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Tragédia do Morro do Bumba: o retrato do racismo ambiental e dos eventos extremos 15 anos depois

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Foto de capa: Morro do Bumba desabou em abril de 2010 por Márcia Foletto

“Vai ficar marcado para sempre.” A frase, carregada de dor e memória, é do síndico André Vieira, conhecido como “Cajá”, 15 anos depois da tragédia do Morro do Bumba, o desastre ocorrido em 7 de abril de 2010, na comunidade de mesmo nome, em Viçoso Jardim, Niterói. Ao todo, pelo menos 48 pessoas morreram, deixando centenas de desabrigados e desaparecidos, num episódio que se tornou um dos símbolos do racismo ambiental que atinge as favelas do Rio. 

Vladimir Platonow/Agência Brasil. Foto da época do desastre

Em tempos de COP 30, o racismo ambiental fica ainda mais evidente. A conferência climática da Organização das Nações Unidas (ONU) começa amanhã (10/11), em Belém, no Pará, com uma agenda de negociação lotada. Na pauta para as duas semanas de tratativas, está a possibilidade de os líderes mundiais reforçarem seus compromissos em reduzir ou abandonar de vez o uso dos combustíveis fósseis – carvão, petróleo e gás natural -, que são os grandes responsáveis pelo aquecimento sem precedentes do planeta.  

E o que isso tem a ver com a tragédia do Morro do Bumba de 15 anos atrás? Muita coisa. Isso porque o episódio foi ocasionado por um evento de chuva forte na região metropolitana do Rio de Janeiro, na tarde de 5 de abril de 2010. O local recebeu uma enorme quantidade de água e ventos intensos, o que paralisou diversos pontos da cidade. Dois dias depois, o escorregamento de terra em Niterói, no Morro do Bumba, provocou ao menos 50 mortes. O morro abrigava um antigo lixão, local onde as casas foram erguidas, e a terra ensopada de chuva não aguentou e acabou virando um grande deslizamento.  

Segundo a Associação Brasileira de Recursos Hídricos, o desastre ocorreu por causa de “um erro de planejamento devido ao mau uso do local para implantação do lixão”, numa região com pouco espaço para a drenagem correta da água. Eventos extremos relacionados a fortes chuvas estão cada vez mais frequentes: aumentaram 222% entre 2020 e 2023 em comparação à década inteira de 1990, de acordo com um relatório da Unifesp deste ano.  

Para frear esse ritmo acelerado, a diminuição do uso dos combustíveis fósseis é uma das respostas, já que o aquecimento do planeta desequilibra o ciclo da água e, portanto, o ritmo das chuvas. É da COP 30 que pode vir a decisão que interrompe essas tragédias. 

Memória e descaso com a dignidade da população 

Para André Vieira, de 50 anos, síndico há nove anos do conjunto habitacional do Bumba, criado para abrigar as vítimas da tragédia, relembrar aquele dia não é fácil, pois traz à memória amigos e vizinhos que perdeu. Segundo ele, “o sentimento fica”, especialmente a alegria e o companheirismo que existiam entre os moradores antes do desastre. 

“A tragédia ficou marcada para sempre. Perdemos amigos, parentes… fica uma marca. Sempre que chega essa data, as pessoas lembram, mas seguimos tocando a vida da melhor forma possível. O sentimento permanece na memória. Estávamos sempre juntos, fazendo churrasco, e de repente tudo acabou. Cada um foi para um lugar, mas ninguém esquece. Foram vidas que perdemos. Pode passar o tempo que for, mas isso não vai apagar da nossa mente”, afirma o síndico. 

O desastre teve como principal causa as condições inadequadas de moradia e o acúmulo de lixo e entulho na região, que, somados às fortes chuvas daquela semana, provocaram o deslizamento. O morro, construído sobre um antigo lixão e sem qualquer planejamento público, estava saturado pela decomposição dos resíduos, e a pressão da água das chuvas foi o fator desencadeador da tragédia. 

Para o despachante Zé Mauro, de 51 anos, porém, a tragédia “começou muito antes”. Testemunha do desmoronamento, o sobrevivente critica o descaso e o abandono da região e dos moradores do Morro do Bumba — uma situação que, segundo ele, persiste até hoje, 15 anos após o desastre. 

“A tragédia começou muito antes. Foi uma sequência de descasos. Aquilo ali, na verdade, era uma lixeira. Depois que começaram a chegar as pessoas, não havia controle: alguém levantava o barraco e a prefeitura autorizava. E até hoje existe abandono, não cuidam de ninguém. Alguns receberam casas e outras ajudas, mas outros perderam tudo e tiveram que se virar, reconstruindo tudo de novo”, afirma. 

Como as favelas são as mais atingidas pelos desastres ambientais? 

