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“É só uma gripe, lave bem as mãos, mas agora o estado de quarentena foi decretado aqui”. (Jaime Terra)

“Continuem a usar o bom senso e escutem os especialistas. Continuem a se ajudar sempre que possível. Esse é um momento onde precisamos passar por cima de divergências e contradições. É o tempo de colocar o interesse comum acima do interesse pessoal.” Essa foi a fala do Primeiro-ministro dos Países Baixos, Mark Rutte, em seu pronunciamento oficial a população. Desde o início do surto do coronavírus, já foram registrados 6.412 casos no país, com 356 mortes e apenas 3 casos de recuperação. 

Para entender o contexto neerlandês, conversamos com Jaime Terra, brasileiro de 28 anos, desenvolvedor de software e residente na cidade de Eindhoven. Vivendo com um filho recém-nascido e sua esposa Marcelle, ele conta como é lidar com essa situação em tempos de quarentena, e quais prevenções está tomando para melhor se proteger do vírus. 

 

Portal: Como foi ter um filho no meio disso tudo? 

Jaime: Foi um turbilhão de emoções na verdade. Dois dias antes dele nascer foram confirmados os primeiros casos e ficamos sabendo que uma das pessoas infectadas estaria no mesmo hospital onde o Davi iria nascer. Nós ficamos com medo, porém confiamos no sistema de saúde daqui dos Países Baixos. E apesar de ter dado tudo certo na cirurgia e a minha esposa estar em ótimas condições, havia  o medo dela pegar o vírus e piorar. Porém, todas as áreas do hospital são bem divididas, então não chegamos bem perto da parte onde o paciente com corona estava. 

 

Portal: Como é viver essa situação com um recém-nascido por perto? 

Jaime: Bom, fora as noites mal dormidas…(risos)…Bom, poderia estar pior, mas o fato de eu trabalhar com TI, me proporcionou a oportunidade de trabalhar de casa, o que facilitou bastante as coisas. Só de não ter que sair todo dia e me expor a chance de contrair o vírus já deixa as coisas mais fáceis. De resto todos os serviços de médico, midwife (é um tipo de enfermeira quando se está grávida que cuida do bebê por um tempo depois de nascido), estão meio que suspensos, são realizados apenas por telefone e chamada de vídeo. Elas pedem para somente ir no consultório se tivermos algum caso sério. Porém, graças a Deus, ainda não aconteceu e espero que não aconteça.

 

Portal: Quando a situação aí começou a ficar crítica? Quais medidas foram adotadas?

Jaime: Aqui em casa só começamos a nos preocupar quando percebemos que na Itália tiveram vários casos em um período de tempo, e aqui na União Europeia é liberado a ida e vinda de europeus para todos os países, então era questão de tempo até todos terem pelo menos um caso. No país, foi relatado o primeiro caso em Tillburg, o paciente foi isolado, porém foi descoberto que três dias antes, ele tinha ido a uma festa de carnaval. Os casos foram piorando na província de Noord Brabant, que é onde moro. Basicamente, o primeiro comunicado oficial foi dizendo para o povo lavar as mãos, mas depois que os casos aumentaram, aconselharam as empresas a fazer home office, que seria melhor para conter melhor o vírus. Por fim, no último comunicado, foi dito que o vírus já estava instalado, pediram pra quem pudesse que continuasse trabalhando de casa, mas que não poderia ser feito muito além do evitar ir à rua, lavar as mãos e etc. E concluiu dizendo que a maioria da população pegaria o vírus, pessoas morreriam, mas que os Países Baixos passariam por isso, como sempre fizeram. 

 

Portal: A sua mãe foi acompanhar o nascimento do seu filho, houve algum problema com o retorno dela para o Brasil?

Jaime: Sim, mas não foi tão ruim. O vôo dela estava datado para 25 de março, porém foi cancelado. Tudo que fizeram foi mandar um e-mail avisando que estava cancelado. Não se propuseram a remarcar, ligar ou algo do gênero. Tudo que eles disseram era que era possível remarcar pelo site, mas não conseguimos de forma imediata. Só depois de alguns dias ligando e mandando mensagens, meu pai conseguiu remarcar o vôo e ela pôde voltar pro Brasil no dia 23 de março. Entendo que foi uma completa loucura, já que a companhia tinha muitos casos para resolver, mas não acho que tenham tomado as melhores decisões.

