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O dilema da liberdade de imprensa no país

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Hoje, 3 de maio, foi proclamado pela Assembléia Geral das Nações Unidas, em 1993, o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa. Proposta pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), a data celebra o Artigo 19 da Declaração Universal dos Direitos Humanos, que afirma que todo o ser humano tem direito à liberdade de opinião e de expressão. Embora  o dia sirva para relembrar a importância do livre trabalho jornalístico para o mundo, a realidade enfrentada pela imprensa no Brasil é longe da ideal.

Desde o início do mandato de Jair Bolsonaro, o Brasil caiu 6 posições no ranking de liberdade de imprensa, divulgado pela entidade Repórteres Sem Fronteiras, atingindo a 111ª colocação e adentrando a zona vermelha. Segundo a organização, o ambiente proporcionado pelo atual governo para o trabalho dos jornalistas é tóxico. O repórter Vinícius Leal, da Globo, demonstra sua preocupação com a queda do país no ranking. “As tentativas de se descredibilizar o trabalho jornalístico hoje são inúmeras e, como é possível perceber, vêm também de pessoas que usam de suas posições institucionais para ter mais alcance”, diz.

Marcus Vinícius, jornalista há dez anos, relata que já sentiu na pele diversas formas de censura ao longo do período exercendo a profissão. O repórter da CNN Brasil conta que já foi agredido por tentar realizar o seu trabalho, e que a falta de liberdade está presente no dia a dia de todos que atuam na área, tanto no interior das empresas de comunicação, quanto no exterior. “Na rua somos agredidos verbalmente o tempo inteiro, parte da população que não concorda com a mídia tenta dificultar nosso trabalho. Geralmente ocorre também dentro do meio de comunicação, porque às vezes há interesses por trás”, afirmou.

Antônio Hohlfeldt, professor universitário, escritor e jornalista, atuou pelo Correio do Povo de Porto Alegre-RS durante a Ditadura Militar e contou que mesmo tendo um grande cuidado com as palavras ao escrever seus textos, era chamado mensalmente para prestar depoimentos na Polícia Federal. “Quase sempre eram as mesmas perguntas, se eu era comunista, se eu era contrário ao governo, por que eu escrevia contra”, relatou.

O jornalista também destacou a sensação de medo e preocupação de trabalhar na área da comunicação durante o Regime Militar, mas também ressaltou que possuía uma vontade constante de driblar a censura. Por fim, contou que tinha um espaço de resenha literária no caderno de sábado do jornal, no qual possuía maior liberdade para escrever, e buscava passar mensagens aos leitores. “Eu trazia livros que tinham uma visão crítica do regime autoritário, sobre economia e política. Esses artigos eram os que mais me traziam problemas”, concluiu.

Se a Constituição de 1988 pregava uma imprensa livre, o cerco aos profissionais não diminuiu com o passar do tempo. O repórter Tim Lopes, que revolucionou a maneira com que o jornalismo aborda problemas delicados de nossa sociedade, foi morto em junho de 2002 enquanto produzia uma matéria a respeito da exploração de menores nos bailes funk do Rio de Janeiro. Nessa época, Fernando Kallás, era estagiário na editoria Rio e trabalhava de forma próxima a Lopes, a quem considerava um mestre. “Foi uma dor muito grande para todos os colegas da redação, todos que conheciam ele e pra família, a forma com que ele faleceu.” afirma. 

Com a morte de Tim, toda a cobertura jornalística passou por uma reformulação. Kallás relata que, durante certo tempo, os repórteres foram proibidos de entrarem ou produzirem matérias em comunidades e que isso mudou sua forma de enxergar a relação da imprensa com a sociedade. “A gente achava que nós éramos, não vou dizer intocáveis, mas que existia um respeito pelo trabalho que a gente fazia e a morte do Tim Lopes mudou tudo isso.”

Dezenove anos depois, o trabalho dos jornalistas ainda está limitado. Dois jornalistas espanhóis foram executados na última segunda (28), em Burkina Faso, na África do Sul, quando produziam uma pauta que denunciava a caça ilegal na região. Isso mostra que a vida dos profissionais pode ser difícil, mas que existe uma missão por trás. “Se a gente não for a esses lugares, quem vai?”, questiona Fernando Kallás.

 

Reportagem: João Pedro Fonseca, Pedro Ribeiro e Lucas Guimarães.

 

Supervisão: Juliana Ribeiro.

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