A pesquisadora Isabelly Damasceno, internacionalista pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), destaca que as favelas são as mais atingidas pelos desastres ambientais no Estado do Rio. Na visão da comunicadora de causas, isso reflete o racismo ambiental, resultado da falta de saneamento básico adequado e da ausência de políticas públicas estruturais nessas localidades. 

“A dificuldade com o saneamento básico também é um ponto alarmante quando falamos em racismo ambiental. Se estamos acostumados a lidar com o mau cheiro, o risco de doenças devido à exposição a resíduos infectados e tubulações irregulares nas favelas, nos bairros ‘nobres’ da cidade esse cenário é impensável. Nas favelas, são os moradores que precisam dar conta dos problemas estruturais”, afirmou Damasceno. 

O termo racismo ambiental surgiu nos Estados Unidos, na década de 1980, cunhado pelo ativista Dr. Benjamin Franklin Chavis Jr., para denunciar como comunidades negras e pobres eram desproporcionalmente expostas a riscos ambientais. No Brasil, o conceito ganhou força ao evidenciar que as populações periféricas são as mais afetadas pelas mudanças climáticas. 

Aumento da incidência de fortes chuvas 

Para a pesquisadora, o saneamento básico é central para compreender esse cenário, especialmente com o aumento da incidência de fortes chuvas, como no caso do Morro do Bumba. Ela enfatiza que os territórios periféricos sofrem exponencialmente com alagamentos extremos, que, além de colocarem em risco os bens materiais, ameaçam diretamente a vida dos moradores. 

“A ausência de políticas públicas adequadas para as favelas e periferias do Rio de Janeiro empurra constantemente esses territórios para o centro das principais vulnerabilidades da cidade, e isso vai desde os desastres socioambientais até a crise de segurança pública. As favelas sempre foram o ‘quarto de despejo’ das cidades, como demarcou a imortal Carolina de Jesus”, destacou Damasceno. 

As relações que existiam no Morro do Bumba 

No Bumba, o desastre ambiental causou não apenas a perda de um território, mas também das relações que foram construídas entre os moradores. A dona de casa Fabiana Moraes, de 47 anos, outra sobrevivente, diz que tenta não se recordar apenas do morro que desabou, mas também daquele que existia, e que, até hoje, faz parte da memória de quem viveu ali. 

“Era um ambiente de união, de apoio mútuo. Quando a tragédia aconteceu, foi como um pesadelo. A dor da perda ainda é muito grande. Era um lugar onde todos se ajudavam. A tristeza do que aconteceu é imensa, pois não é só a perda das pessoas, mas também a perda daquele ambiente, daquela convivência tão bonita. Mas nunca será esquecido”, enfatiza. 

MP denunciou o prefeito da época 

Na época, o Ministério Público notificou o então prefeito de Niterói, Jorge Roberto Silveira (PDT), e o então secretário municipal de Serviços Públicos, Trânsito e Transportes, José Roberto Mocarzel, para que prestassem esclarecimentos sobre a tragédia. Eles foram investigados criminalmente por homicídio culposo, devido à negligência do governo municipal. 

A denúncia se baseou principalmente no relato do então secretário municipal de Integração Comunitária, João Batista Medeiros Júnior, que afirmou ter alertado Silveira e Mocarzel por e-mail, entre janeiro e março de 2010, sobre os riscos de deslizamento em várias regiões, incluindo o Morro do Bumba. O depoimento foi dado à Promotoria de Justiça de Defesa do Meio Ambiente de Niterói, mas nenhuma ação foi tomada à época. 

O que diz a prefeitura 

Desde o ocorrido, a Prefeitura de Niterói informou que foram entregues cerca de 4 mil unidades habitacionais em condomínios de 300 a 400 unidades na cidade, muitas delas destinadas à realocação de famílias afetadas pela tragédia. Segundo o governo municipal, a previsão é entregar mais 1 mil unidades de interesse social nos próximos meses e outras 4 mil nos próximos quatro anos. 

O município ressaltou ainda que, nos últimos 12 anos, após a tragédia do Morro do Bumba, foram investidos mais de R$ 1,7 bilhão em ações de resiliência e prevenção. Esses investimentos incluem a aquisição de equipamentos, a implementação de tecnologias, a capacitação profissional e obras de drenagem, pavimentação e contenção de encostas em diversas regiões da cidade. 

Além disso, segundo a prefeitura, em resposta à tragédia do Bumba, a cidade conta hoje com 46 pluviômetros automáticos e 37 sirenes instaladas em locais estratégicos de 33 comunidades. A Defesa Civil estruturou ainda Núcleos de Defesa Civil (Nudec) em diversas localidades, com mais de 3,4 mil voluntários para apoiar as ações emergenciais. 

Leonardo Simplício/Prefeitura de Niterói. Imagens da região do Morro do Bumba em abril de 2025.

Reportagem: Lucas Luciano
Supervisão: Renata Fontanetto

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