 

Portal: Parte da sua família ainda mora no Brasil, como tem sido o acompanhamento da situação? 

Jaime: Não só com essa situação, mas eu sempre tentei acompanhar as coisas no Brasil e estou preocupadíssimo, pra falar a verdade. Tenho uma avó de 95 anos, uma tia-avó de 90 e, além disso, minha mãe tem diabetes, com risco de pegar esse vírus, e o pior de tudo é que isso não depende delas. Depende das outras pessoas, de como elas vão se comportar, de como o governo vai se comportar, porque se só elas ficarem em casa, mas o resto da população continuar indo pra rua, o pior vai acontecer em algum momento.

 

Portal: Você conseguiu notar alguma diferença das medidas que o Brasil adotou em relação a Holanda?

Jaime: Inicialmente as medidas foram as mesmas, a ideia de “é só uma gripe, lave bem as mãos”, mas agora o estado de quarentena foi decretado aqui, medida que já estava sendo implementada em algumas cidades do Brasil. No entanto, depois do discurso de ontem do presidente Jair Bolsonaro, me parece que as medidas do Brasil se tornem diferentes do resto do mundo. Já em relação ao teste para confirmar a presença do vírus, nos Países Baixos só é feito em pessoas que apresentam os sintomas mais graves, assim como no Brasil, acredito. No meu ponto de vista, a maior diferença é a postura das empresas e do comércio. Aqui nos Países Baixos as empresas estão compreendendo o estado de quarentena e liberando seus empregados, e o fechamento do comércio não gerou reclamações.

 

Portal: Na Holanda a quarentena não é obrigatória, quais medidas você tem adotado? 

Jaime: Basicamente lavar a mão muitas vezes ao dia, quando saio na rua pra fazer alguma compra tento manter uma distância segura das pessoas e antes de pegar meu filho no colo uso álcool em gel. Está começando a acabar e não tem mais nos mercados, isso me preocupa, e evitar sair de casa, claro.

 

Portal: Como a sua empresa lidou com a situação do coronavírus? E os funcionários, como eles reagiram?

Jaime: A empresa em que trabalho sempre seguiu as recomendações do Primeiro-ministro. A partir do momento que ele recomendou o home office, a empresa fez o mesmo. E quando o as autoridades disseram que seria mandatório, a empresa fechou o escritório e todo mundo começou a trabalhar remotamente. Agora, de 3 em 3 dias eu recebo um e-mail do RH comentando e dando dicas de como trabalhar de casa. Ontem recebi uma carta da empresa pedindo desculpa por colocar alguns funcionários nessa situação, de tirá-los de seu ambiente de trabalho, até mandaram um chocolate para se desculpar. Os funcionários no início estavam achando desnecessário todo o movimento, porém, vendo como as coisas foram piorando, eles mudaram de ideia e viram que era necessário.

 

Vivendo a realidade de outro país e acompanhando a situação do Brasil, Jaime e sua família escreveram uma mensagem de apoio e conscientização aos brasileiros.

“Pessoal, o mundo está passando por uma grande mudança nos dias de hoje, especialmente no que se trata do coronavírus, quarentenas, mudanças de hábitos, crises econômicas. Neste cenário, é importante lembrar que não estamos sozinhos e que vivemos em uma sociedade, onde se importar com o próximo é fundamental. Então cuidem da sua saúde, prestem atenção na sua higiene e nas recomendações que são feitas. Fiquem em casa e lembrem-se: Preservando sua saúde, você estará também cuidando da saúde de todos os outros. Esperamos que em breve esse vírus esteja contido, mas até lá faça a sua parte!”

Reportagem: Alberto Ghazale, Anna Miranda, Carolina Mie, Felipe Rinaldi, Gabriel Lorenzo, João Medina e Pedro Cardoso

Supervisão: Mariana Colpas e Patrick Garrido

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