia pra lá”, explica.

Grupo acompanha operação no Jacarezinho 

A estrutura que permitiu uma ação inédita no Jacarezinho. O grupo entrou na comunidade com uma operação policial ainda em curso. Para tentar interromper a ação da polícia, o Comboio de Direitos Humanos gravou um vídeo e surpreendeu os agentes enquanto atuavam pelos becos e vielas da comunidade. A atuação transformou-se em um movimento com as famílias do Jacarézinho, que conduziam o grupo até as provas de violência cometidas pelos agentes do Estado. 

O impacto dessa intervenção foi tão profundo que diversos grupos clínicos se aproximaram, percebendo que a produção de cuidado e atenção psicossocial ia para além daquele caso. Para o coordenador da rede, após o ocorrido, sua forma de atuação como advogado também foi transformada: “Eu, por exemplo, sou profissional do direito e na RAAVE me descobri como profissional da saúde, porque nós do campo do direito podemos produzir muito sofrimento com os nossos ritos aristocráticos”.  

A rede passou a atuar no fortalecimento do “sujeito coletivo”, fortalecendo a organização política das mães para mudar a realidade social. Hoje, a RAAVE opera com cerca de 20 dispositivos de cuidado que vão muito além do consultório tradicional. Na prática, o acolhimento oferecido pela instituição se desdobra em ações cotidianas: refeições coletivas, oficinas culturais e pedagógicas planejadas para ampliar o conhecimento das pessoas que compõem o grupo, encontros mensais dedicados à formação e articulação política, sem contar as marchas e atos públicos. Todas essas ações são ferramentas de produção de saúde, essenciais para retirar essas mulheres do isolamento.

O objetivo, ressalta Pimentel, é libertá-las do eterno retorno ao dia do crime, permitindo que atuem no presente e formulem projetos para o futuro: “Você as vê se transformando em leoas, se fortalecendo. A saúde é visível no olhar, na postura corporal, na linguagem”, diz o advogado. Através desse suporte coletivo, a luta de Ana Paula, Mônica, Luciene e de tantas outras mães deixa de ser um peso para se tornar a base de uma proposta de política pública que exige do Estado reparação, memória, Justiça e um novo futuro.

 

Reportagem: Bebeto de Pinho, Júlia Mota, Miguel Andrade e Taís Vianna

Supervisão: Guilherme Freitas e Pollyanna Brêtas

Foto de Capa: Tânia Rego/Agência Brasil